sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ode à pungência




Enfadonha-me a vida desse jeito!
De exceções para justificar o injustificável
De ser maioria quando o assunto é a falta
Quero mesmo é o calor, o contato, o suor
Que à boca não seja vetado o direito de amar
Que lhe seja permitido um clássico EU TE AMO
Que, na ausência das palavras, seja permitido o silêncio significante
Quero mesmo é sentir-me no outro 
Sem medo de a este ser proibido me olhar nos olhos e aceitar um chocolate por mim oferecido
Nego o estranhamento, o impedimento, a naturalização do inaceitável
Reivindico o simples, o leve...
Que a todos seja permitido apreciar o crepúsculo de um dia calmo, o perfume das coisas, os olhares perdidos/achados
Baterei na porta da felicidade até que ela me atenda 
E só descansarei quando não mais precisarmos forjar um último dia do ano.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Alguém viu Noel?

Há tempos que o bom velhinho não mais me engana. Para ser exata, desde que dei de cara com meu pai pondo meu presente embaixo da cama. Poxa, como eu não precisava ter tido aquela experiência! Tudo bem que o meu velhinho também era barrigudo e daria um bom papai Noel. Mas não, não era ele que eu queria encontrar naquela noite.

Essa história me veio à mente quando dia desses eu me deparei com uma situação no mínimo endêmica das nossas relações fetichistas. Eu estava no ônibus de uma pitoresca cidade que, nos próximos dias, será meu novo endereço, Aracaju. Tudo convergia para ser mais um fim de tarde como qualquer outro: ônibus cheio, pessoas com rostos cansados e pouca paciência. 

Já ouvi por várias vezes comentários do tipo: " Oh, como nessa época do ano tudo se enche de magia. É mesmo o espírito de natal." Creio que por ter ouvido tanto, terminei acreditando. Não fosse a surpresa que tive nesse tal fim de tarde em terras sergipanas. 

Lá pelas tantas de minha viagem, entrou no ônibus uma certa figurinha que não tinha mais do que 8 ou 9 anos. De cheio que estava o transporte, eu só ouvia aquela pequenina voz começando o ritual de apresentação. Neste momento, eu só pensei: "como é cotidiano essas crianças pedindo em transportes públicos". Meu espanto se deu quando o menino começou a explicar o que o trazia ao coletivo. Quem raios imaginava um garoto pedindo ajuda para comprar sua roupinha de natal?! roupinha de natal, isso mesmo!

Pois é, mas o meu estranhamento não parou por ai. Não bastasse um garoto ter coragem de pedir para ter uma roupa nova de natal, a reação das pessoas foi ainda mais surpreendente. Os passageiros olhavam para o garoto como a um bandido de colarinho branco. Ouvi até um "Era só o que me faltava... pedir pra comprar roupa nova. Se ainda fosse pra comprar comida..." O fato é que poucos o ajudaram. O menino desceu do ônibus e eu o acompanhei com os olhos até onde pude. E não conseguia parar de pensar. Pensar no tanto de antagonismos que regem essa sociedade. Nem com tantas luzes a iluminar a cidade, nem assim... 

Enquanto as ruas fervem de pessoas a perambular por um modelito novo. Enquanto crianças fazem suas listas para o velho Noel. Enquanto pais compram presentes para suprir a falta de um beijo, de uma boa conversa. Enquanto amigos e nem tão amigos compram presentes para confraternizações chatas. Enquanto essa tal normalidade vigora, lá embaixo, para os de baixo, só resta olhar pra cima e ver a que horas esse tal trenó chegará.

domingo, 28 de novembro de 2010

O beijo

Para dias de sombras cariocas, olhares transviados, nada melhor do que poemar a realidade pelos olhos da materialidade cotidiana!
E tome Drummond neles...
(...)



Mandamento: beijar a mão do Pai
às 7 da manhã, antes do café
e pedir a bênção
e tornar a pedir
na hora de dormir.

Mandamento: beijar
a mão divino-humana
que empunha a rédea universal
e determina o futuro.
Se não beijar, o dia
não há de ser o dia prometido,
a festa multimaginada,
mas a queda
— tibum — no precipício
de jacarés e crimes
que espreita, goela escancarada.

Olha o caso de Nô.
Cresce demais, vira estudante
de altas letras, no Rio de outras normas.
Volta, não beija o Pai
na mão. A mão procura
a boca, dá-lhe um tapa,
maneira dura de beijar
o filho que não beija a mão sequiosa
de carinho, gravado
nas tábuas da lei mineira de família.

Que é isso? Nô sangra na alma,
a boca dói que dói
é lá dentro, na alma. O dia, a noite,
a fuga para onde? Foge Nô
no breu do não-saber, sem rumo, foge
de si mesmo, consigo,
e não tem saída
a não ser voltar,
voltar sem chamado,
para junto da mão
que espera seu beijo
na mais pura exigência
de terroramor.

Olha o caso de Nô.
7 da manhã.
Antes do café.

(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 27 de novembro de 2010

De sabores, de cores e com nuvens de algodão

Se a verdadeira Kahlo, a Frida, estivesse viva, talvez não fosse a pintora cortante que foi. Ao invés de passar longos dias a se olhar por um espelho no teto, muito provavelmente ela teria aderido à moda do facebook, do msn e a tantos outros artifícios nem tão úteis assim oferecidos pela internet. Ufa! Ela salvou-se. O acidente sofrido lhe trouxe dores, trocas de gesso, cirurgias e mais cirurgias, mas também, uma inflamável forma de tocar fogo no mundo.

Eu, de cá, não tive a mesma sorte. O pé quebrado me trouxe problemas de trabalho, de locomoção, de coceiras noturnas difíceis de sanar e um tanto de outras coisas chatas nada legais de contar aqui. Ah, só pra constar, óbvio que não faço comparação alguma com o acidente sofrido por ela.

Mas vejam só como são as coisas, é mais ou menos um "eu que não fumo pedi um cigarro", porque eu que tinha saido do orkut, devido à tanta superficialidade e mesmice, depois de longos tempos de resistência, fiz uma conta no facebook. Mas faço como Oswaldo Montenegro, to falando isso, mas não era bem isso que queria dizer. Quero falar da parte boa, afinal, dessa situação, espremendo tem que sair algo. E sai sim!

Meu acervo de bons filmes e documentários (nunca os assisti tanto) deu uma boa crescida. Leio menos do que desejo, mas nem tão pouco assim. A janela do meu quarto é a fresta para meu contato com o sol (que toma meu quarto pelas tardes, e como toma..), com a noite, com a chuva (rara, é verdade), com a lua (nossa, vi uma tão linda certo dia!), com os moradores dos prédios vizinhos (caramba, como conversam potoca num volume estridente!).

Aluno(a)s, depois de um mês distante, reencontrá-los foi um misto de dor (física mesmo, pelo esforço seguido), tristeza, mas, majoritariamente, um apoio demonstrado por lágrimas de saudade, risadas por ver a professora manca e finalização de atividades letivas de forma magistral. Mataram a tia de orgulho!

Amiga(o)s - escrito desse jeito mesmo, porque elas predominam - sempre dispostas a me sacanear, me tirar a paciência (ah, não falei ainda, esse molho forçado tem me deixado ainda mais ranzinza, a ponto de eu me exergar como meu pai em vários momentos.) e, simultaneamente, me proporcionar largas e idiotas risadas. 

Botões, amigos sempre presentes. Os tenho convocado sempre que um ponto teima em não ser final.

Então, é isso!




Ela que não anda, atravessa a rua por páginas de livro.
Tem sede de álcool, de vida, de vivência.
Mas aprendeu que um passo, só se for depois do outro,
de preferência, sem saltos!!!!





   

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Espoliação "consentida"

Escrevo. Apago. Escrevo e novamente apago... sob um movimento quase que automático. As ideias me parecem inertes. Não por falta do que dizer, ao contrário, por puro atropelo.
Na ausência de vinho, bebida tema de belas crônicas galeanescas, resta-me o som, da música escolhida e, ainda mais, das ideias a fustigar minha cabeça. 

É engraçado como as leituras mudam a partir da mudança das nossas próprias experiências. É mesmo a tal da dialética. A vontade de escrever esse post veio depois de reiniciar uma leitura realizada ainda em tempos de graduação. A obra, que mesmo depois de décadas é de uma vitalidade tamanha, é As veias abertas da América Latina, de autoria do Eduardo Galeano (tão citado neste espaço). Admira-me a capacidade com que ele passeia por temas tão instigantes, mas não menos doloridos, de forma tão laboriosa. Como ele disse em outra obra, suas letras são dedicadas a dar voz aos que são "desprezados por aqueles que desprezam as próprias ignorâncias".

Depois de ler páginas e páginas, minha inquietação ardeu ainda mais no momento em que o autor começa a descrever a devastação provocada pelo avanço do capitalismo - ainda em tempos de colonização ibérica - aos povos indígenas da América pré-colombiana. O relato é feito sob vários aspectos, dos econômicos aos culturais, mas nunca perdendo a noção de totalidade dos acontecimentos.

É estarrecedor saber que das sociedades Incas, Maias e Astecas foram dizimados cerca de 86 milhões de índios em pouco mais de um século de domínio europeu. 
As cidades de Cuzco (Peru) e Potosí (Bolívia) são exemplos emblemáticos, forçadas a suprir as necessidades econômicas dos cofres franceses, holandeses, e, principalmente,  ingleses, tiveram seus índios tragados pelas mazelas das minas. Cotidianamente, massas indígenas iam e não mais retornavam. Era o progresso que chegava em futuras terras Latino-Americanas.

Entretanto, de tantos fatores, um me chamou mais atenção, o incentivo à proliferação de substâncias alucinógenas por parte das nações dominadoras. Minha inquietação não deveu-se exclusivamente ao fato em si, mas pelo que ele remete. Não precisa ter grande poder de abstração para perceber milhares de contradições no sistema capitalista, ainda que uma gama de imponentes teóricos se valham de ideias inovadoras para defender o quão bom é viver numa sociedade onde a liberdade não passa de um molho com o qual escolhemos como queremos ser devorados, como diz Galeano.

No caso das drogas, fica demarcado que ao falar de combate, não é intenção do Estado salvar todo e qualquer sujeito. Isso porque, fora as grandes somas que rendem esse mercado, é o próprio modelo de produção desenfreado que oferta como única opção à massa de trabalhadores o uso de tais substâncias.
Foi com o incentivo do uso da folha de coca, em terras bolivianas no auge da mineração, por volta dos séculos XV e XVI. Mas também é hoje, com trabalhadores das lavouras de laranja, cana-de-açúcar, como também em ramos totalmente diferentes, como o de transporte. É cada vez mais comum motoristas de ônibus e caminhão fazerem uso de substâncias que os mantenham acordados por mais tempo.


(...)

Tais antagonismos só me fazem perceber que por mais propagandeada que seja a evolução nas relações sociais sob a égide do capitalismo, não é necessária uma lente genial para perceber que o odor continua a exalar. O alvo da miserabilidade e desumanidade, de tempos em tempos, tem sempre corte de classe!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Para os casos de porosidade, escorregue



o vento
vadio e inebriante
que soa, 
ecoa
aturde
bate à porta
que torta
rebate 

faz pensamento               cimento 

                              e dele, parte                 





domingo, 31 de outubro de 2010

Galeaneio eu, galeaneamos nós...


A paixão de dizer

Marcela esteve nas neves do Norte. Em Oslo, uma noite, conheceu uma mulher que canta e conta. Entre canção e canção, essa mulher conta boas histórias, e as conta espiando papeizinhos, como quem lê a sorte de soslaio.

Essa mulher de Oslo veste uma saia imensa, toda cheia de bolsinhos. Dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para ser contada, uma história de fundação e fundamento, e em cada história há gente que quer tornar a viver por arte de bruxaria. E assim ela vai ressuscitando os esquecidos e os mortos; e das profundidades desta saia vão brotando as andanças e os amores do bicho humano, que vai vivendo, que dizendo vai.

(Galeano. O livro dos abraços.)



sexta-feira, 22 de outubro de 2010

De repente um dia...

Todos os dias ela cumpria um ritual: olhos arregalados, mirava o teto de seu quarto. A chuva do último inverno deixara marcas na pintura já antiga. Aquele cenário era prato cheio para a criatividade de uma menina de 10 anos. Ali a entrada era franca. Participavam da festa leões com trombas de elefante, a professora Jacira, a primeira a mostrar-lhe o mundo letrado e também um montão de pipoca com chocolate. Era tudo muito harmônico, bastava forçar um pouco a cabeça para tudo mudar e, num instante, os leões usavam óculos e a tia da escola dava lugar a uma bicicleta amarela.

Nascida numa cidade qualquer, os vizinhos a olhavam com certa desconfiança. Dizia uma senhora, assídua frequentadora das calçadas, para uma outra moradora:
- Sabia não, faltou oxigênio na hora do parto, por isso ela ficou assim. É lelé, tadinha.
Na escola, amigos eram espécie em extinção, a não ser pela Laura, menina de vívidos olhos caramelados. As duas sempre sentavam juntas na aula e dividiam os trabalhos solicitados pelos maestros.
A estranha, como foi apelidada pelos colegas de turma, adorava perguntar sobre os mais variados assuntos. Certo dia, soltou uma pérola que não agradou em nada o professor de religião. A menina queria saber qual era o horário de trabalho do senhor Deus, porque no dia anterior notou uma família interinha se atirando nas lixeiras de sua rua procurando não sabia bem o que.
- Acho mesmo que ele estava em dia de folga, professor. Comentou a espivitada.

Ela era filha única, fora muito desejada pelos seus pais por anos. Ainda sim, percebia em sua mãe uma certa inquietude toda vez que chegava algum bilhete solicitando seu comparecimento na escola. Por duas vezes pensou ter ouvido dona Marta cochichando sozinha no terraço depois de abrir um desses "convites".

Os dias se passavam e nada muito diferente acontecia. Logo pela manhã ia à aula. Chegava em casa por volta de meio-dia e duas horas depois já estava em seu quintal trepada ao pé de carambolas. E ficava por lá até ouvir os gritos de dona Marta, chamando-lhe para fazer os deveres de casa.

De repente, um dia chegou na escola um novo aluno. Era meio de semestre e, se já era difícil pra ela que estudava lá desde pirrota, quem dera para aquele garoto (ainda por cima com aqueles ferros todos nos dentes). O professor de inglês chamou-o para que se apresentasse. Conhecendo bem a turma como ela conhecia, já imaginava o que estava por vir...
Ressabiado, o menino não ousou fitar a turma. De cabeça baixa falou seu nome: Paulhinho (infelizmente aquele bendito aparelho não lhe permitia a pronúncia certa). E no mesmo instante fez-se o coro de altas risadas.

Ela o olhava, olhava...

Na hora do recreio, Paulinho estava em companhia de seu lanche e um livro. Ninguém se aproximava dele. Era norma de conduta entre os demais alunos. Por certo tempo ela só observava-o, tinha dó daquele garoto. Ele parecia ser legal. Pensou em falar-lhe algo, mas não teve coragem.
A indigesta rotina manteve-se por longos dias. Longos, mas não infindáveis...

No final de semana, os dois se encontrariam no parque da cidade. Ela vestia vermelho e ele estava sentado no chão, escorado a uma árvore e envolto em mais um de seus pesados livros.
Ela respirou fundo. Aproximou-se e, de súbito, estendeu-lhe a mão.
Paulinho olhou para cima com uma das mãos sobre a testa, numa busca inútil de desviar os reflexos do sol. No canto da boca, deixou escapar um certo sorriso tímido. Levantou-se, limpou as mãos na bermuda xadrez e continuou:
- Prazer, meu nome é..
E, antes que pudesse completar, ouviu um "Paulinho, eu sei".
O menino achou curioso tanta agonia, mas preferiu não comentar. Optou por devolver com uma pergunta: E você?
Pela primeira vez ela não sabia o que dizer. Tentava esconder a vermelhidão do rosto mas não tinha jeito. Demorou uns segundos e soltou:
- Humm... na escola eles me chamam de estranha, dizem que meus pais não tiveram criatividade para me dar um bom nome. Enfim... Felicidade. Meu nome é Felicidade. 
E antes que ele tivesse tempo de falar algo, a menina agarrou-lhe pela mão e saiu correndo.

sábado, 16 de outubro de 2010

No vosso e em meu coração

Madrugada, silêncio, solidão... dor física
Vontade de colo, fuga da concentração, 
sob este cenário, a escolha de uma película: Terra e liberdade.
Após quase duas horas de filme não dava para simplesmente fechar os olhos.
Deixo aqui a indicação aos que, como eu, incomodam por se incomodar.
Também uma singela homenagem aos que lutaram e morreram por uma sociedade justa e possível (A propósito do tema, ver compêndio de belas fotos)



Espanha no coração 
No coração de Neruda, 
No vosso e em meu coração. 
Espanha da liberdade, 
Não a Espanha da opressão 
...A Espanha de Franco, não! 
Espanha republicana, 
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso, 
De Casals, de Lorca 
Irmão assassinado em Granada! 
Espanha no coração.
(Manuel Bandeira)

Guernica,  pintura de Picasso em homenagem à memória da Guerra Civil Espanhola




"Eles são muitos mas nós sempre seremos mais"...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Silêncio e só

Mais um dia findou para ela. Abre a porta de casa, nada mudou de lugar.
Pensa alto... seria melhor retirar o sofá daquela parede.
De tão cansada, joga o corpo sobre a cama. Hoje em particular os ombros lhe pesam ainda mais.
Olhos fechados, breve silêncio (os pensamentos dão uma trégua). Um riso largo é um cartão de visita para criar coragem e botar a cabeça na janela. Lá embaixo, uma menina linda brinca com suas bonecas.
Em uma das mãos ela segura um chocolate e o faz com tamanha gana que o perde por entre os dedos.
Num ato ligeiro e sapeca lambe dedo por dedo e limpa a pequenina mão em seu vestido, agora não mais branco.
A rua oferece um cenário de cotidiano entediante. Latidos, buzinas... o cheiro convidativo do jantar vindo do apartamento ao lado.
Tira a roupa como se pedindo que elas mesmas fizessem a tarefa. Chico Buarque para dar coragem. Chuveiro ligado, deixa a água cair sobre seu corpo por um longo tempo. Ao menos a aparência fica mais receptível. Mas ainda não é o bastante, um sentimento de oquidão toca o peito. Ele é companhia cativa, desde quando?! 
O livro na cabeceira olha para a moça cabisbaixa e oferece-lhe o final daquele poema abandonado dias atrás. 
Leitura mais apropriada não poderia existir para tanta solidão. "Bem no fundo" era isso que ela sentia...

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

(Paulo Leminski)

... recebe um abraço do travesseiro e adormece, amanhã será o novo do mesmo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Surpreender-me sempre com o rotineiro!²

Quem diria que em plena segunda-feira eu teria uma experiência dessas. 
Foi algo tão mágico e singelo que, depois do acontecido, o dia se foi e minha garganta não mais pedia, ordenava um grito.

Estava eu numa das muitas salas de aula por onde transito cotidianamente. O dia começava, e como já adiantei, era segunda. Minha cara não era a das mais felizes, meu corpo ainda procurava onde escondi um tal descanso. 

Fui aplicar prova de filosofia e marquei com uma aluna uma reunião pós-aula para que ela me apresentasse o trabalho que faltara entregar. Eu, mantendo a fama de exigente, indiquei que só aceitaria uma defesa no gogó. É isso ai, se sabe, fale! Esse é meu lema. 
Não houve objeção.

Nossa, como eu não sabia o que me esperava...
A aluna M, é assim que a chamaremos, compareceu no horário previsto, agora em outra sala, onde eu dava continuidade ao dia de aulas. Ela puxou a cadeira e sentou próximo a mim. O assunto era a filosofia tominiana. M mostrou-se tranquila na defesa do que tinha estudado. Sobre a mesa, a apostila fornecida por mim, já em estado decadente. É, realmente ela havia estudado! Coitado do texto, deveria ter sido vítima de grandes amassões, torturas e afins...

M é uma jovem negra, repetente, de família humilde, de beleza peculiar, enfim, não é padrão... passa desapercebida. Eu já tinha me dado por satisfeita com sua exposição, mas M, com um sorriso contagiante, não parava de tagarelar. Foi, foi, foi até que enveredamos pelo mundo da leitura. A essa altura eu já nem me dava conta de que os outros pimpolhos faziam prova, e eu, a caxias, já estava desarmada.

Penso que por mais que eu descreva, minuncie... não vou conseguir materializar o que senti. Como diz o título desse post, o rotineiro sempre me surpreende. Quando eu podia imaginar que de uma segunda chamada, para cumprir com as burocracias de nota, eu teria um momento desse???

Descobri o universo de uma menina que foge à regra. É fanática, não por internet, mas por livros, se diz romântica, tem como melhor escritor o José de Alencar. 
Soltei uma risada quando M me disse que nas férias, depois de não ter mais o que ler, pegou um livro de direito de um primo (mesmo sem a menor ideia do que se tratava o título). Ela devorou-o em 7 dias, coisa que o dono do livro ainda estava a enrolar por semanas.

Certo dia, contava-me, chegou seu primo em casa com a incubência de elaborar um texto discorrendo sobre a utilização de algum artigo daquele bendito livro. M olhou pra ele e disse:
- Isso é fácil, pegue o 9º, ele fala sobre a cidadania e a defesa da igualdade entre os homens.
Surpreso, seu primo resolveu fazer um teste.
- Hum? como sabe? em qual inciso está isso ai? 
- No 2, respondeu M.

E ela me disse, 
- Sabe, professora, lá na lei é assim. Eu sei que de verdade não é, mas na lei... 


Em silêncio, eu estava claramente afetada. 
No momento, M lê sobre a história do folclore, é xereta. O livro que escolheu é parte de uma coletânea de outros 3. Mas M não é tão fora do padrão assim, ela é curiosa. Confessou que não aguentou esperar e foi fuçar o último livro, quer saber o que é o folclore de Alagoas.

Papo bom, mas o tempo havia passado rápido, os últimos alunos entregavam a prova e tínhamos que ir.

Agradeci à M (ela ficou sem entender o motivo) e prometi-lhe uma nova leitura.
Ela foi-se, e já distante gritou:
-Ei, não esqueça meu livro heim... rsrsrs





Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.

Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas
(Clarice Lispector)

Dedico esse post à M de hoje e a tantas Êmes que torço encontrar!

sábado, 18 de setembro de 2010

História da carochinha


Não dá pra deixar passar.  
O Carta Maior divulgou hoje em seu site uma matéria que me deixou com uma certa quantidade de pulgas atrás da orelha. Ao abrir a página me deparei com o seguinte texto:

DISPOSITIVO MIDIÁTICO DESISTE DE SERRA E QUER INVIABILIZAR FUTURO GOVERNO DILMA

PRESIDENTE LULA MOBILIZA 30 MIL PESSOAS EM CAMPINAS E CONVOCA A RESISTÊNCIA AO ARRASTÃO GOLPISTA

aspas para o Estadão, 17-09: "... o Largo do Rosário, na região central de Campinas foi tomado por cerca de 30 mil pessoas... Apesar do esquema para proteger Lula, muitos prédios comerciais no entorno estavam abarrotados de curiosos nas janelas. Um limpador de janelas parou o que estava fazendo na marquise de um prédio ,ao lado do palco, quando Lula começou a discursar...." Aspas para o discurso do Presidente:

"...nós não vamos derrotar apenas os blocos adversários tucanos, nós vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como se fossem partido político e não têm coragem de dizer que são partido político e têm candidato...Eu estive lendo algumas revistas que vão sair essa semana, sobretudo uma que eu não sei o nome dela. Parece "óia” ... destila ódio e mentira. Ódio...Tem dia que determinados setores da imprensa brasileira chegam a ser uma vergonha. Se o dono do jornal lesse o seu jornal e o dono da revista lesse a sua revista, eles ficariam com vergonha do que eles estão escrevendo exatamente neste instante. E eles falam em democracia... Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública...Eles não suportam escrever que a economia brasileira vai crescer 7% este ano, não se conformam é que um metalúrgico vai criar mais emprego que presidentes elitistas que governaram este País.Não tem nada que faça um tucano sofrer mais do que a gente provar que eles têm um bico muito grande para falar e um bico pequeno para fazer..."
Esse cara é bom mesmo, não podemos negar. Ora, não fosse por um péssimo hábito de desconfiar do óbvio, ele teria me convencido. Resolvi então dar mais trela e segui lendo. A tônica da matéria está na postura assumida pelos grandes veículos da imprensa brasileira que têm comparado as atuais posturas do Lula a Hitler. 

"Alguns dos principais jornais do país estão, há algumas semanas, trabalhando diariamente para imputar ao Presidente Lula a pecha de “ditador” e qualificar a eventual vitoria de Dilma como uma ameaça à democracia. Foi o próprio Serra quem retomou o termo “República Sindicalista”, em reunião com militares no Rio de Janeiro. Agora, o remake de uma antiga propaganda de um periódico de São Paulo insinua comparações entre Lula e Hitler (sic), numa ignóbil peça publicitária que insulta a inteligência dos brasileiros. Cabe lembrar que, no sombrio despertar das ditaduras latino-americanas, golpistas jamais aplicam "golpes". Na pior das hipóteses adotam "medidas extremas para salvar a democracia"."  (leia o texto na íntegra http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16972).

Concluída a leitura, me senti numa história infantil, daquelas que os pais contam quando precisam que os filhos adormeçam mais rápido. 
Ou o(a) autor(a) do texto é muito inocente - a começar pelo fato de acreditar que realmente numa instância democrático-burguesa as eleições mudam a vida dos milhares de efetivos trabalhadores brasileiros - ou esqueceu de ligar o botãozinho da tão reivindicada imparcialidade jornalística, porque, assim como a grande imprensa (citada no texto) tem um candidato claro, assim também o tem o(a) referido(a) jornalista. 





terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ironias do capitalismo...

Enquanto a mídia alardeava os impactos do 11 de setembro para a memória dos norte-americanos, omitia um curioso fato nada cabalístico: nessa mesma data uma outra sociedade também teve algo a lembrar, a chilena. 37 anos do golpe de Estado que derrubou o governo Allende.
Naquele momento os Estados Unidos literalmente bombardeavam esse governo que acreditou no socialismo por via democrática e apoiaram o governo de Pinochet!
... seria isso a democracia do porrete?!

memoriol já!!

Esse post é só pra anunciar que logo mais virá um texto com um tema que muito me instiga e tem sido uma constante nos meus últimos dias: Ditadura Militar.

Por hora, o(a)s deixo com o último discurso de Salvador Allende antes do ataque dos EUA ao palácio La Moneda.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A origem do mundo

Hoje eu acordei, como de costume, reelaborando na cabeça as tarefas do dia. Pensei, pensei... faço isso ou aquilo? primeiro esse ou aquele lá? Nenhuma coisa nem outra. Optei por retomar um velho e obrigatório dever.
E estava lá, paginas e páginas se passaram. Ao meu lado, uma caneca de café como companhia... e eis que reencontro o Galeano num texto que eu escrevi meses atrás. Me perdoem, caro(a)s frequentadore(a)s deste blog, se pareço repetitiva. Infelizmente, temo dizer que serei assim mesmo! Este autor hidrata minhas veias.
Mas agora é por um motivo diferente, tomarei suas palavras para homenagear duas grandes amigas. Não que as outras não o mereçam, nada disso. Mas, por hora, quero mesmo é direcionar essas poucas palavras a essas pessoinhas que de forma peculiar colorem meus dias.
Uma delas, a prossôra, é uma pentelhinha de marca maior! Mas uma criaturinha cheia de virtudes, sabida que só ela, vai longe... Além disso, uma amiga sempre presente. Aprendi e aprendo a cada dia.
A outra, uma futura prossôra e uma cantadeira (como ela mesma diz) ímpar. Uma menina gente fina, esforço "mode on". É exemplo a ser seguido.
Não estranhem essa rasgação de seda. Não estou fazendo a média para um presente natalino, nem coisa parecida (embora, ganhar um livro não seja nada mau!), apenas socializando o orgulho que nutro por dividir minha vida com essas belas mulheres.

(...)

Para romper com a frieza e indiferença do cotidiano, opto por ser diferente!
Enfim, para terminar, segue um belo texto do Galeano.



A origem do mundo
A guerra civil da Espanha tinha terminado fazia poucos anos, e a cruz e a espada reinavam sobre as ruínas da República. Um dos vencidos, um operário anarquista, recém-saído da cadeia, procurava trabalho. Virava céu e terra, em vão. Não havia trabalho para um comuna. Todo mundo fechava a cara, sacudia os ombros ou virava as costas. Não se entendia com ninguém, ninguém o escutava. O vinho era o único amigo que sobrava. Pelas noites, na frente dos pratos vazios, suportava sem dizer nada as queixas de sua esposa beata, mulher de missa diária, enquanto o filho, um menino pequeno, recitava o catecismo para ele ouvir.
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, me contou. Contou em Barcelona, quando cheguei do exílio. Contou: ele era um menino desesperado que queria salvar o pai da condenação eterna e aquele ateu, aquele teimoso, não entendia.
- Mas papai - disse Josep, chorando - se Deus não existe, quem fez o mundo?
- Bobo. Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros.

(Eduardo Galeano. O livro dos abraços)





Bom dia, minhas caras!!!! Amooooooooo...

sábado, 28 de agosto de 2010

... e elas continuam abertas, a irrigar todo o sistema

Mais uma vez o capital exala seu odor. Uma TV ligada no jornal noturno e um livro (o autor? fácil imaginar!) aberto sobre a cama do meu quarto. Este foi o cenário. Eis que me deparo com a chamada: chacina no México, 72 pessoas são mortas por narcotraficantes. Em no máximo 3 minutos todos os principais dados foram transmitidos por aquela que se auto-intitula locus da credibilidade jornalística. Durante a semana, os principais jornais divulgavam constantemente “novidades” sobre o massacre. Foi então que senti como se estivesse vivendo um dèjávu. A história se repetia! Com nova roupagem, de fato, mas seu conteúdo... sim, eu tinha razão!
Segundo o embaixador do Brasil no México, Sérgio Florêncio, "Esses conflitos fronteiriços, de mexicanos ou de pessoas de outras nacionalidades, que tentam ingressar nos Estados Unidos, são recorrentes. O que é muito inusitado é um massacre com essas proporções, envolvendo 'nacionais' de tantos países". Ou seja, o fato só quebrou a normalidade das desigualdades habituais porque agora houve um número significativo de pessoas assassinadas de uma só vez. A mídia burguesa enfocava que a chacina ocorreu por conta da ação do narcotráfico mexicano, que, desde 2006, já matou cerca de 28 mil pessoas (o curioso é ver o presidente Felipe Calderón atestar que ocorrências violentas como essa infelizmente fazem parte do programa de combate ao tráfico de drogas no México, iniciado pelo seu governo).
Meu objetivo aqui não é aprofundar o debate sobre as drogas. Mas, chamar a atenção para o que de fundo essa chacina significa. Vivemos numa sociedade onde a relação das prioridades parece invertida, “os países a serviço das mercadorias, os homens a serviço das coisas”. O tráfico nada mais é do que um dos múltiplos meios de onde o sistema capitalista extrai suas riquezas. A alça “ilícita” para atingir fins “lícitos”, movimentar o mercado. Sobre o ocorrido no México, um ponto secundarizado pela mídia é, entretanto, a mola mestra para entender o que motivou aquelas dezenas de pessoas a tentar imigrar para os Estados Unidos. Não era realizar o sonho de ganhar a América, como as visões românticas da história nos fazem crer.

“os operários também têm que compensar a queda do valor de sua força de trabalho”

A fórmula que deu certo não é nova. Já havia sido implementada pelos ingleses no auge do imperialismo mundial, em fins do século XIX. Naquele momento, a grande nação industrial centrava suas forças no domínio do mercado chinês. E para isso serviu-se, dentre outras táticas, da exportação do ópio. Droga bastante consumida pelos miseráveis trabalhadores chineses. Engana-se quem acredita que o interesse inglês era pura e simplesmente no mercado de drogas. O objetivo era forçar a abertura da China ao mundo manufatureiro.
Proporcionar uma guerra tão desastrosa a ponto de enfraquecer e controlar o inimigo por completo. E assim o foi. Derrotada nas ditas “guerras do ópio”, a China “abriu” seus portos. Não somente ao capital inglês, mas também ao norte-americano. E, como não podia deixar de ser, também a sua força de trabalho.
Imagino que uma pergunta possa surgir: por que então todo esse arrodeio? Falar de chacina, drogas, passar pelo imperialismo do século XIX e chegar na mão-de-obra capitalista... verdade, confesso que ultimamente meu poder de abstração tem sido bem considerável. A coragem de escrever - mesmo que superficialmente- sobre tal temática ganhou maior dimensão depois de ler, dias atrás, o posfácio do livro “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano (vou tomar a liberdade para tratá-lo por EG, já que essa com certeza não será a última vez que tocarei no seu nome).
É inegável a delicadeza e, ao mesmo tempo, a sequidão com que EG desliza pelas feridas do sistema capitalista. E como aquelas palavras, escritas em fins de 1970, no auge da ditadura latino-americana, faziam/fazem sentido. Chamou-me atenção especial um trecho que dizia: “Nestas terras, o que assistimos não é a infância selvagem do capitalismo, mas a sua cruenta decrepitude. O subdesenvolvimento não é uma etapa do desenvolvimento. É sua conseqüência. O subdesenvolvimento da América Latina provém do desenvolvimento alheio e continua a eliminá-lo. Impotente por sua função de servidão internacional, moribundo desde que nasceu, o sistema tem pés de barro.”
Diariamente, massas de trabalhadores, dos mais diversos países (não somente os latinos) abrem-se em diáspora para os centros capitalistas. Esses homens, mulheres e crianças são brasileiros, uruguaios, peruanos, guatemaltecos, argentinos, asiáticos... a lista é infindável. Em comum, a necessidade de encontrar lá, o que aqui já é tão escasso: emprego e melhores condições de vida. Eles são o já denominado exército industrial de reserva, os braços dispostos a ofertar ainda maior extração de mais-valia. E é assim que há a drenagem dos lucros das grandes empresas. A concorrência desenfreada dos grandes mercados globais necessita ofertar mercadorias cada vez mais rentáveis: ao consumidor, porque adquire um produto hipoteticamente menos caro; ao burguês, por manter minimamente equalizada suas taxas de lucratividade. Em meio a essa operação está o trabalhador. O único real alvo das oscilações do mercado.
EG escreveu um texto, não mais da obra já citada, que materializa bem essa situação. Chama-se “A partida”:

Esta mulher está indo para o norte. Sabe que pode morrer afogada na travessia do rio, e de tiro, sede ou serpente na travessia do deserto.
Diz adeus aos filhos, querendo dizer até logo.
E indo embora de Oaxaca, ajoelha-se diante da Virgem de Guadalupe, num altarzinho do caminho, e roga o milagre:
- não peço que você me dê nada. Só peço que você me ponha aonde tem.



Chegando ao final do posfácio, mais uma vez Galeano deixou meus olhos marejados. Ele assim encerrou: “O sistema encontra seu paradigma na imutável sociedade das formigas. Por isto se dá mal com a história dos homens: pelo muito que esta muda. E porque, na história dos homens, cada ato de destruição encontra sua resposta – cedo ou tarde – num ato de criação.”




Ojalá!!!!!!!!!!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Surpreender-me sempre com o rotineiro!

De pronto, dedico esse post aos que não mais se assombram com o cotidiano, aqueles que perderam a capacidade de se admirar e, ainda mais, de se incomodar com ele... 
... como se existissem milhares de pequenas agulhinhas a espetar meu corpo. É assim que sinto. 
Peço desculpas se minhas idéias parecerem desconectas ou demasiado forçadas... quem sabe?! O fato é que tenho o hábito, não sei se bom, de juntar várias sensações em um determinado acontecimento do dia. É tão autônoma essa reação que a mim também me surpreende. Pois bem, mas sou uma mulher de poucas palavras, já percebi que se dou corda elas criam tamanha independência que, posteriormente, me causam rugas na testa. Por ser assim, já fui amavelmente (assim prefiro imaginar) apelidada de ala xiita. Vai saber neh... mas sabe de uma... acho que sou mesmo. E daí?! Bom, mas chega de rodar, rodar...

 Como os próximos sabem, sou professora (nd de tia, professora mesmo) de história (e como mão-de-obra superexplorada, também de filosofia). Alguns podem até dizer que é porque estou há poucos anos nessa estrada, como já disseram, mas o fato é que não quero perder de vista alguns momentos que essa profissão oferece. Utilizando o velho jargão capitalista, tem certas coisas que não tem preço... não mesmo.

Sinto enorme êxtase quando recebo dos meus pimpolhos (o tamanho da maioria contradiz tal denominação, verdade, mas sou piegas, fazer o quê?!) algum tipo de retorno. Ver uns olhinhos ressabiados de energia, vitalidade e disposição para entrar no meu barco é, parafraseando nosso professor da UFAL, o Lessa, "muito legal". Entre aqueles que ainda acham a história um saco, tenho percebido um público bem fiel, não a mim, não é disso que falo. Mas ao mundo de véus caídos, de história com sangue, com gente viva, que fez e faz história. Segundo o meu autor mágico, Eduardo Galeano, "os ninguéns".

Nos últimos dias, a ala xiita aqui tem se deparado com certas demonstrações de retorno do "fazer docente". As quais, tem feito emergir sob a forma de flash um momento em específico do meu percurso como professora.
Se passou há uns 4 anos. Eu era monitora do estado e havia sido lotada numa escola de um dos maiores e mais precários bairros da cidade onde moro. Pois bem, eis que eu estava no fim do meu curso de história e me deparava com a seguinte problemática, lecionar para crianças que variavam de 7 a 14 anos, a 1º série do ensino primário (o atual fundamental). Fazer com que elas aprendessem a ler, no mínimo isso. 
... não deve ser a coisa mais difícil, pensei.
Eu ia lidar com um universo totalmente alheio ao meu. De crianças que nem mesmo tinham o lápis e o caderno para estudar. Ora essa, não ter tais coisas era fichinha para essas pessoinhas. Lhes faltavam bem mais...

Dentre esses pimpolhos, um me rendeu especial trabalho, o Sherlock Holmes. Isso mesmo, era assim que ele se chamava. Filho de uma família muito carente, Sherlock era visivelmente o que mais necessitava de magia pra viver. Agitado, sem limites, de péssima dicção, sem nenhuma concentração, mas com muita vitalidade e inteligência. Eu e ele logo criamos um laço, uma amizade bem diferente das que estava acostumada.

Toda a turma nutria um sentimento de grande desconfiança, fácil concluir o motivo. Eu era a 3ª professora em um único semestre. Segundo eles, ninguém os queria. Me deparei então com uma situação a qual não havia sido preparada nos bancos da universidade, que os livros utilizados no curso nada falavam...
Com pouco menos de uma semana na escola, fui acometida de sintomas físicos que só depois concluí serem de ordem psicológica. Passei pelo menos dois dias vomitando constantemente e a voz... essa foi embora. A minha vontade era de não mais voltar lá. Fugir com força! Mas saber que seria mais uma a desistir deles me incomodava ainda mais. Foi então que tomei para mim a ideia de que eu ia continuar, levando como desse.

Uns três meses depois eu já tinha uma boa relação com eles, bem longe de ter uma turma ideal (como ainda querem certas visões positivistas). Os meus, chegavam à escola de estômago vazio, pedindo para adiantar o lanche porque nada tinham comido. Fediam porque tinham poucos hábitos de higiene. Alguns estavam muito mais animalizados do que qualquer outra coisa. 
(... e eu me deparava com as lições de português pedindo para que os alunos soletrassem as palavras morango, pêssego e por ai vai).
Com o tempo, fui descobrindo que um era assim porque havia visto o pai ser degolado, o outro porque era filho de mãe solteira e desempregada... 
Bem assim era a vida do Sherlock. Num dia em que teve uma parte do seu braço preso numa porta, a esperta aqui passou pomada e indicou-lhe que pedisse pra mamãe passar gelo quando chegasse em casa. Ele disse:
- rumm, cómo, na minha casa non tem xelageira.
Outra vez, Sherlock soltou um pum daqueles... toda a turma saiu da sala correndo (até eu, que quase nada aproveito do meu sistema respiratório, corri). A esperta mais uma vez saiu com uma bela frase:
- faça o seguinte, quando vier pra escola, não coma ovo no almoço. 
E ouvi dele,
- rumm, esso ê fácil. Na minha casa non tém ovo.
Chegávamos ao final do ano, consegui, junto a outras professoras, fazer uma festinha (para comemorar o tão falado natal). Todos estavam ansiosos e bonitos, inclusive o Sherlock. Havia comida, bebida e presentinhos pra todos. Felicidade só! Um dia de exceção...
Já em casa, depois de tirar a roupa e tomar um banho demorado, não aguentei, cai no choro. Havia fracassado. Terminara o ano letivo e a maioria continuou no mesmo estágio de antes... sem fazer parte do universo dos que sabem ler...







(...)

   As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte , por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
   Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
   Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos.
   Que não são embora sejam.
   Que não falam idiomas, falam dialetos.
   Que não praticam religiões, praticam supertições.
   Que não fazem arte, fazem artesanato.
   Que não são seres humanos, são recursos humanos.
   Que não têm cultura, têm folclore.
   Que não têm cara, têm braços.
   Que não têm nome, têm número.
   Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
   Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

(Galeano. Os Ninguéns. O livro dos abraços)
 






domingo, 15 de agosto de 2010

"Simples de coração"

Uma das sensações que me acompanham nos meus quase trinta anos é que levamos cinco dias esperando pelo sexto e sétimo e quando eles chegam... vrummm, já passaram!
Outra coisa que tb aprendi foi aproveitar com força todos os momentos, com foooooooooooorça mesmo, pq até se for ruim eles vão deixar marcas. Entonces, nada melhor do que ter amigo(a)s para ir à forra 100%. Esse post é em homenagem às minhas poucas, mas leais amizades... com elas eu sou bem mais humana.



Bom, mas o fato é que se pudermos juntar amizades + boa comida/bebida, fechou! E esse findi foi muuito legal por isso. Comer uma barca jumbo com 66 peças (vale dizer que ñ fiz feio, comi feito gente grande) de comidinha crua em companhia de uma breja gelada e das minhas grandes amigas, não teve preço, não mesmo (ou melhor, até teve, mas isso a gente dá um jeito).

Celebração da amizade/1 (Eduardo Galeano - o livro dos abraços)

Nos subúrbios de Havana, chamam o amigo de minha terra ou meu sangue.
Em Caracas, o amigo é minha pada ou minha chave: pada, por causa de padaria, a fonte do bom pão para as fomes da alma; e chave por causa de ...
- Chave, por causa de chave - me conta Mario Benedetti.
E me conta que quando morava em Buenos Aires, nos tempos do horror, ele usava cinco chaves alheias em seu chaveiro: cinco chaves, de cinco casas, de cinco amigos: as chaves que o salvaram.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Mas e quem disse que elas sempre têm razão?!

Conversando com um amigo sobre assuntos corriqueiros me veio na mente as frases célebres que mãe adora dizer (e como essas palavras ganham vida na boca de uma genitora): eu não falei! não me escuta! você não valoriza a sabedoria da sua mãe! É pro seu bem, obedece!
Pois bem, mas a minha impertinente (ou pertinente, vai saber) recordação me levou a uma situação que ocorreu com a minha pequena pessoa anos atrás... época em que eu ainda tinha que acatar com certas regras, inclusive as alimentares... afinal, toda mãe tem diploma de pediatra, psicóloga, professora, lálálálá e nutricionista. E a minha adorava exercer essa última atividade.
Era um fim de tarde, eu devia ter uns 12 anos, uma jovem manceba. Eu já tinha cumprido com o ritual diário de uma criança dessa idade (ao menos para aquelas minimamente em condições socio-econômicas aceitáveis): acordado cedo... e como era cedo; ido à escola ... estudado e brigado muito com os garotos; almoçado e tirado um cochilo. Estava agora na melhor parte do dia, as brincadeiras. Sempre fui muito moleca, com direito a peraltices aprovadas pelo IMETRO. Minha diversão predileta era reproduzir no quintal os filmes da sessão da tarde... aventuras, escaladas, resgates... todos eles me propiciavam ótimas ideias. 
Eis que numa dessas tardes, no auge da minha criatividade, ouço lá looonge um:
 - Natááááliaaaaa, desce daí e venha cá, agora (ah, duas coisas que esqueci de informar: 1) eu vivia trepada no topo do pé de carambola que tínhamos no quintal, adooorava! 2) quando eu ouvia esse AGORA da minha mãe já sabia que o negócio não era nada atrativo). 
- Tô iiiiiiiiiiindo...
Lá ia eu sair do meu mundinho pra ver o que ela queria. E mal me enxergava já ia decretando:
- fiz vitamina de banana, você vai tomar, TUDO!
- Mas mainha, você sabe que eu não gosto de vitamina de banana. Vou não tomar.
Pronto, usei justamente o pior recurso de um diálogo (tenho minhas dúvidas se nesse tipo de situação não há um monólogo... nós falamos, mas elas parecem nem ouvir), eu podia ser mais elegante na minha negativa, usar de um eufemismo, por exemplo:
- minha querida mãe, esse tipo de vitamina não é meu forte, eu poderia escolher uma outra fruta? creio que meu estômago não aceitará essa ingestão.
O fato é que o uso das palavras amaciadas nunca foi meu forte. Comigo o sistema sempre foi bruto! Só tinha um problema, com a minha mãe acontecia a mesma coisa. Sabe aquele lance de filho de peixe, peixinho é?! Justamente.
Naquela hora, a mulher pegou ar (quase que "estourou pelas costas").
- Ah, vai não... ah, vai tomar sim! 
- Vou não!
- Vai sim!
E ficamos nessa por um bom tempo. Foi então que eu tive a brilhante ideia de correr dela, mas a bichiguenta veio correndo também. E só parou quando me encurralou na lavanderia. Ai pensei, perdeu muleque!
Na minha frente "rugia raivosamente" ela, a minha mãe. Segurando o copo do liquidificador cheinho.
- Natália, não me desobedeça, tome essa porcaria.
E eu doida pra dizer: tá vendo, até você assume que é porcaria.
 Ficamos nessa por um bom tempo, ela mandava e eu me negava. Até que ela usou a última arma coercitiva:
- Melhor tomar, do contrário, vou jogar na sua cara!
- Jogue, pode jogar!
Senti que nesse momento eu mexi de verdade com a fera. Ela me fixou nos olhos, eu fiz o mesmo. Estávamos num duelo digno de cavaleiros medievais lutando pela bela moça.
Foi então que ela concretizou seus intentos. Num rápido giro ela jogou toda a vitamina no meu rosto. Mas se ela pensava que eu ia me dar por vencida, se enganou. Depois de limpar os olhos, soltei a minha última frase.
- Mas não tomei!
... minha mãe me amava, por isso também, heheheh!












segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pra começo de conversa


Da minha adolescência eu lembro mais coisas do que queria lembrar, mas tem uma que me veio à kbça há alguns dias... eu gostava de escrever! 
O ato de transpor para o papel tudo que eu estava sentindo me deixava mais leve. Esse momento de intimidade com a simples folha em branco (geralmente ao pé da cama da minha mãe, nos poucos momentos de sono dela) me possibilitava não só um encontro com meus demônios, mas tb a exorcização deles. Era como se os deixasse presos (num simples bumm... de fechar o caderno), ao menos até um próximo encontro.
Então, passados longos anos, eis que me deparo com uma necessidade tamanha de percorrer a ilha de sentimentos que me tomaram nos últimos tempos. Depois de muito pensar, concluo que a melhor maneira de fazer isso é trazendo à tona partes da Kahlo que há em mim. E é assim que nasce esse espaço, como objetivação/contretização de interrogações, exclamações e quase nenhum ponto final da minha vida.
Para não traumatizar os poucos (ousadia?!) leitore(a)s, começarei rememorando alguns momentos que me marcaram. Mas calma! não vou fazer ng chorar, ñ cabe aqui! Sempre que me der na veneta, trarei curiosidades da minha pequena vivência. Para além de qualquer vontade de ser inteligente ou coisa do tipo, ratifico, esse espaço é muito particular, mesmo que em âmbito digital... é isso...
por hj... foi!