Pular para o conteúdo principal

Mas e quem disse que elas sempre têm razão?!

Conversando com um amigo sobre assuntos corriqueiros me veio na mente as frases célebres que mãe adora dizer (e como essas palavras ganham vida na boca de uma genitora): eu não falei! não me escuta! você não valoriza a sabedoria da sua mãe! É pro seu bem, obedece!
Pois bem, mas a minha impertinente (ou pertinente, vai saber) recordação me levou a uma situação que ocorreu com a minha pequena pessoa anos atrás... época em que eu ainda tinha que acatar com certas regras, inclusive as alimentares... afinal, toda mãe tem diploma de pediatra, psicóloga, professora, lálálálá e nutricionista. E a minha adorava exercer essa última atividade.
Era um fim de tarde, eu devia ter uns 12 anos, uma jovem manceba. Eu já tinha cumprido com o ritual diário de uma criança dessa idade (ao menos para aquelas minimamente em condições socio-econômicas aceitáveis): acordado cedo... e como era cedo; ido à escola ... estudado e brigado muito com os garotos; almoçado e tirado um cochilo. Estava agora na melhor parte do dia, as brincadeiras. Sempre fui muito moleca, com direito a peraltices aprovadas pelo IMETRO. Minha diversão predileta era reproduzir no quintal os filmes da sessão da tarde... aventuras, escaladas, resgates... todos eles me propiciavam ótimas ideias. 
Eis que numa dessas tardes, no auge da minha criatividade, ouço lá looonge um:
 - Natááááliaaaaa, desce daí e venha cá, agora (ah, duas coisas que esqueci de informar: 1) eu vivia trepada no topo do pé de carambola que tínhamos no quintal, adooorava! 2) quando eu ouvia esse AGORA da minha mãe já sabia que o negócio não era nada atrativo). 
- Tô iiiiiiiiiiindo...
Lá ia eu sair do meu mundinho pra ver o que ela queria. E mal me enxergava já ia decretando:
- fiz vitamina de banana, você vai tomar, TUDO!
- Mas mainha, você sabe que eu não gosto de vitamina de banana. Vou não tomar.
Pronto, usei justamente o pior recurso de um diálogo (tenho minhas dúvidas se nesse tipo de situação não há um monólogo... nós falamos, mas elas parecem nem ouvir), eu podia ser mais elegante na minha negativa, usar de um eufemismo, por exemplo:
- minha querida mãe, esse tipo de vitamina não é meu forte, eu poderia escolher uma outra fruta? creio que meu estômago não aceitará essa ingestão.
O fato é que o uso das palavras amaciadas nunca foi meu forte. Comigo o sistema sempre foi bruto! Só tinha um problema, com a minha mãe acontecia a mesma coisa. Sabe aquele lance de filho de peixe, peixinho é?! Justamente.
Naquela hora, a mulher pegou ar (quase que "estourou pelas costas").
- Ah, vai não... ah, vai tomar sim! 
- Vou não!
- Vai sim!
E ficamos nessa por um bom tempo. Foi então que eu tive a brilhante ideia de correr dela, mas a bichiguenta veio correndo também. E só parou quando me encurralou na lavanderia. Ai pensei, perdeu muleque!
Na minha frente "rugia raivosamente" ela, a minha mãe. Segurando o copo do liquidificador cheinho.
- Natália, não me desobedeça, tome essa porcaria.
E eu doida pra dizer: tá vendo, até você assume que é porcaria.
 Ficamos nessa por um bom tempo, ela mandava e eu me negava. Até que ela usou a última arma coercitiva:
- Melhor tomar, do contrário, vou jogar na sua cara!
- Jogue, pode jogar!
Senti que nesse momento eu mexi de verdade com a fera. Ela me fixou nos olhos, eu fiz o mesmo. Estávamos num duelo digno de cavaleiros medievais lutando pela bela moça.
Foi então que ela concretizou seus intentos. Num rápido giro ela jogou toda a vitamina no meu rosto. Mas se ela pensava que eu ia me dar por vencida, se enganou. Depois de limpar os olhos, soltei a minha última frase.
- Mas não tomei!
... minha mãe me amava, por isso também, heheheh!












Comentários

  1. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK Parece q eu to vendo a cachinhos miúda, correndo da mãe pela casa! êeh..lembranças! é isso ai, boas lembranças!

    ResponderExcluir
  2. ASuhaUShuAHsuhAUS... a tirinha da mafalda caiu como uma luva! hasuhasusahuashsa...

    ResponderExcluir
  3. hehehehe... tu parece aqueles poodles que não têm nem tamanho, mas adoram partir pra cima dos cachorrões, sabe? pense na ousadia!!!
    ótima história, moça. e tu escreve muito bem!

    ResponderExcluir
  4. do texto, podem-se aduzir váias coisas:
    1) o lado nutricionista da sua mãe explica o seu destino implacável, vivendo ao lado da bárbara;
    2) "Mas mainha, você sabe que eu não gosto de vitamina de banana. Vou não tomar" mostra que essa mania de "vou nao tomar nao" é vício recente rsrs;
    3) vc sempre foi sem mediações, desde pequena haha
    4) eu sou um barato haha

    ResponderExcluir
  5. Ah, adorei, massa! :)
    Preciso reabrir o meu blog...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Memória, a paga do tempo

- Eu rasgaria o tempo assim pudesse!
- O tempo não, a lembrança dos que dele lembram.

(...)

Vejo uma rua.
Sessenta e quatro ladrilhos a me apontar que o esgoto ainda fede.

(...)

Baco treme em risos e avisa a Zeus que a composição desta estória está vermelha de seus melhores vinhos.

(...)

Direcionam ao meu front canalhices de toda ordem. E até me fazem crer que a minha história anda atordoada, esquizofrênica.

(...)

E lhes respondo: Sim. Na minha esquizofrenia, ouço vozes de um passado expurgado com sangue, silêncio e dor.

(...)

E a minha história, meu caro, agora acende um cigarro, respira fundo e espera as cortinas se abrirem para o espetáculo recomeçar!



ID essência

Água. Chaleira. Café.
Ebulição.  Camomila. Água. Chá. Transição. Sampa. Sopro. Pulmão. Poluição. Catavento. Ar. Criança. Distração. Corpo.Velhice. Morte. Evaporação. Casa. Imagem. Memória. Talhação. Caderno. Palavras. Tempo. Deglutição. Pés. Mar. Felicidade. Coração.


Quando chuva

Quando chuva eu era criança. A gente saía da escola correndo e chegava em casa parecendo pintinhos.
A mãe nos dizia, tira essa roupa molhada que é pra não adoecer!
Quando chuva a gente obedecia melhor a mãe porque tudo ficava mais lento e dava até vontade de obedecer. Aquele friozinho esquentava ainda mais o coração.
Quando chuva ela gritava da cozinha, venham comer, a comida tá na mesa!
Mas, quando chuva, a luz também ficava preguiçosa e ia embora. Era quando a mãe enchia a casa de velas e tudo ficava melhor. Os trovões davam medo, mas a mãe tava lá e nada podia nos acontecer.
O telhado mostrava sua gastidão. Aquele monte de buraco fazia a casa ficar toda ornamentada. Era um tal de balde aqui, bacia ali...
Quando chuva até o almoço ficava mais gostoso. Aquele cheirinho de terra molhada acariciava a pouca carne da penela. Mas não tinha problema, no fundo no fundo, a gente queria mesmo era o momento.
Éramos nós três. Eu, o irmão menor e a mãe.
Quando chuva depois do almoço a gente dor…