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Surpreender-me sempre com o rotineiro!

De pronto, dedico esse post aos que não mais se assombram com o cotidiano, aqueles que perderam a capacidade de se admirar e, ainda mais, de se incomodar com ele... 
... como se existissem milhares de pequenas agulhinhas a espetar meu corpo. É assim que sinto. 
Peço desculpas se minhas idéias parecerem desconectas ou demasiado forçadas... quem sabe?! O fato é que tenho o hábito, não sei se bom, de juntar várias sensações em um determinado acontecimento do dia. É tão autônoma essa reação que a mim também me surpreende. Pois bem, mas sou uma mulher de poucas palavras, já percebi que se dou corda elas criam tamanha independência que, posteriormente, me causam rugas na testa. Por ser assim, já fui amavelmente (assim prefiro imaginar) apelidada de ala xiita. Vai saber neh... mas sabe de uma... acho que sou mesmo. E daí?! Bom, mas chega de rodar, rodar...

 Como os próximos sabem, sou professora (nd de tia, professora mesmo) de história (e como mão-de-obra superexplorada, também de filosofia). Alguns podem até dizer que é porque estou há poucos anos nessa estrada, como já disseram, mas o fato é que não quero perder de vista alguns momentos que essa profissão oferece. Utilizando o velho jargão capitalista, tem certas coisas que não tem preço... não mesmo.

Sinto enorme êxtase quando recebo dos meus pimpolhos (o tamanho da maioria contradiz tal denominação, verdade, mas sou piegas, fazer o quê?!) algum tipo de retorno. Ver uns olhinhos ressabiados de energia, vitalidade e disposição para entrar no meu barco é, parafraseando nosso professor da UFAL, o Lessa, "muito legal". Entre aqueles que ainda acham a história um saco, tenho percebido um público bem fiel, não a mim, não é disso que falo. Mas ao mundo de véus caídos, de história com sangue, com gente viva, que fez e faz história. Segundo o meu autor mágico, Eduardo Galeano, "os ninguéns".

Nos últimos dias, a ala xiita aqui tem se deparado com certas demonstrações de retorno do "fazer docente". As quais, tem feito emergir sob a forma de flash um momento em específico do meu percurso como professora.
Se passou há uns 4 anos. Eu era monitora do estado e havia sido lotada numa escola de um dos maiores e mais precários bairros da cidade onde moro. Pois bem, eis que eu estava no fim do meu curso de história e me deparava com a seguinte problemática, lecionar para crianças que variavam de 7 a 14 anos, a 1º série do ensino primário (o atual fundamental). Fazer com que elas aprendessem a ler, no mínimo isso. 
... não deve ser a coisa mais difícil, pensei.
Eu ia lidar com um universo totalmente alheio ao meu. De crianças que nem mesmo tinham o lápis e o caderno para estudar. Ora essa, não ter tais coisas era fichinha para essas pessoinhas. Lhes faltavam bem mais...

Dentre esses pimpolhos, um me rendeu especial trabalho, o Sherlock Holmes. Isso mesmo, era assim que ele se chamava. Filho de uma família muito carente, Sherlock era visivelmente o que mais necessitava de magia pra viver. Agitado, sem limites, de péssima dicção, sem nenhuma concentração, mas com muita vitalidade e inteligência. Eu e ele logo criamos um laço, uma amizade bem diferente das que estava acostumada.

Toda a turma nutria um sentimento de grande desconfiança, fácil concluir o motivo. Eu era a 3ª professora em um único semestre. Segundo eles, ninguém os queria. Me deparei então com uma situação a qual não havia sido preparada nos bancos da universidade, que os livros utilizados no curso nada falavam...
Com pouco menos de uma semana na escola, fui acometida de sintomas físicos que só depois concluí serem de ordem psicológica. Passei pelo menos dois dias vomitando constantemente e a voz... essa foi embora. A minha vontade era de não mais voltar lá. Fugir com força! Mas saber que seria mais uma a desistir deles me incomodava ainda mais. Foi então que tomei para mim a ideia de que eu ia continuar, levando como desse.

Uns três meses depois eu já tinha uma boa relação com eles, bem longe de ter uma turma ideal (como ainda querem certas visões positivistas). Os meus, chegavam à escola de estômago vazio, pedindo para adiantar o lanche porque nada tinham comido. Fediam porque tinham poucos hábitos de higiene. Alguns estavam muito mais animalizados do que qualquer outra coisa. 
(... e eu me deparava com as lições de português pedindo para que os alunos soletrassem as palavras morango, pêssego e por ai vai).
Com o tempo, fui descobrindo que um era assim porque havia visto o pai ser degolado, o outro porque era filho de mãe solteira e desempregada... 
Bem assim era a vida do Sherlock. Num dia em que teve uma parte do seu braço preso numa porta, a esperta aqui passou pomada e indicou-lhe que pedisse pra mamãe passar gelo quando chegasse em casa. Ele disse:
- rumm, cómo, na minha casa non tem xelageira.
Outra vez, Sherlock soltou um pum daqueles... toda a turma saiu da sala correndo (até eu, que quase nada aproveito do meu sistema respiratório, corri). A esperta mais uma vez saiu com uma bela frase:
- faça o seguinte, quando vier pra escola, não coma ovo no almoço. 
E ouvi dele,
- rumm, esso ê fácil. Na minha casa non tém ovo.
Chegávamos ao final do ano, consegui, junto a outras professoras, fazer uma festinha (para comemorar o tão falado natal). Todos estavam ansiosos e bonitos, inclusive o Sherlock. Havia comida, bebida e presentinhos pra todos. Felicidade só! Um dia de exceção...
Já em casa, depois de tirar a roupa e tomar um banho demorado, não aguentei, cai no choro. Havia fracassado. Terminara o ano letivo e a maioria continuou no mesmo estágio de antes... sem fazer parte do universo dos que sabem ler...







(...)

   As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte , por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
   Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
   Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos.
   Que não são embora sejam.
   Que não falam idiomas, falam dialetos.
   Que não praticam religiões, praticam supertições.
   Que não fazem arte, fazem artesanato.
   Que não são seres humanos, são recursos humanos.
   Que não têm cultura, têm folclore.
   Que não têm cara, têm braços.
   Que não têm nome, têm número.
   Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
   Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

(Galeano. Os Ninguéns. O livro dos abraços)
 






Comentários

  1. Imaginar as cenas desse seu relato me deixou com os olhos marejados de lágrima e a garganta seca! Mas, minha cara, é como um amigo me falou uma certa vez: "Não dá pra mudar tal realidade por si mesmo, sozinho". Mas tenho certeza que vc em muito colaborou para com seus "pimpolhos", e certeza -conhecimento empírico - que vc é uma professora exemplo (sem sentidos positivistas) mas uma professora a qual eu quero ser qdo crescer!
    bjos, linda! prôssooooooora

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  2. E eu ainda tenho que passar pelo desplante de te ouvir dizer que não se considera lá tão boa professora... comento?

    O melhor post do blog!
    =***

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  3. visceral! e o texto, para agradar troiana da língua, como eu, tá super bem escrito e bonito. E o galeano, de fato, é mágico .adorei essa passagem dele. esse texto meu deu até vontade de fazer/retomar um blog (uma proeza de....) kkk

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  4. pow, um comentário desse vindo da rossaninha mô beim só pode deixar a pessoa humana aqui muito feliz neh! valeuz...

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  5. esse é um daqueles textos que a gente lê e morre de inveja de não ser o autor (inveja boa). o melhor entre os melhores. segurei o coração na garganta. sem palavras.

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