segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Surpreender-me sempre com o rotineiro!²

Quem diria que em plena segunda-feira eu teria uma experiência dessas. 
Foi algo tão mágico e singelo que, depois do acontecido, o dia se foi e minha garganta não mais pedia, ordenava um grito.

Estava eu numa das muitas salas de aula por onde transito cotidianamente. O dia começava, e como já adiantei, era segunda. Minha cara não era a das mais felizes, meu corpo ainda procurava onde escondi um tal descanso. 

Fui aplicar prova de filosofia e marquei com uma aluna uma reunião pós-aula para que ela me apresentasse o trabalho que faltara entregar. Eu, mantendo a fama de exigente, indiquei que só aceitaria uma defesa no gogó. É isso ai, se sabe, fale! Esse é meu lema. 
Não houve objeção.

Nossa, como eu não sabia o que me esperava...
A aluna M, é assim que a chamaremos, compareceu no horário previsto, agora em outra sala, onde eu dava continuidade ao dia de aulas. Ela puxou a cadeira e sentou próximo a mim. O assunto era a filosofia tominiana. M mostrou-se tranquila na defesa do que tinha estudado. Sobre a mesa, a apostila fornecida por mim, já em estado decadente. É, realmente ela havia estudado! Coitado do texto, deveria ter sido vítima de grandes amassões, torturas e afins...

M é uma jovem negra, repetente, de família humilde, de beleza peculiar, enfim, não é padrão... passa desapercebida. Eu já tinha me dado por satisfeita com sua exposição, mas M, com um sorriso contagiante, não parava de tagarelar. Foi, foi, foi até que enveredamos pelo mundo da leitura. A essa altura eu já nem me dava conta de que os outros pimpolhos faziam prova, e eu, a caxias, já estava desarmada.

Penso que por mais que eu descreva, minuncie... não vou conseguir materializar o que senti. Como diz o título desse post, o rotineiro sempre me surpreende. Quando eu podia imaginar que de uma segunda chamada, para cumprir com as burocracias de nota, eu teria um momento desse???

Descobri o universo de uma menina que foge à regra. É fanática, não por internet, mas por livros, se diz romântica, tem como melhor escritor o José de Alencar. 
Soltei uma risada quando M me disse que nas férias, depois de não ter mais o que ler, pegou um livro de direito de um primo (mesmo sem a menor ideia do que se tratava o título). Ela devorou-o em 7 dias, coisa que o dono do livro ainda estava a enrolar por semanas.

Certo dia, contava-me, chegou seu primo em casa com a incubência de elaborar um texto discorrendo sobre a utilização de algum artigo daquele bendito livro. M olhou pra ele e disse:
- Isso é fácil, pegue o 9º, ele fala sobre a cidadania e a defesa da igualdade entre os homens.
Surpreso, seu primo resolveu fazer um teste.
- Hum? como sabe? em qual inciso está isso ai? 
- No 2, respondeu M.

E ela me disse, 
- Sabe, professora, lá na lei é assim. Eu sei que de verdade não é, mas na lei... 


Em silêncio, eu estava claramente afetada. 
No momento, M lê sobre a história do folclore, é xereta. O livro que escolheu é parte de uma coletânea de outros 3. Mas M não é tão fora do padrão assim, ela é curiosa. Confessou que não aguentou esperar e foi fuçar o último livro, quer saber o que é o folclore de Alagoas.

Papo bom, mas o tempo havia passado rápido, os últimos alunos entregavam a prova e tínhamos que ir.

Agradeci à M (ela ficou sem entender o motivo) e prometi-lhe uma nova leitura.
Ela foi-se, e já distante gritou:
-Ei, não esqueça meu livro heim... rsrsrs





Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.

Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas
(Clarice Lispector)

Dedico esse post à M de hoje e a tantas Êmes que torço encontrar!

sábado, 18 de setembro de 2010

História da carochinha


Não dá pra deixar passar.  
O Carta Maior divulgou hoje em seu site uma matéria que me deixou com uma certa quantidade de pulgas atrás da orelha. Ao abrir a página me deparei com o seguinte texto:

DISPOSITIVO MIDIÁTICO DESISTE DE SERRA E QUER INVIABILIZAR FUTURO GOVERNO DILMA

PRESIDENTE LULA MOBILIZA 30 MIL PESSOAS EM CAMPINAS E CONVOCA A RESISTÊNCIA AO ARRASTÃO GOLPISTA

aspas para o Estadão, 17-09: "... o Largo do Rosário, na região central de Campinas foi tomado por cerca de 30 mil pessoas... Apesar do esquema para proteger Lula, muitos prédios comerciais no entorno estavam abarrotados de curiosos nas janelas. Um limpador de janelas parou o que estava fazendo na marquise de um prédio ,ao lado do palco, quando Lula começou a discursar...." Aspas para o discurso do Presidente:

"...nós não vamos derrotar apenas os blocos adversários tucanos, nós vamos derrotar alguns jornais e revistas que se comportam como se fossem partido político e não têm coragem de dizer que são partido político e têm candidato...Eu estive lendo algumas revistas que vão sair essa semana, sobretudo uma que eu não sei o nome dela. Parece "óia” ... destila ódio e mentira. Ódio...Tem dia que determinados setores da imprensa brasileira chegam a ser uma vergonha. Se o dono do jornal lesse o seu jornal e o dono da revista lesse a sua revista, eles ficariam com vergonha do que eles estão escrevendo exatamente neste instante. E eles falam em democracia... Nós não precisamos de formadores de opinião. Nós somos a opinião pública...Eles não suportam escrever que a economia brasileira vai crescer 7% este ano, não se conformam é que um metalúrgico vai criar mais emprego que presidentes elitistas que governaram este País.Não tem nada que faça um tucano sofrer mais do que a gente provar que eles têm um bico muito grande para falar e um bico pequeno para fazer..."
Esse cara é bom mesmo, não podemos negar. Ora, não fosse por um péssimo hábito de desconfiar do óbvio, ele teria me convencido. Resolvi então dar mais trela e segui lendo. A tônica da matéria está na postura assumida pelos grandes veículos da imprensa brasileira que têm comparado as atuais posturas do Lula a Hitler. 

"Alguns dos principais jornais do país estão, há algumas semanas, trabalhando diariamente para imputar ao Presidente Lula a pecha de “ditador” e qualificar a eventual vitoria de Dilma como uma ameaça à democracia. Foi o próprio Serra quem retomou o termo “República Sindicalista”, em reunião com militares no Rio de Janeiro. Agora, o remake de uma antiga propaganda de um periódico de São Paulo insinua comparações entre Lula e Hitler (sic), numa ignóbil peça publicitária que insulta a inteligência dos brasileiros. Cabe lembrar que, no sombrio despertar das ditaduras latino-americanas, golpistas jamais aplicam "golpes". Na pior das hipóteses adotam "medidas extremas para salvar a democracia"."  (leia o texto na íntegra http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16972).

Concluída a leitura, me senti numa história infantil, daquelas que os pais contam quando precisam que os filhos adormeçam mais rápido. 
Ou o(a) autor(a) do texto é muito inocente - a começar pelo fato de acreditar que realmente numa instância democrático-burguesa as eleições mudam a vida dos milhares de efetivos trabalhadores brasileiros - ou esqueceu de ligar o botãozinho da tão reivindicada imparcialidade jornalística, porque, assim como a grande imprensa (citada no texto) tem um candidato claro, assim também o tem o(a) referido(a) jornalista. 





terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ironias do capitalismo...

Enquanto a mídia alardeava os impactos do 11 de setembro para a memória dos norte-americanos, omitia um curioso fato nada cabalístico: nessa mesma data uma outra sociedade também teve algo a lembrar, a chilena. 37 anos do golpe de Estado que derrubou o governo Allende.
Naquele momento os Estados Unidos literalmente bombardeavam esse governo que acreditou no socialismo por via democrática e apoiaram o governo de Pinochet!
... seria isso a democracia do porrete?!

memoriol já!!

Esse post é só pra anunciar que logo mais virá um texto com um tema que muito me instiga e tem sido uma constante nos meus últimos dias: Ditadura Militar.

Por hora, o(a)s deixo com o último discurso de Salvador Allende antes do ataque dos EUA ao palácio La Moneda.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A origem do mundo

Hoje eu acordei, como de costume, reelaborando na cabeça as tarefas do dia. Pensei, pensei... faço isso ou aquilo? primeiro esse ou aquele lá? Nenhuma coisa nem outra. Optei por retomar um velho e obrigatório dever.
E estava lá, paginas e páginas se passaram. Ao meu lado, uma caneca de café como companhia... e eis que reencontro o Galeano num texto que eu escrevi meses atrás. Me perdoem, caro(a)s frequentadore(a)s deste blog, se pareço repetitiva. Infelizmente, temo dizer que serei assim mesmo! Este autor hidrata minhas veias.
Mas agora é por um motivo diferente, tomarei suas palavras para homenagear duas grandes amigas. Não que as outras não o mereçam, nada disso. Mas, por hora, quero mesmo é direcionar essas poucas palavras a essas pessoinhas que de forma peculiar colorem meus dias.
Uma delas, a prossôra, é uma pentelhinha de marca maior! Mas uma criaturinha cheia de virtudes, sabida que só ela, vai longe... Além disso, uma amiga sempre presente. Aprendi e aprendo a cada dia.
A outra, uma futura prossôra e uma cantadeira (como ela mesma diz) ímpar. Uma menina gente fina, esforço "mode on". É exemplo a ser seguido.
Não estranhem essa rasgação de seda. Não estou fazendo a média para um presente natalino, nem coisa parecida (embora, ganhar um livro não seja nada mau!), apenas socializando o orgulho que nutro por dividir minha vida com essas belas mulheres.

(...)

Para romper com a frieza e indiferença do cotidiano, opto por ser diferente!
Enfim, para terminar, segue um belo texto do Galeano.



A origem do mundo
A guerra civil da Espanha tinha terminado fazia poucos anos, e a cruz e a espada reinavam sobre as ruínas da República. Um dos vencidos, um operário anarquista, recém-saído da cadeia, procurava trabalho. Virava céu e terra, em vão. Não havia trabalho para um comuna. Todo mundo fechava a cara, sacudia os ombros ou virava as costas. Não se entendia com ninguém, ninguém o escutava. O vinho era o único amigo que sobrava. Pelas noites, na frente dos pratos vazios, suportava sem dizer nada as queixas de sua esposa beata, mulher de missa diária, enquanto o filho, um menino pequeno, recitava o catecismo para ele ouvir.
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, me contou. Contou em Barcelona, quando cheguei do exílio. Contou: ele era um menino desesperado que queria salvar o pai da condenação eterna e aquele ateu, aquele teimoso, não entendia.
- Mas papai - disse Josep, chorando - se Deus não existe, quem fez o mundo?
- Bobo. Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros.

(Eduardo Galeano. O livro dos abraços)





Bom dia, minhas caras!!!! Amooooooooo...