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Mostrando postagens de Outubro, 2010

Galeaneio eu, galeaneamos nós...

A paixão de dizer
Marcela esteve nas neves do Norte. Em Oslo, uma noite, conheceu uma mulher que canta e conta. Entre canção e canção, essa mulher conta boas histórias, e as conta espiando papeizinhos, como quem lê a sorte de soslaio.
Essa mulher de Oslo veste uma saia imensa, toda cheia de bolsinhos. Dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para ser contada, uma história de fundação e fundamento, e em cada história há gente que quer tornar a viver por arte de bruxaria. E assim ela vai ressuscitando os esquecidos e os mortos; e das profundidades desta saia vão brotando as andanças e os amores do bicho humano, que vai vivendo, que dizendo vai.
(Galeano. O livro dos abraços.)


De repente um dia...

Todos os dias ela cumpria um ritual: olhos arregalados, mirava o teto de seu quarto. A chuva do último inverno deixara marcas na pintura já antiga. Aquele cenário era prato cheio para a criatividade de uma menina de 10 anos. Ali a entrada era franca. Participavam da festa leões com trombas de elefante, a professora Jacira, a primeira a mostrar-lhe o mundo letrado e também um montão de pipoca com chocolate. Era tudo muito harmônico, bastava forçar um pouco a cabeça para tudo mudar e, num instante, os leões usavam óculos e a tia da escola dava lugar a uma bicicleta amarela.
Nascida numa cidade qualquer, os vizinhos a olhavam com certa desconfiança. Dizia uma senhora, assídua frequentadora das calçadas, para uma outra moradora: - Sabia não, faltou oxigênio na hora do parto, por isso ela ficou assim. É lelé, tadinha. Na escola, amigos eram espécie em extinção, a não ser pela Laura, menina de vívidos olhos caramelados. As duas sempre sentavam juntas na aula e dividiam os trabalhos solicitado…

No vosso e em meu coração

Madrugada, silêncio, solidão... dor física Vontade de colo, fuga da concentração,  sob este cenário, a escolha de uma película: Terra e liberdade. A temática: Guerra Civil Espanhola. Após quase duas horas de filme não dava para simplesmente fechar os olhos. Deixo aqui a indicação aos que, como eu, incomodam por se incomodar. Também uma singela homenagem aos que lutaram e morreram por uma sociedade justa e possível (A propósito do tema, ver compêndio de belas fotos)


Espanha no coração  No coração de Neruda,  No vosso e em meu coração.  Espanha da liberdade,  Não a Espanha da opressão  ...A Espanha de Franco, não!  Espanha republicana,  Noiva da revolução! Espanha atual de Picasso,  De Casals, de Lorca  Irmão assassinado em Granada!  Espanha no coração. (Manuel Bandeira)




"Eles são muitos mas nós sempre seremos mais"...

Silêncio e só

Mais um dia findou para ela. Abre a porta de casa, nada mudou de lugar. Pensa alto... seria melhor retirar o sofá daquela parede. De tão cansada, joga o corpo sobre a cama. Hoje em particular os ombros lhe pesam ainda mais. Olhos fechados, breve silêncio (os pensamentos dão uma trégua). Um riso largo é um cartão de visita para criar coragem e botar a cabeça na janela. Lá embaixo, uma menina linda brinca com suas bonecas. Em uma das mãos ela segura um chocolate e o faz com tamanha gana que o perde por entre os dedos. Num ato ligeiro e sapeca lambe dedo por dedo e limpa a pequenina mão em seu vestido, agora não mais branco. A rua oferece um cenário de cotidiano entediante. Latidos, buzinas... o cheiro convidativo do jantar vindo do apartamento ao lado. Tira a roupa como se pedindo que elas mesmas fizessem a tarefa. Chico Buarque para dar coragem. Chuveiro ligado, deixa a água cair sobre seu corpo por um longo tempo. Ao menos a aparência fica mais receptível. Mas ainda não é o bastante, um se…