domingo, 31 de outubro de 2010

Galeaneio eu, galeaneamos nós...


A paixão de dizer

Marcela esteve nas neves do Norte. Em Oslo, uma noite, conheceu uma mulher que canta e conta. Entre canção e canção, essa mulher conta boas histórias, e as conta espiando papeizinhos, como quem lê a sorte de soslaio.

Essa mulher de Oslo veste uma saia imensa, toda cheia de bolsinhos. Dos bolsos vai tirando papeizinhos, um por um, e em cada papelzinho há uma boa história para ser contada, uma história de fundação e fundamento, e em cada história há gente que quer tornar a viver por arte de bruxaria. E assim ela vai ressuscitando os esquecidos e os mortos; e das profundidades desta saia vão brotando as andanças e os amores do bicho humano, que vai vivendo, que dizendo vai.

(Galeano. O livro dos abraços.)



sexta-feira, 22 de outubro de 2010

De repente um dia...

Todos os dias ela cumpria um ritual: olhos arregalados, mirava o teto de seu quarto. A chuva do último inverno deixara marcas na pintura já antiga. Aquele cenário era prato cheio para a criatividade de uma menina de 10 anos. Ali a entrada era franca. Participavam da festa leões com trombas de elefante, a professora Jacira, a primeira a mostrar-lhe o mundo letrado e também um montão de pipoca com chocolate. Era tudo muito harmônico, bastava forçar um pouco a cabeça para tudo mudar e, num instante, os leões usavam óculos e a tia da escola dava lugar a uma bicicleta amarela.

Nascida numa cidade qualquer, os vizinhos a olhavam com certa desconfiança. Dizia uma senhora, assídua frequentadora das calçadas, para uma outra moradora:
- Sabia não, faltou oxigênio na hora do parto, por isso ela ficou assim. É lelé, tadinha.
Na escola, amigos eram espécie em extinção, a não ser pela Laura, menina de vívidos olhos caramelados. As duas sempre sentavam juntas na aula e dividiam os trabalhos solicitados pelos maestros.
A estranha, como foi apelidada pelos colegas de turma, adorava perguntar sobre os mais variados assuntos. Certo dia, soltou uma pérola que não agradou em nada o professor de religião. A menina queria saber qual era o horário de trabalho do senhor Deus, porque no dia anterior notou uma família interinha se atirando nas lixeiras de sua rua procurando não sabia bem o que.
- Acho mesmo que ele estava em dia de folga, professor. Comentou a espivitada.

Ela era filha única, fora muito desejada pelos seus pais por anos. Ainda sim, percebia em sua mãe uma certa inquietude toda vez que chegava algum bilhete solicitando seu comparecimento na escola. Por duas vezes pensou ter ouvido dona Marta cochichando sozinha no terraço depois de abrir um desses "convites".

Os dias se passavam e nada muito diferente acontecia. Logo pela manhã ia à aula. Chegava em casa por volta de meio-dia e duas horas depois já estava em seu quintal trepada ao pé de carambolas. E ficava por lá até ouvir os gritos de dona Marta, chamando-lhe para fazer os deveres de casa.

De repente, um dia chegou na escola um novo aluno. Era meio de semestre e, se já era difícil pra ela que estudava lá desde pirrota, quem dera para aquele garoto (ainda por cima com aqueles ferros todos nos dentes). O professor de inglês chamou-o para que se apresentasse. Conhecendo bem a turma como ela conhecia, já imaginava o que estava por vir...
Ressabiado, o menino não ousou fitar a turma. De cabeça baixa falou seu nome: Paulhinho (infelizmente aquele bendito aparelho não lhe permitia a pronúncia certa). E no mesmo instante fez-se o coro de altas risadas.

Ela o olhava, olhava...

Na hora do recreio, Paulinho estava em companhia de seu lanche e um livro. Ninguém se aproximava dele. Era norma de conduta entre os demais alunos. Por certo tempo ela só observava-o, tinha dó daquele garoto. Ele parecia ser legal. Pensou em falar-lhe algo, mas não teve coragem.
A indigesta rotina manteve-se por longos dias. Longos, mas não infindáveis...

No final de semana, os dois se encontrariam no parque da cidade. Ela vestia vermelho e ele estava sentado no chão, escorado a uma árvore e envolto em mais um de seus pesados livros.
Ela respirou fundo. Aproximou-se e, de súbito, estendeu-lhe a mão.
Paulinho olhou para cima com uma das mãos sobre a testa, numa busca inútil de desviar os reflexos do sol. No canto da boca, deixou escapar um certo sorriso tímido. Levantou-se, limpou as mãos na bermuda xadrez e continuou:
- Prazer, meu nome é..
E, antes que pudesse completar, ouviu um "Paulinho, eu sei".
O menino achou curioso tanta agonia, mas preferiu não comentar. Optou por devolver com uma pergunta: E você?
Pela primeira vez ela não sabia o que dizer. Tentava esconder a vermelhidão do rosto mas não tinha jeito. Demorou uns segundos e soltou:
- Humm... na escola eles me chamam de estranha, dizem que meus pais não tiveram criatividade para me dar um bom nome. Enfim... Felicidade. Meu nome é Felicidade. 
E antes que ele tivesse tempo de falar algo, a menina agarrou-lhe pela mão e saiu correndo.

sábado, 16 de outubro de 2010

No vosso e em meu coração

Madrugada, silêncio, solidão... dor física
Vontade de colo, fuga da concentração, 
sob este cenário, a escolha de uma película: Terra e liberdade.
Após quase duas horas de filme não dava para simplesmente fechar os olhos.
Deixo aqui a indicação aos que, como eu, incomodam por se incomodar.
Também uma singela homenagem aos que lutaram e morreram por uma sociedade justa e possível (A propósito do tema, ver compêndio de belas fotos)



Espanha no coração 
No coração de Neruda, 
No vosso e em meu coração. 
Espanha da liberdade, 
Não a Espanha da opressão 
...A Espanha de Franco, não! 
Espanha republicana, 
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso, 
De Casals, de Lorca 
Irmão assassinado em Granada! 
Espanha no coração.
(Manuel Bandeira)

Guernica,  pintura de Picasso em homenagem à memória da Guerra Civil Espanhola




"Eles são muitos mas nós sempre seremos mais"...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Silêncio e só

Mais um dia findou para ela. Abre a porta de casa, nada mudou de lugar.
Pensa alto... seria melhor retirar o sofá daquela parede.
De tão cansada, joga o corpo sobre a cama. Hoje em particular os ombros lhe pesam ainda mais.
Olhos fechados, breve silêncio (os pensamentos dão uma trégua). Um riso largo é um cartão de visita para criar coragem e botar a cabeça na janela. Lá embaixo, uma menina linda brinca com suas bonecas.
Em uma das mãos ela segura um chocolate e o faz com tamanha gana que o perde por entre os dedos.
Num ato ligeiro e sapeca lambe dedo por dedo e limpa a pequenina mão em seu vestido, agora não mais branco.
A rua oferece um cenário de cotidiano entediante. Latidos, buzinas... o cheiro convidativo do jantar vindo do apartamento ao lado.
Tira a roupa como se pedindo que elas mesmas fizessem a tarefa. Chico Buarque para dar coragem. Chuveiro ligado, deixa a água cair sobre seu corpo por um longo tempo. Ao menos a aparência fica mais receptível. Mas ainda não é o bastante, um sentimento de oquidão toca o peito. Ele é companhia cativa, desde quando?! 
O livro na cabeceira olha para a moça cabisbaixa e oferece-lhe o final daquele poema abandonado dias atrás. 
Leitura mais apropriada não poderia existir para tanta solidão. "Bem no fundo" era isso que ela sentia...

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

(Paulo Leminski)

... recebe um abraço do travesseiro e adormece, amanhã será o novo do mesmo.