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Mostrando postagens de Novembro, 2010

O beijo

Para dias de sombras cariocas, olhares transviados, nada melhor do que poemar a realidade pelos olhos da materialidade cotidiana! E tome Drummond neles... (...)


Mandamento: beijar a mão do Pai
às 7 da manhã, antes do café
e pedir a bênção
e tornar a pedir
na hora de dormir.

Mandamento: beijar
a mão divino-humana
que empunha a rédea universal
e determina o futuro.
Se não beijar, o dia
não há de ser o dia prometido,
a festa multimaginada,
mas a queda
— tibum — no precipício
de jacarés e crimes
que espreita, goela escancarada.

Olha o caso de Nô.
Cresce demais, vira estudante
de altas letras, no Rio de outras normas.
Volta, não beija o Pai
na mão. A mão procura
a boca, dá-lhe um tapa,
maneira dura de beijar
o filho que não beija a mão sequiosa
de carinho, gravado
nas tábuas da lei mineira de família.

Que é isso? Nô sangra na alma,
a boca dói que dói
é lá dentro, na alma. O dia, a noite,
a fuga para onde? Foge Nô
no breu do não-saber, sem rumo, foge
de si mesmo, consigo,
e n…

De sabores, de cores e com nuvens de algodão

Se a verdadeira Kahlo, a Frida, estivesse viva, talvez não fosse a pintora cortante que foi. Ao invés de passar longos dias a se olhar por um espelho no teto, muito provavelmente ela teria aderido à moda do facebook, do msn e a tantos outros artifícios nem tão úteis assim oferecidos pela internet. Ufa! Ela salvou-se. O acidente sofrido lhe trouxe dores, trocas de gesso, cirurgias e mais cirurgias, mas também, uma inflamável forma de tocar fogo no mundo.
Eu, de cá, não tive a mesma sorte. O pé quebrado me trouxe problemas de trabalho, de locomoção, de coceiras noturnas difíceis de sanar e um tanto de outras coisas chatas nada legais de contar aqui. Ah, só pra constar, óbvio que não faço comparação alguma com o acidente sofrido por ela.
Mas vejam só como são as coisas, é mais ou menos um "eu que não fumo pedi um cigarro", porque eu que tinha saido do orkut, devido à tanta superficialidade e mesmice, depois de longos tempos de resistência, fiz uma conta no facebook. Mas faço como…

Espoliação "consentida"

Escrevo. Apago. Escrevo e novamente apago... sob um movimento quase que automático. As ideias me parecem inertes. Não por falta do que dizer, ao contrário, por puro atropelo. Na ausência de vinho, bebida tema de belas crônicas galeanescas, resta-me o som, da música escolhida e, ainda mais, das ideias a fustigar minha cabeça. 
É engraçado como as leituras mudam a partir da mudança das nossas próprias experiências. É mesmo a tal da dialética. A vontade de escrever esse post veio depois de reiniciar uma leitura realizada ainda em tempos de graduação. A obra, que mesmo depois de décadas é de uma vitalidade tamanha, é As veias abertas da América Latina, de autoria do Eduardo Galeano (tão citado neste espaço). Admira-me a capacidade com que ele passeia por temas tão instigantes, mas não menos doloridos, de forma tão laboriosa. Como ele disse em outra obra, suas letras são dedicadas a dar voz aos que são "desprezados por aqueles que desprezam as próprias ignorâncias".
Depois de ler p…

Para os casos de porosidade, escorregue

o vento vadio e inebriante que soa,  ecoa aturde bate à porta que torta rebate 
faz pensamento               cimento 
                              e dele, parte