domingo, 28 de novembro de 2010

O beijo

Para dias de sombras cariocas, olhares transviados, nada melhor do que poemar a realidade pelos olhos da materialidade cotidiana!
E tome Drummond neles...
(...)



Mandamento: beijar a mão do Pai
às 7 da manhã, antes do café
e pedir a bênção
e tornar a pedir
na hora de dormir.

Mandamento: beijar
a mão divino-humana
que empunha a rédea universal
e determina o futuro.
Se não beijar, o dia
não há de ser o dia prometido,
a festa multimaginada,
mas a queda
— tibum — no precipício
de jacarés e crimes
que espreita, goela escancarada.

Olha o caso de Nô.
Cresce demais, vira estudante
de altas letras, no Rio de outras normas.
Volta, não beija o Pai
na mão. A mão procura
a boca, dá-lhe um tapa,
maneira dura de beijar
o filho que não beija a mão sequiosa
de carinho, gravado
nas tábuas da lei mineira de família.

Que é isso? Nô sangra na alma,
a boca dói que dói
é lá dentro, na alma. O dia, a noite,
a fuga para onde? Foge Nô
no breu do não-saber, sem rumo, foge
de si mesmo, consigo,
e não tem saída
a não ser voltar,
voltar sem chamado,
para junto da mão
que espera seu beijo
na mais pura exigência
de terroramor.

Olha o caso de Nô.
7 da manhã.
Antes do café.

(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 27 de novembro de 2010

De sabores, de cores e com nuvens de algodão

Se a verdadeira Kahlo, a Frida, estivesse viva, talvez não fosse a pintora cortante que foi. Ao invés de passar longos dias a se olhar por um espelho no teto, muito provavelmente ela teria aderido à moda do facebook, do msn e a tantos outros artifícios nem tão úteis assim oferecidos pela internet. Ufa! Ela salvou-se. O acidente sofrido lhe trouxe dores, trocas de gesso, cirurgias e mais cirurgias, mas também, uma inflamável forma de tocar fogo no mundo.

Eu, de cá, não tive a mesma sorte. O pé quebrado me trouxe problemas de trabalho, de locomoção, de coceiras noturnas difíceis de sanar e um tanto de outras coisas chatas nada legais de contar aqui. Ah, só pra constar, óbvio que não faço comparação alguma com o acidente sofrido por ela.

Mas vejam só como são as coisas, é mais ou menos um "eu que não fumo pedi um cigarro", porque eu que tinha saido do orkut, devido à tanta superficialidade e mesmice, depois de longos tempos de resistência, fiz uma conta no facebook. Mas faço como Oswaldo Montenegro, to falando isso, mas não era bem isso que queria dizer. Quero falar da parte boa, afinal, dessa situação, espremendo tem que sair algo. E sai sim!

Meu acervo de bons filmes e documentários (nunca os assisti tanto) deu uma boa crescida. Leio menos do que desejo, mas nem tão pouco assim. A janela do meu quarto é a fresta para meu contato com o sol (que toma meu quarto pelas tardes, e como toma..), com a noite, com a chuva (rara, é verdade), com a lua (nossa, vi uma tão linda certo dia!), com os moradores dos prédios vizinhos (caramba, como conversam potoca num volume estridente!).

Aluno(a)s, depois de um mês distante, reencontrá-los foi um misto de dor (física mesmo, pelo esforço seguido), tristeza, mas, majoritariamente, um apoio demonstrado por lágrimas de saudade, risadas por ver a professora manca e finalização de atividades letivas de forma magistral. Mataram a tia de orgulho!

Amiga(o)s - escrito desse jeito mesmo, porque elas predominam - sempre dispostas a me sacanear, me tirar a paciência (ah, não falei ainda, esse molho forçado tem me deixado ainda mais ranzinza, a ponto de eu me exergar como meu pai em vários momentos.) e, simultaneamente, me proporcionar largas e idiotas risadas. 

Botões, amigos sempre presentes. Os tenho convocado sempre que um ponto teima em não ser final.

Então, é isso!




Ela que não anda, atravessa a rua por páginas de livro.
Tem sede de álcool, de vida, de vivência.
Mas aprendeu que um passo, só se for depois do outro,
de preferência, sem saltos!!!!





   

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Espoliação "consentida"

Escrevo. Apago. Escrevo e novamente apago... sob um movimento quase que automático. As ideias me parecem inertes. Não por falta do que dizer, ao contrário, por puro atropelo.
Na ausência de vinho, bebida tema de belas crônicas galeanescas, resta-me o som, da música escolhida e, ainda mais, das ideias a fustigar minha cabeça. 

É engraçado como as leituras mudam a partir da mudança das nossas próprias experiências. É mesmo a tal da dialética. A vontade de escrever esse post veio depois de reiniciar uma leitura realizada ainda em tempos de graduação. A obra, que mesmo depois de décadas é de uma vitalidade tamanha, é As veias abertas da América Latina, de autoria do Eduardo Galeano (tão citado neste espaço). Admira-me a capacidade com que ele passeia por temas tão instigantes, mas não menos doloridos, de forma tão laboriosa. Como ele disse em outra obra, suas letras são dedicadas a dar voz aos que são "desprezados por aqueles que desprezam as próprias ignorâncias".

Depois de ler páginas e páginas, minha inquietação ardeu ainda mais no momento em que o autor começa a descrever a devastação provocada pelo avanço do capitalismo - ainda em tempos de colonização ibérica - aos povos indígenas da América pré-colombiana. O relato é feito sob vários aspectos, dos econômicos aos culturais, mas nunca perdendo a noção de totalidade dos acontecimentos.

É estarrecedor saber que das sociedades Incas, Maias e Astecas foram dizimados cerca de 86 milhões de índios em pouco mais de um século de domínio europeu. 
As cidades de Cuzco (Peru) e Potosí (Bolívia) são exemplos emblemáticos, forçadas a suprir as necessidades econômicas dos cofres franceses, holandeses, e, principalmente,  ingleses, tiveram seus índios tragados pelas mazelas das minas. Cotidianamente, massas indígenas iam e não mais retornavam. Era o progresso que chegava em futuras terras Latino-Americanas.

Entretanto, de tantos fatores, um me chamou mais atenção, o incentivo à proliferação de substâncias alucinógenas por parte das nações dominadoras. Minha inquietação não deveu-se exclusivamente ao fato em si, mas pelo que ele remete. Não precisa ter grande poder de abstração para perceber milhares de contradições no sistema capitalista, ainda que uma gama de imponentes teóricos se valham de ideias inovadoras para defender o quão bom é viver numa sociedade onde a liberdade não passa de um molho com o qual escolhemos como queremos ser devorados, como diz Galeano.

No caso das drogas, fica demarcado que ao falar de combate, não é intenção do Estado salvar todo e qualquer sujeito. Isso porque, fora as grandes somas que rendem esse mercado, é o próprio modelo de produção desenfreado que oferta como única opção à massa de trabalhadores o uso de tais substâncias.
Foi com o incentivo do uso da folha de coca, em terras bolivianas no auge da mineração, por volta dos séculos XV e XVI. Mas também é hoje, com trabalhadores das lavouras de laranja, cana-de-açúcar, como também em ramos totalmente diferentes, como o de transporte. É cada vez mais comum motoristas de ônibus e caminhão fazerem uso de substâncias que os mantenham acordados por mais tempo.


(...)

Tais antagonismos só me fazem perceber que por mais propagandeada que seja a evolução nas relações sociais sob a égide do capitalismo, não é necessária uma lente genial para perceber que o odor continua a exalar. O alvo da miserabilidade e desumanidade, de tempos em tempos, tem sempre corte de classe!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Para os casos de porosidade, escorregue



o vento
vadio e inebriante
que soa, 
ecoa
aturde
bate à porta
que torta
rebate 

faz pensamento               cimento 

                              e dele, parte