quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Monólogo de um grito que não foi

Esta história não pertence a ninguém. Nem mesmo ao tempo.
Peço-lhes licença, apenas a tomarei de empréstimo.
Mas não eu um corpo. E sim eu, uma vaga.
Por Rossana Marinho

Sim, uma vaga. Porque o dia raiou, mas no meu peito mora uma noite eterna.

Olho as pessoas no trânsito. A (a)normalidade é sorrateira. Apregoa na vida de uns tantos homens
e mulheres um cenário de ansiedade, reuniões infindáveis, contratos a fechar, mentiras a contar.
Não há susto nisso. Não há.
O que existe é a falta. Mas, de tanto faltar, a mim também foge.
Volto para casa. E o concreto do chão que piso é vagabundo. Ele não assegura o mundo sobre meus pés.
No espelho do banheiro um sinal de pressa. Respingos de pasta de dente...
- Um momento. Pensei numa coisa agora: por que nunca tive um jardim? Putz, a essa hora e eu pensando em porra de jardim.
- Ei, só mais uma coisa: já te passou pela cabeça que essa tua vida pode estar vencida? É, com prazo de validade expirado. 
De novo, não sei porque raios isso me veio à cabeça. Deve ter sido o sol esquentando os miolos o dia todo. Não. Isso é culpa da maldita reciclagem subjetiva. Sim, porque depois de anos usando a mesma xícara, lendo o mesmo jornal e adaptada ao mesmo homem, se se mexe num caquinho sequer a vida (des)anda.  

Se digo que não, perguntam quando.
Se nego deliberadamente, me pedem calma.
Se somente ouço, me gozam com entrosamento irritante.

... Ah, como era mais fácil viver (ou seria passar?!).

O fato é que a vida não é uma peça em cartaz. Nela não cabem ensaios.
Isso é o que eu acho. 
Vocês podem até dizer que sim, eles cabem. Que não só cabem, como são o eixo da boa vivência.

(Mão no queixo. Testa franzida. Um trago.)

(...)

Sabe do que mais, à merda a boa vivência. 
De que adianta destreza de análise quando o que falta é a materialidade do existir?
Comigo a dor só passa sentindo a dor. Depois de tanto senti-la, adormeço e fico em paz.
- Não sei porque me olham assim. O Cristo de vocês sangrou, sofreu. E é venerado até hoje. Por que então tenho que usar ataduras e sorrir?

A vida deve ser muito mais. Até agora não o foi. É fato. Mas o bom de não ser peça ou filme é que não tem final. Nem infeliz, nem feliz. Só é vida.

Peço desculpas se a história não agradou.
Quem sabe amanhã eu os presenteie com uma historinha regada a algodão doce. 


Quem sabe... 









quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Entre palavras

Era fim de tarde quando duas palavras se encontraram num parque. O acaso as levara ali. 
Tudo parecia muito bem. Muitas crianças se faziam presentes. Brincavam de um tudo e desatavam a chorar toda vez que uma mãe aparecia para acabar com a festa. O dia também fazia sua parte, estava bonito que só ele.
O encontro das palavras foi muito mais um esbarrão. Uma delas caminhava pelo parque como se buscasse algo. Mas o que era, nem ela sabia. A outra palavra avistara a amiga de longe e, primorosa que estava, correu para tecer o cumprimento. 
Falou-lhe do quanto havia viajado desde a última vez que se viram. Disse que fora personagem principal de um grande romance; que dera rima a um dantesco poema; que fizera isso e aquilo...
Contou à palavra 1 dos tantos projetos que a tomariam nos próximos meses. E falou tanto que nem se apercebeu que as suas palavras fizeram eco no imenso vazio que tomava o peito de sua amiga.
E não parou por um segundo sequer. Afinal, havia tanto tempo que não se viam, era normal. Pensava.
Seguiram-se horas e horas e a palavra 2 não fechava a matraca. E a palavra 1, receosa de parecer mal educada, só ouvia (ou ao menos tentava). 
Quando finalmente deu uma trégua, palavra 2 inflou os pulmões e passou a bola, melhor dizendo, as palavras para a outra. 
- E ai, menina. Agora é a sua vez. Conta um pouco o que andou fazendo por essa literatura de meu deus.
- Bem, como posso dizer? ... trabalhei nos bastidores.
- Humm, já sei. Andou nas margens de alguma história sem graça. Acertei? Perguntou palavra 2.

Palavra 1 coçou a cabeça, fincou o olhar em algum ponto fixo qualquer e disse:
- Estive em várias. Da alegre à vigarista, passando pela ácida. Na sem graça tambem me fiz presente. Mas sabe, ainda que em todas essas, eu nunca estava.

- Calminha, você bebeu? sim, porque isso só não é filosofia, é?! Resmungou a palavra atriz.
- Não sei. Devolveu palavra 1 sem erguer os olhos.

O jogo havia cansado a palavra 2, que de tanto se irritar com as evazivas da amiga, despediu-se e partiu.
Foi então que palavra 1 agachou-se próximo a uma árvore e continuou lá por horas.
Sem se dar conta, penetrou no mais íntimo de seus pensamentos.
E a memória revirou-lhe o mais fundo que podia. Nesse momento, a palavra 1 se deu conta do tanto que havia sido requisitada. 
Assim foi quando aquela moça perdera o menino que amava tanto mas que nunca lhe dissera.
Foi também com dona Genalva quando perdeu o marido depois de longos 50 anos de casados. Assim também o foi para Renato, pois nunca tivera forças para dizer ao seu pai o quanto o amava.
E assim havia sido para centenas de pessoas que por um motivo ou outro seguraram no fundo das entranhas as palavras mais importantes e também mais difíceis de dizer.
Palavra 1 se deu conta de que em todos esses momentos era ela que estava na ponta da língua de um alguém. E que, protagonista ou não, ela terminava sempre retornando guela abaixo.
Concluiu então que nunca fora amiga da boca, mas sim do coração e do estômago.
Mas isso palavra 2 nunca entenderia. Ninguém nunca entenderia ... 
isso porque as palavras foram feitas para brilhar.



domingo, 31 de julho de 2011

O que se faz com a educação parte I – tornar-se professor

Quando criança ouvia minha mãe dizer que escola era lugar de quem queria "estudar pra virar gente". 

De lá pra cá muitos anos se passaram. Muita coisa mudou na minha vida, exceto o tamanho. Mas isso é outra história.
Eu mudei de estado, abandonei a ideia de ser jornalista e de realizar o sonho da minha mãe de me ver dizendo boa noite em horário nacional. Desculpa, mãe, eu tentei!
Uma coisa, no entanto, não mudava. Eu continuava estudando. Não sei se mais, se menos. Com mais desprezo aos tradicionalismos dos livros, isso sim. Talvez por esse motivo eu tenha escolhido estudar História. Bem isso, "estudar" história e, não, "fazer" história, porque ao momento tudo que eu via me fazia crer na impossibilidade do indivíduo ser um agente histórico.


Não sei se me entendem. Não falo de uma história qualquer, onde somos meros assimiladores culturais. Refiro-me àquela onde homens e mulheres conseguem pintar o cotidiano com cores bem diferentes do mero rosa forjado.


E, então, a vida seguiu. Me formei e fui impelida a cair em campo, ou melhor, em sala. Dei aula de tudo. Para todo tipo de público. E eis que chegava a hora de cair de cara na tal história para qual tinha estudado. Eu lembrava da época de colégio e me questionava se passara anos na universidade para repetir o modelo de professor que norteou minha vida. Salvas exceções, é bem verdade. Já que tive uns modelos bem demarcados. E não, não era o que eu desejava.


Havia aprendido com alguns exemplares literários, tais como o velho barbudo, Marx, e com um certo poeta de "veias abertas", Eduardo Galeano, a amar o humano em seu sentido material.
E, nos poucos anos seguintes, havia aprendido a seco uma dura lição: a educação, por mais avançada que seja, nunca libertará o homem por completo. É necessário mais. O indivíduo é idéia, mas é imprescindível que a ela se some à ação.


Para mim, de nada ou pouco valia vomitar assuntos acerca do desenvolvimento da humanidade. Faltava a essência. Faltava o óbvio. Dar fala aos verdadeiros protagonistas. Era o servo, o escravo, o proletário. Estava decidido. Eu seria mera intérprete dos que nunca tiveram espaço na famosa e grandiosa roda da história. Mais isso só também não bastava. 


E essa história continua...

terça-feira, 26 de julho de 2011

"Todo amor que houver nessa vida"





Este texto não é para você, leitor algum, leitor qualquer.
Também não o é para aquele que o acha que é: alguma coisa, alguma crítica.
Aqui cabe muito mais.


São palavras retorcidas de minhas entranhas que só buscam nascer.
Mas eu me estremeço, me torço, me encolho.
Finjo que durmo. É mais fácil.
E na calada da noite uma dor muito forte me toma.
Chamo o médico. Ele não vem.
O parto é inesperado. 
E, por entre as últimas fagulhas da penumbra, eis que me deparo com um leito
molhado, suado, de lençóis manchados.
Pois é, elas saíram.
Não têm meus olhos, nem meu torto nariz.
Entretanto, não fogem ao seu destino de joelho.
Como todas as outras: berram, exigem atenção e comida.
Também, como todas as outras, me enebriam com o cheiro particular,
com o macio da pele, com a tranquilidade do melhor dos sonos.
E, quando parecem minhas, lançam-se a  fazer companhia a um outro qualquer.









quarta-feira, 29 de junho de 2011

Peregrinos de Passárgada


Abriu os olhos, tentou esticar os braços no máximo que seu peregrino corpo lhe permitisse só para beber mais uma manhã angélica. O sol lhe ardia nas juntas. Os pássaros lhe zombavam por sobre um canto tão bem ensaiado. No chão, o velho e companheiro chinelo ao molde alpargatas estava, como de costume, a postos esperando a ordem do dono para trepidar naquele andar que não mais invejava a mais lerda das lesmas escorregadias. 

Milhares de quilômetros distantes do seu leito o separavam dela. Nunca se viram e ao menos sentiram o cheiro um do outro. A brisa não os presenteou com a valsa porosa e galanteadora dos que amam. Nunca trocaram cartas dóceis e outras nem tanto assim. Nunca tiveram um filho, sequer, e a esse não puderam chamar de Amarantes. As dívidas hipotecárias nunca foram um comum; também não se embriagaram com os gozos consecutivos, daqueles que só têm os que permitem o furdunço dos lençóis revirados e molhados de suor somados aos vapores saídos das bocas, tarefa para bons vadios. 

E, ainda sim, a senhorinha Anita também repetia os mesmos movimentos matutinos do cascudo seu Juca.

Assim como ele, costumava tomar um breve café com torradas e queijo. Não ultrapassando às 7h da matina, pois ficar mais tarde no ócio era insulto. 

Aos dois ocorria mais uma semelhança, brigavam com as horas por pura teimosia de andarem pra frente. Cada um ao seu modo, ambos reviravam na memória o que dela ainda não fora retirado pelo tempo. E sobravam-lhes boas e más lembranças. Do tempo em que se fazia guerra com o argumento de que era pra guerrear e não civilizar. Do tempo em que dona Anita e seu Juca passavam anos nutrindo amor e celibato a um certo outr@ que só se via por cartas fugidias.

Tempo bom era aquele, pensam os dois. Tempo em que as tardes eram mais alaranjadas e os doces das frutas caídas no quintal apeteciam o corpo e o espírito. Tempo em que se fazer significar por simples dança de mil regras de obediência transformava os impeditivos em meros toscos aos amores que eram mais amores.

E, assim como nasceu, o sol se despedia em mais um dia comum. Muito menos comum o era, no entanto, para esses dois teimosos, que mais um dia se rebelaram à morte em vida. 

Isso, apenas pela teimosia de lembrar e a querer fazê-lo, porque aprenderam que só assim continuarão rasurando a lista dos que têm que estrear no céu.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Los treinta y seis colores de una vida


A falta de habilidade no primeiro beijo oferece a duas pessoas as mais variadas sensações. Na língua parecem habitar todos os espinhos de um tal porco. Na pele, anúncio do caos, gotas de suor brotam por toda parte. As mãos querem, mas não sabem onde tocar. Os olhares tropeçam seguidamente de olhos em olhos; de olhos no chão ou num ponto fixo qualquer. Mas, quando ele realmente acontece, somos tomados de seguida sensação de quero mais.



A segunda-feira começa a duras penas. O corpo pede, melhor, suplica a volta do domingo. Um mau humor inevitável dá o recado: 
 - Melhor ficar na cama, conselho gratuito a essa hora, só o meu mesmo... 
Mas o sol insiste em sorrir da forma mais ingrata que pode. Daí, chegamos ao final do dia e percebemos que o sorriso descompromissado de uma certa criança por entre os ombros da mãe e aquele aluno te pedindo uma revisão no trabalho de português (ainda que você seja de história) nos resgataram do que poderia ser só mais uma segunda. 


Te incomoda o estranhamento das pessoas onde você mora. Elas sofrem ao dar bom dia. Você então se acostuma. Certa tarde, você passa - ainda que distante - por uma jovem e um senhorinho que não mais anda. Ela o leva para beber os poucos raios de sol existentes naquela hora. Obedecendo às regras, você caminha calada. Para sua surpresa, ouve um estridente booooooooa tarde saindo de uma boca de poucos dentes e de grande sorriso.




Os personagens do Gabriel García Marquez trazem velhotes tarados por mocinhas de vinte anos ou menos, ainda sim, a poesia de suas narrações nos transportam para um universo onde as sensações carnais evocam muito mais cheiro, ardor, cores e sabor - ainda que na cena apenas existam costas nuas, uma fresta de luz e um copo de água de ontem.  



Para Eduardo Galeano, a América Latina mais parece uma mulher polaróide: ora de belos cabelos espalhados na grama, ora sangrando após um estupro. Mas é por meio desse movimento que ele nos apresenta em poucas linhas e com figuras toscas a vivacidade de povos que insistem em respirar.



Nesse bailado, corremos ao encontro daquilo que nos escapa. Ainda que fechemos as mãos bem forte, ainda que fiquemos com a boca serrada, ainda sim, escapa.




O CONTROLE.




quarta-feira, 4 de maio de 2011

Lacunas e cafunés



Fazia parte de seus dias as trelas, 
comer frutas dependurada em árvores,
também os machucões e as noites mal dormidas por conta desse ou daquele corte que lhe doía.
Mas sabe o que ela mais gostava? dos cafunés que surgiam entremeados pelas palmadas matinais, vespertinas, noturnas ou isso tudo.
Por mimo, medo do escuro, por pesadelo ou, ainda, medo do carão que a tia lhe deu por derrubar refrigerante naquele caderno verde de páginas amareladas que sempre rasgavam quando precisava usar a borracha... independente do motivo ela sempre estava lá, pronta para sentar no chão e por lá ficar horas e horas ao lado da cama da menina peralta. E era um cafuné primoroso...
... máquina alguma se assemelha!

Devia ser direito de todos: cafuné para começar bem o dia. Cafuné para aproveitar aquela noite chuvosa. Cafuné para se salvar dos pesadelos. 
Aposto que assim a vida seria mais colorida. 
As pessoas adoeceriam pura e simplesmente para ganhar cafuné e não ficariam saradas por um longo tempo.

Vida vai, vida vem e uma coisa me preocupa, 
faltam mãos no mercado ou saiu de moda se aprochegar num colinho bom?!

Ainda sim, era muito bom. Sinto os dedinhos até agora... 


sábado, 9 de abril de 2011

De passo a passo segue meu coração


Mais um dia de trabalho acabava para mim. O corpo latejava, embora não mais que a mente.
E eu caminhava, olhando menos os meus e muito mais os passos alheios.
Um sinal verde, pessoas à espera de um vermelho para caminhar. Movimentos repetitivos.
Todos nós sabíamos o que devíamos fazer!
Chegaríamos todos em casa, jogaríamos nossas coisas sobre a cama e, logo em seguida, um banho lavaria o que dava para ser salvo.
Uma pena não ser sempre assim?
Digo avidamente que sim e não.
Do tanto que já nos tiraram e ainda o fazem, uma teimosia vai perdurar em mim, como que óleo grudado ao corpo: o vício de ver/viver o outro.
...
Uma longa espera e eis que meu ônibus chegava. Como de costume, percebia os olhares perdidos, cansados, apaixonados, irritados, idiotas...
Percebia também o que não dava pra deixar passar, a chuva. Esta, ruivava lá fora e punha medo aos que precisavam manter um cabelo bonito, uma roupa nova ou mesmo o corpo longe de um belo resfriado. O fato é que a tal chuva, propositalmente ou não, provocara um balanço anômalo nas pessoas. Somada a uma noite de extrema formosura peculiar, senhora chuva ofertava-lhes um forçoso dançar sobre as calçadas e ruas. Era mesmo um bailado beirando o desconserto. Senhorinhas e belas moças não a recebiam com boa acolhida, era fato.
E lá pelas tantas da viagem fui interrompida por duas crianças inoportunas. Sim, elas teimavam em gostar daquilo. Como podia? Era chuva. Ninguém, exceto eu, poderia gostar mais da dona chuva. Eu não aceitava aquela situação. Me soou tremenda afronta.
Mas aí eles mostraram a que vieram e com as pontinhas dos dedos começaram a desenhar os vidros que a esta hora já estavam embaçados. Dali surgira uma casinha, um nome gustavo e um círculo dentro de outro e mais outro.
Foi o bastante para a minha fúria. Quem suporta a petulância de dois serezimos bebendo a chuva aos goles?! Eles não sabiam com quem estavam se metendo. Chegava o momento de eu descer, agora era minha vez de dar-lhes o troco.
Uns poucos minutos depois de descer eu olhava para o céu. Ele sorria para mim e a dona chuva só me sacaneava (mas eu bem que estava gostando).
Ao contrário dos que se encolhiam, se esgueiravam em busca de refúgio, eu me joguei nela.
E como tava bom...
O corpo suspirava e transpirava liberdade. A estranha provocava olhares de surpresa por onde passava. E daí?!
No final, eu me aproximava de casa; ela já se despedia e eles - aqueles pirralhos lindos - nos aproveitamos muito bem!





*Ainda que a anomalia social busque romper o belo, ainda que pessoas justifiquem barbaridades com o injustificável, ainda sim existirá a vivacidade dos que pouco viveram e nem por isso são menos conhecedores da arte de viver.
Luto pelo simples, pelo ardor de poder sentir!

quarta-feira, 30 de março de 2011

Por entre veias e vielas



Era Veneza, mas bem que podia ser outro lugar qualquer. 
A noite, bela dama, transformava o cenário numa batalha de amantes.
Por entre os ladrilhos da rua, uma dona menina. Louca para ganhar o título de bela colombina.
Enquanto na esquina ele só a olhava. Timidez ou não, o fato é que estava ali por longo tempo. Se esgueirando pelas vielas geladas daquele lugar encantador. Ele a amava desde muito tempo, para ser exato, fazia 10 ou 20 minutos. Mas quem liga para isso? O corte que ela deixara em seu peito fora feito apenas com um olhar de relance.
A jovem era atrevida, percorria puteiros, andava sozinha já há algum tempo. E não demonstrava um tico de estranheza em ver aquelas mulheres a sorrir escaldantemente para quem lhes oferecesse o tal papel. Em resposta, elas também ofereciam o amor de plástico e o gozo fingido.
Mas a sapeca dona menina fincava o olhar, como se apurando tudo nos mínimos detalhes. Os sabores e cores. 
Sorria astuta. De lábios grossos, os empinava só para ofuscar os olhos sedentos daqueles homens. 
E passava, seguia o caminho de casa como fazia toda noite depois que saía da cantina onde trabalhava. Mas gostava mesmo era de brindar a noite por todo o caminho até onde morava.


Pronto, faltava pouco para chegar na sua rua. Mais um dia de uma sangue-suga a engolir o cotidiano com garras de fênix. Isso bastava a ela. O amor? esse ela nunca havia encontrado, e achava mesmo que ele tinha dobrado a esquina errada... porque não chegara até aquela hora.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Estupraram a educação e chamaram-na de expansão!

Primeiro me dizem que expandir é igual a fazer crescer, a dar oportunidades, a incluir. Tudo bem, até que a ideia parece boa. Afinal, quem não quer sair da tônica do apenas saber ler/escrever pra entrar no mundo dos dotôr?!

Agora me chegam com um tal de Reuni. Programinha mais esperto esse. Faz a gente acreditar que enfiando mais gente numa sala e dando mais trabalho pro professor vai deixar o povo mais sabido. Sabideza besta essa...

A educação dos rico continua uma lindeza.  Os fio dos homi de terno não precisam disso não. Tem carro, casa grande e universidade nos esteite de montão. Faz viagem o ano todo, estuda num tar de cursinprevestibular e passa em qualquer lugar.

Já a gente, os de baixo, cá embaixo mesmo precisamos nos enfiar nas escolas de faz conta. Os professor faz de conta que ensina e nós que aprende. E isso dura é muito. Dura o suficiente pra gente acordar num dia e perceber que chegou a hora da inscrição no vestibular e que ainda falta é tanto pra gente ficar sabido pra concorrer com esses tar.

Mas aí vem o governo e diz pra gente que nossa hora chegou. Que agora tem um tal de ProUni, que deixa a gente estudar nas universidades pagas; Um tal de Reuni, que vai dar muita vaga mesmo pra quem quer estudar. E como se não bastasse, ainda podemos estudar em casa. Numa tal de educação a distância. É os professor lá e nós aqui. Isso é que é tecnologia!

E tem mais. Tá pensando que é só isso? né não. Esse tal governo também quer colocar mais gente nas escolas técnicas. Uns tar de instituto tecnológico. O nome é bonito, isso ninguém pode negar. 
Disseram que pro país crescer tem que ser com a ajuda de todo mundo. Acho que é um tal de faz o teu que eu tenho que fazer o meu também.

Mas aí, um dia eu começo a ouvir de uns professor que ensinam nesses lugar que as coisa não tão lá tão boas. Dizem que a moda é arrochar: 
a) mais aulas no professor substituto;
b) com menos contratação de pessoal;
c)com mais cursos começando. Mas sem biblioteca, laboratório e até mesmo lugar pra chamar de universidade.
d) no aluno, que vai estudar e não tem professor; comida pra dar sustança; transporte decente... Isso pra começar...

Acho mesmo que esse negógio é faz de conta dos grande. Outro dia cheguei em casa e liguei a TV. Tava a dona presidente falando que ia precisar suspender nomeação, ia cortar as verba da educação. Mas que a gente não ficasse triste, porque ela ia manter a política de expansão.






domingo, 6 de março de 2011

O dobro de tudo


Certeza ela não tinha (mas e quem tem mesmo?)
Da larga fresta que transpassava seu coração, vários tinham sido os que nele repousaram.
Mas, era uma noite chuvosa... e agora, como seria?
Restava o barulho das gotas a tocar o velho telhado, o cheiro da areia recém molhada e a xícara de café  sobre a mesa, ainda na espera.
 Mas ele não chegou, e nem o faria por um longo tempo... a largura dos dias se apresentava cada vez mais presente.



Os P   I   N   G   O   S podem ser percebidos mais calmos, a travessura tinha ficado na noite anterior
Agora era a vez dele, o sol.
De belos e ofuscantes amarelos, se exibia a todos os dispostos à brevidade ou não, 
aos insones que bebiam a noite aos goles e vomitavam no dia os sentimentos que ainda suavam na mente.



Ela abre os olhos, solta um sorriso gargalhado e olha ao seu lado.
A cama continua a mesma: quatro pés envoltos numa vontade nada cálida de pisar a vida, só pra exibir os calos que valem à pena.
É, foi um sonho. Ela percebeu.
Desses que só aumenta o desejo do toque, do sabor, do cheiro.


E tudo permanecia intocável: o dobro de tudo
... corações, pernas, pés, sofrimentos, aconchego, TROCA... (ainda que

                                                                           ToRtA, TOCA)

Ela olha o relógio, ainda cabem os costumeiros 10 minutos a enganar a história.
Outro sorriso, um (e)nlace seguro e o melhor dos sonos.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Meia volta a menos nos ponteiros?

Por Rossana Marinho
Era um dia de um mês qualquer. Em meio a obrigações mil, resolvera presentear seu pai com uma breve visita. Daquelas que só os médicos sabem fazer: uma tosse, um diagnóstico, um remédio para aliviar a dor...
Há muito que a vida trabalhava em seus dias, mais parecendo um vento confuso - ora revolto, ora levinho. E das muitas bordejadas que deu, uma lição tirou: nem tudo que é muito ruim nos assombrava infinitamente. Da mesma forma que os bons bocados dessa vida nos escapavam pelos dedos de uma forma ou outra. 

(...)

O sol já se despedia, com um lindo multicolorido sobre as casas confusas daquele bairro. Ela, como de costume muito apressada, se levantava do sofá quando seu pai, um velhinho cheio de rabugices, começou a fitá-la (ainda que sob o véu de olhos que não mais funcionavam como antes) seguidamente. 
- O que foi? por que me olha? estou suja? Sabatinou ela.
- Minha filha, sabe aqueles dias em que acordamos mas temos uma preguiça danada de levantar? pois bem, tem acontecido comigo. O curioso é que nesse breve momento eu tenho tido lampejos de coisas que foram. Um dia desses, por exemplo, lembrei de quando você era pirrota. Quando eu acordava, já estava você toda "emacacada" vestida de xuxa...

Um silêncio quente se fez e era daqueles bem ácidos.

De repente, o velhinho quebrou aquele barulho irritante:
- Os momentos passam, não é?!... mas não deveriam.

Outro silêncio ensurdecedor pairou. Só que dessa vez nenhum dos dois tinham uma boa piada para contar.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O convite do dia que vai ser

Por Luisa L.


Na distância do seu, sou eu e também ela
Dormes na bebida dos gregos
Do teu sexo, ousadia e desatino
Teus olhos rasgam com vigor a linha da minha racionalidade
És brutalidade seca 
Da dúvida, a dívida
Sou a ponderação de um riso rasgado
Tu, o gozo infinito de uma felicidade desgarrada


Mas, do lado do acaso

 o choque sacode

assim sou eu
                      & tu...



       

domingo, 16 de janeiro de 2011

Um tanto de memória...

 

Quem nunca sentiu vontade de agarrar uma boa lembrança para que não fuja? Ao contrário disso, quem nunca quis expulsar da cabeça aquele espaço de história nada agradável de lembrar? Por sorte, ambas as vontades nos escapam pelos dedos, e de uma forma tão autônoma que só nos resta seguir o curso.

Pois é, no campo da subjetividade, a objetividade dá um trabalho danado.

Nos últimos dias, tenho me deparado com uma quantidade significativa de fatos que remetem à questão da memória. Seja ela de forma individual, como um flash do meu vivido, seja ela evocada por situações de um cotidiano qualquer. Aos muitos que, como eu, não desfrutam de viagens de luxo, bebidas caras e emoções de plástico, só ela permanece,  a memória. A tal memória arde em mim. Poderia ter sido por outro motivo qualquer, certeza nunca terei, mas o fato é que mudar de cidade me fez ligar o botão rememorar. E desde quando?! Não sei ao certo.

Era 2002 ou 3, não importa. Desde então, a terra dos espertos marechais passou a guardar meus sonos. Economizo os olhos fechados, já abertos é fácil lembrar o que eu sentia. Não, não era Maceió meu lugar. Aos 18 ou 19 anos eu só sabia o que não queria. Por motivos que não cabem aqui, a terrinha passou a abrigar a mim e a meu irmão. Uma dor forte me tomava dias e noites, não pelo fato de morar em Maceió, mas pela forma como fui parar ali. Eu não precisava solicitar a ajuda de um Wikileaks para descobrir que uma corda seguraria meus sonhos.

Passados cerca de dez anos, um balanço pede passagem. Os pontos negativos foram muitos, mas a história aqui é outra. Os descompassos da minha história me deram belos e marcantes momentos. E são eles os atores dessa festa. Dos primeiros anos de labuta à vida acadêmica, muita Natália metamorfoseou-se. Vários foram os responsáveis. Ainda que eu tenha demonstrado a importância dessas pessoas, não fosse o meu lado xiita, os agradecimentos seriam às claras. 
  
Começando do começo
A moça cabisbaixa que não acreditava em utopias, depois de conhecer um certo trotskysta passou a entender que utopia não passa de um conceito utilizado pela burguesia para servir de sinônimo a tudo que represente a libertação e humanização do homem.  Para evitar constrangimentos maiores, não revelarei os nomes dos envolvidos nesta história. É que meu saldo bancário dá mostras de que eu não teria mesmo como pagar indenizações hollywoodianescas. 

Pois bem, foi com J que apreciei a leveza que a vida por muito tempo esquecera de me apresentar. Vale lembrar, na época, ele era um simples estudante de jornalismo, contador de histórias profissional e mentiroso, porque, dentre tantos feitos, um que sempre alardeava era o de dominar a arte do futebol. Mas isso pouco importava. Diariamente, J escrevia comigo páginas legais de uma vida sem frescuras mas de um colorido estupendo. Anos depois, J foi relocalizado, passou a ocupar novo posto, entretanto, sem nunca deixar de ser uma das peças principais do meu jogo.

Recomeçando do começo
Após quase 5 anos, outra Natália pediu passagem e eu deixei. Nossa, uma avenida nos divide, não é mesmo, minha cara?! Dessa vez, as páginas seriam escritas à base de tinta verde, de tanto que lembrava um quartel general. Brincadeira (ainda que um quadro de tarefas estampado na porta da geladeira tenha me causado um certo frio na barriga...)!! Posso dizer que foi o ano mais intenso que vivi. B e R são hoje muito mais que grandes amigas, com elas aprendi e aprendo tanta coisa. São, de fato, a girafa e a prossora mais queridas!!!!


Só pelo cheirinho bom do café que saía daquela pitoresca casa, já seria motivo para infindáveis histórias. Era o pretinho quente, por vezes regado de pão não menos quente, o responsável por juntar três mulheres ao redor da mesa e de três cães sapecas e de uma gata sagaz. Isso mesmo, a confusão era nessa ordem. "Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada".

Das reuniões regadas a vinho; do samba querido (oh, querido samba, que falta!); dos pitacos que dávamos na vida da(s) outra(s); do compartilhamento de leituras nas horas de estudo; de todos os momentos hilários ao som do chaqualhar das ondas e de outros nada engraçados, a todos eles, que saudade!

Muita história aconteceu. Vários atores somaram-se a essa lambança. Em especial, uma certa índia - uma visitante nada visitante; um grandão e uma parolita. Peço licença e desculpas desde já. De forma alguma relego a importância de todos os outros. Não se trata disso.

Como eu dizia no início, dá uma vontade danada de apertar esses momentos. Segurá-los, como faz um bebê quando aperta nossos dedos, e não deixar por nada que eles desapareçam. Pois é assim para mim. A cidade nova vai rechear ainda mais o meu quartinho de memórias, mas essas queridas pessoas, por tão amadas que são, nunca, nunquinha na vida, deixarão os largos espaços dessa melhor memória que tenho.

A pequena, a xiita, a lunga que vos escreve tá numa torcida ferrenha para, ainda que por caminhos tão literalmente distantes, que todos vocês continuem escrevendo páginas autênticas dessa vida utópica que a gente faz tão bem. 

Então, viva a utopia!!!!!!!!!