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Mostrando postagens de 2011

Monólogo de um grito que não foi

Esta história não pertence a ninguém. Nem mesmo ao tempo. Peço-lhes licença, apenas a tomarei de empréstimo. Mas não eu um corpo. E sim eu, uma vaga.
Sim, uma vaga. Porque o dia raiou, mas no meu peito mora uma noite eterna.
Olho as pessoas no trânsito. A (a)normalidade é sorrateira. Apregoa na vida de uns tantos homens e mulheres um cenário de ansiedade, reuniões infindáveis, contratos a fechar, mentiras a contar. Não há susto nisso. Não há. O que existe é a falta. Mas, de tanto faltar, a mim também foge. Volto para casa. E o concreto do chão que piso é vagabundo. Ele não assegura o mundo sobre meus pés. No espelho do banheiro um sinal de pressa. Respingos de pasta de dente... - Um momento. Pensei numa coisa agora: por que nunca tive um jardim? Putz, a essa hora e eu pensando em porra de jardim. - Ei, só mais uma coisa: já te passou pela cabeça que essa tua vida pode estar vencida? É, com prazo de validade expirado.  De novo, não sei porque raios isso me veio à cabeça. Deve ter sido o sol esquen…

Entre palavras

Era fim de tarde quando duas palavras se encontraram num parque. O acaso as levara ali.  Tudo parecia muito bem. Muitas crianças se faziam presentes. Brincavam de um tudo e desatavam a chorar toda vez que uma mãe aparecia para acabar com a festa. O dia também fazia sua parte, estava bonito que só ele. O encontro das palavras foi muito mais um esbarrão. Uma delas caminhava pelo parque como se buscasse algo. Mas o que era, nem ela sabia. A outra palavra avistara a amiga de longe e, primorosa que estava, correu para tecer o cumprimento.  Falou-lhe do quanto havia viajado desde a última vez que se viram. Disse que fora personagem principal de um grande romance; que dera rima a um dantesco poema; que fizera isso e aquilo... Contou à palavra 1 dos tantos projetos que a tomariam nos próximos meses. E falou tanto que nem se apercebeu que as suas palavras fizeram eco no imenso vazio que tomava o peito de sua amiga. E não parou por um segundo sequer. Afinal, havia tanto tempo que não se viam, era …

O que se faz com a educação parte I – tornar-se professor

Quando criança ouvia minha mãe dizer que escola era lugar de quem queria "estudar pra virar gente". 

De lá pra cá muitos anos se passaram. Muita coisa mudou na minha vida, exceto o tamanho. Mas isso é outra história. Eu mudei de estado, abandonei a ideia de ser jornalista e de realizar o sonho da minha mãe de me ver dizendo boa noite em horário nacional. Desculpa, mãe, eu tentei! Uma coisa, no entanto, não mudava. Eu continuava estudando. Não sei se mais, se menos. Com mais desprezo aos tradicionalismos dos livros, isso sim. Talvez por esse motivo eu tenha escolhido estudar História. Bem isso, "estudar" história e, não, "fazer" história, porque ao momento tudo que eu via me fazia crer na impossibilidade do indivíduo ser um agente histórico.


Não sei se me entendem. Não falo de uma história qualquer, onde somos meros assimiladores culturais. Refiro-me àquela onde homens e mulheres conseguem pintar o cotidiano com cores bem diferentes do mero rosa forjado.

E, en…

"Todo amor que houver nessa vida"

Este texto não é para você, leitor algum, leitor qualquer. Também não o é para aquele que o acha que é: alguma coisa, alguma crítica. Aqui cabe muito mais.

São palavras retorcidas de minhas entranhas que só buscam nascer. Mas eu me estremeço, me torço, me encolho. Finjo que durmo. É mais fácil. E na calada da noite uma dor muito forte me toma. Chamo o médico. Ele não vem. O parto é inesperado.  E, por entre as últimas fagulhas da penumbra, eis que me deparo com um leito molhado, suado, de lençóis manchados. Pois é, elas saíram. Não têm meus olhos, nem meu torto nariz. Entretanto, não fogem ao seu destino de joelho. Como todas as outras: berram, exigem atenção e comida. Também, como todas as outras, me enebriam com o cheiro particular, com o macio da pele, com a tranquilidade do melhor dos sonos. E, quando parecem minhas, lançam-se a  fazer companhia a um outro qualquer.








Peregrinos de Passárgada

Abriu os olhos, tentou esticar os braços no máximo que seu peregrino corpo lhe permitisse só para beber mais uma manhã angélica. O sol lhe ardia nas juntas. Os pássaros lhe zombavam por sobre um canto tão bem ensaiado. No chão, o velho e companheiro chinelo ao molde alpargatas estava, como de costume, a postos esperando a ordem do dono para trepidar naquele andar que não mais invejava a mais lerda das lesmas escorregadias. 
Milhares de quilômetros distantes do seu leito o separavam dela. Nunca se viram e ao menos sentiram o cheiro um do outro. A brisa não os presenteou com a valsa porosa e galanteadora dos que amam. Nunca trocaram cartas dóceis e outras nem tanto assim. Nunca tiveram um filho, sequer, e a esse não puderam chamar de Amarantes. As dívidas hipotecárias nunca foram um comum; também não se embriagaram com os gozos consecutivos, daqueles que só têm os que permitem o furdunço dos lençóis revirados e molhados de suor somados aos vapores saídos das bocas, tarefa para bons vadio…

Los treinta y seis colores de una vida

A falta de habilidade no primeiro beijo oferece a duas pessoas as mais variadas sensações. Na língua parecem habitar todos os espinhos de um tal porco. Na pele, anúncio do caos, gotas de suor brotam por toda parte. As mãos querem, mas não sabem onde tocar. Os olhares tropeçam seguidamente de olhos em olhos; de olhos no chão ou num ponto fixo qualquer. Mas, quando ele realmente acontece, somos tomados de seguida sensação de quero mais.


A segunda-feira começa a duras penas. O corpo pede, melhor, suplica a volta do domingo. Um mau humor inevitável dá o recado:   - Melhor ficar na cama, conselho gratuito a essa hora, só o meu mesmo...  Mas o sol insiste em sorrir da forma mais ingrata que pode. Daí, chegamos ao final do dia e percebemos que o sorriso descompromissado de uma certa criança por entre os ombros da mãe e aquele aluno te pedindo uma revisão no trabalho de português (ainda que você seja de história) nos resgataram do que poderia ser só mais uma segunda. 

Te incomoda o …

Lacunas e cafunés

Fazia parte de seus dias as trelas,  comer frutas dependurada em árvores, também os machucões e as noites mal dormidas por conta desse ou daquele corte que lhe doía. Mas sabe o que ela mais gostava? dos cafunés que surgiam entremeados pelas palmadas matinais, vespertinas, noturnas ou isso tudo. Por mimo, medo do escuro, por pesadelo ou, ainda, medo do carão que a tia lhe deu por derrubar refrigerante naquele caderno verde de páginas amareladas que sempre rasgavam quando precisava usar a borracha... independente do motivo ela sempre estava lá, pronta para sentar no chão e por lá ficar horas e horas ao lado da cama da menina peralta. E era um cafuné primoroso... ... máquina alguma se assemelha!
Devia ser direito de todos: cafuné para começar bem o dia. Cafuné para aproveitar aquela noite chuvosa. Cafuné para se salvar dos pesadelos.  Aposto que assim a vida seria mais colorida.  As pessoas adoeceriam pura e simplesmente para ganhar cafuné e não ficariam saradas por um longo tempo.
Vida vai, vid…

De passo a passo segue meu coração

Mais um dia de trabalho acabava para mim. O corpo latejava, embora não mais que a mente. E eu caminhava, olhando menos os meus e muito mais os passos alheios. Um sinal verde, pessoas à espera de um vermelho para caminhar. Movimentos repetitivos. Todos nós sabíamos o que devíamos fazer! Chegaríamos todos em casa, jogaríamos nossas coisas sobre a cama e, logo em seguida, um banho lavaria o que dava para ser salvo. Uma pena não ser sempre assim? Digo avidamente que sim e não. Do tanto que já nos tiraram e ainda o fazem, uma teimosia vai perdurar em mim, como que óleo grudado ao corpo: o vício de ver/viver o outro. ... Uma longa espera e eis que meu ônibus chegava. Como de costume, percebia os olhares perdidos, cansados, apaixonados, irritados, idiotas... Percebia também o que não dava pra deixar passar, a chuva. Esta, ruivava lá fora e punha medo aos que precisavam manter um cabelo bonito, uma roupa nova ou mesmo o corpo longe de um belo resfriado. O fato é que a tal chuva, propositalm…

Por entre veias e vielas

Era Veneza, mas bem que podia ser outro lugar qualquer.  A noite, bela dama, transformava o cenário numa batalha de amantes. Por entre os ladrilhos da rua, uma dona menina. Louca para ganhar o título de bela colombina. Enquanto na esquina ele só a olhava. Timidez ou não, o fato é que estava ali por longo tempo. Se esgueirando pelas vielas geladas daquele lugar encantador. Ele a amava desde muito tempo, para ser exato, fazia 10 ou 20 minutos. Mas quem liga para isso? O corte que ela deixara em seu peito fora feito apenas com um olhar de relance. A jovem era atrevida, percorria puteiros, andava sozinha já há algum tempo. E não demonstrava um tico de estranheza em ver aquelas mulheres a sorrir escaldantemente para quem lhes oferecesse o tal papel. Em resposta, elas também ofereciam o amor de plástico e o gozo fingido. Mas a sapeca dona menina fincava o olhar, como se apurando tudo nos mínimos detalhes. Os sabores e cores.  Sorria astuta. De lábios grossos, os empinava só para ofuscar os olho…

Estupraram a educação e chamaram-na de expansão!

Primeiro me dizem que expandir é igual a fazer crescer, a dar oportunidades, a incluir. Tudo bem, até que a ideia parece boa. Afinal, quem não quer sair da tônica do apenas saber ler/escrever pra entrar no mundo dos dotôr?!
Agora me chegam com um tal de Reuni. Programinha mais esperto esse. Faz a gente acreditar que enfiando mais gente numa sala e dando mais trabalho pro professor vai deixar o povo mais sabido. Sabideza besta essa...
A educação dos rico continua uma lindeza.  Os fio dos homi de terno não precisam disso não. Tem carro, casa grande e universidade nos esteite de montão. Faz viagem o ano todo, estuda num tar de cursinprevestibular e passa em qualquer lugar.
Já a gente, os de baixo, cá embaixo mesmo precisamos nos enfiar nas escolas de faz conta. Os professor faz de conta que ensina e nós que aprende. E isso dura é muito. Dura o suficiente pra gente acordar num dia e perceber que chegou a hora da inscrição no vestibular e que ainda falta é tanto pra gente ficar sabido pra con…

O dobro de tudo

Certeza ela não tinha (mas e quem tem mesmo?) Da larga fresta que transpassava seu coração, vários tinham sido os que nele repousaram. Mas, era uma noite chuvosa... e agora, como seria? Restava o barulho das gotas a tocar o velho telhado, o cheiro da areia recém molhada e a xícara de café  sobre a mesa, ainda na espera.  Mas ele não chegou, e nem o faria por um longo tempo... a largura dos dias se apresentava cada vez mais presente.


Os P   I   N   G   O   S podem ser percebidos mais calmos, a travessura tinha ficado na noite anterior Agora era a vez dele, o sol. De belos e ofuscantes amarelos, se exibia a todos os dispostos à brevidade ou não,  aos insones que bebiam a noite aos goles e vomitavam no dia os sentimentos que ainda suavam na mente.


Ela abre os olhos, solta um sorriso gargalhado e olha ao seu lado. A cama continua a mesma: quatro pés envoltos numa vontade nada cálida de pisar a vida, só pra exibir os calos que valem à pena. É, foi um sonho. Ela percebeu. Desses que só aumenta o desej…

Meia volta a menos nos ponteiros?

Era um dia de um mês qualquer. Em meio a obrigações mil, resolvera presentear seu pai com uma breve visita. Daquelas que só os médicos sabem fazer: uma tosse, um diagnóstico, um remédio para aliviar a dor... Há muito que a vida trabalhava em seus dias, mais parecendo um vento confuso - ora revolto, ora levinho. E das muitas bordejadas que deu, uma lição tirou: nem tudo que é muito ruim nos assombrava infinitamente. Da mesma forma que os bons bocados dessa vida nos escapavam pelos dedos de uma forma ou outra. 
(...)
O sol já se despedia, com um lindo multicolorido sobre as casas confusas daquele bairro. Ela, como de costume muito apressada, se levantava do sofá quando seu pai, um velhinho cheio de rabugices, começou a fitá-la (ainda que sob o véu de olhos que não mais funcionavam como antes) seguidamente.  - O que foi? por que me olha? estou suja? Sabatinou ela. - Minha filha, sabe aqueles dias em que acordamos mas temos uma preguiça danada de levantar? pois bem, tem acontecido comigo. O c…

O convite do dia que vai ser

Na distância do seu, sou eu e também ela Dormes na bebida dos gregos Do teu sexo, ousadia e desatino Teus olhos rasgam com vigor a linha da minha racionalidade És brutalidade seca  Da dúvida, a dívida Sou a ponderação de um riso rasgado Tu, o gozo infinito de uma felicidade desgarrada

Mas, do lado do acaso
 o choque sacode
assim sou eu                       & tu...


Um tanto de memória...

Quem nunca sentiu vontade de agarrar uma boa lembrança para que não fuja? Ao contrário disso, quem nunca quis expulsar da cabeça aquele espaço de história nada agradável de lembrar? Por sorte, ambas as vontades nos escapam pelos dedos, e de uma forma tão autônoma que só nos resta seguir o curso.
Pois é, no campo da subjetividade, a objetividade dá um trabalho danado.
Nos últimos dias, tenho me deparado com uma quantidade significativa de fatos que remetem à questão da memória. Seja ela de forma individual, como um flash do meu vivido, seja ela evocada por situações de um cotidiano qualquer. Aos muitos que, como eu, não desfrutam de viagens de luxo, bebidas caras e emoções de plástico, só ela permanece,  a memória. A tal memória arde em mim. Poderia ter sido por outro motivo qualquer, certeza nunca terei, mas o fato é que mudar de cidade me fez ligar o botão rememorar. E desde quando?! Não sei ao certo.
Era 2002 ou 3, não importa. Desde então, a terra dos espertos marechais passou a guard…