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Por entre veias e vielas


Era Veneza, mas bem que podia ser outro lugar qualquer. 
A noite, bela dama, transformava o cenário numa batalha de amantes.
Por entre os ladrilhos da rua, uma dona menina. Louca para ganhar o título de bela colombina.
Enquanto na esquina ele só a olhava. Timidez ou não, o fato é que estava ali por longo tempo. Se esgueirando pelas vielas geladas daquele lugar encantador. Ele a amava desde muito tempo, para ser exato, fazia 10 ou 20 minutos. Mas quem liga para isso? O corte que ela deixara em seu peito fora feito apenas com um olhar de relance.
A jovem era atrevida, percorria puteiros, andava sozinha já há algum tempo. E não demonstrava um tico de estranheza em ver aquelas mulheres a sorrir escaldantemente para quem lhes oferecesse o tal papel. Em resposta, elas também ofereciam o amor de plástico e o gozo fingido.
Mas a sapeca dona menina fincava o olhar, como se apurando tudo nos mínimos detalhes. Os sabores e cores. 
Sorria astuta. De lábios grossos, os empinava só para ofuscar os olhos sedentos daqueles homens. 
E passava, seguia o caminho de casa como fazia toda noite depois que saía da cantina onde trabalhava. Mas gostava mesmo era de brindar a noite por todo o caminho até onde morava.
Pronto, faltava pouco para chegar na sua rua. Mais um dia de uma sangue-suga a engolir o cotidiano com garras de fênix. Isso bastava a ela. O amor? esse ela nunca havia encontrado, e achava mesmo que ele tinha dobrado a esquina errada... porque não chegara até aquela hora.


Por Natália Freitas


Comentários

  1. nooooooossa! eu comecei a ler e vim até embaixo, achando que era Galeano. que lindo! vc precisa ler Benjamin comentando Baudelaire. E ler sobre a figura do flâneur, que ele comenta. vc é uma flâneur. e hoje eles são raros.

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