Pular para o conteúdo principal

Por entre veias e vielas


Era Veneza, mas bem que podia ser outro lugar qualquer. 
A noite, bela dama, transformava o cenário numa batalha de amantes.
Por entre os ladrilhos da rua, uma dona menina. Louca para ganhar o título de bela colombina.
Enquanto na esquina ele só a olhava. Timidez ou não, o fato é que estava ali por longo tempo. Se esgueirando pelas vielas geladas daquele lugar encantador. Ele a amava desde muito tempo, para ser exato, fazia 10 ou 20 minutos. Mas quem liga para isso? O corte que ela deixara em seu peito fora feito apenas com um olhar de relance.
A jovem era atrevida, percorria puteiros, andava sozinha já há algum tempo. E não demonstrava um tico de estranheza em ver aquelas mulheres a sorrir escaldantemente para quem lhes oferecesse o tal papel. Em resposta, elas também ofereciam o amor de plástico e o gozo fingido.
Mas a sapeca dona menina fincava o olhar, como se apurando tudo nos mínimos detalhes. Os sabores e cores. 
Sorria astuta. De lábios grossos, os empinava só para ofuscar os olhos sedentos daqueles homens. 
E passava, seguia o caminho de casa como fazia toda noite depois que saía da cantina onde trabalhava. Mas gostava mesmo era de brindar a noite por todo o caminho até onde morava.
Pronto, faltava pouco para chegar na sua rua. Mais um dia de uma sangue-suga a engolir o cotidiano com garras de fênix. Isso bastava a ela. O amor? esse ela nunca havia encontrado, e achava mesmo que ele tinha dobrado a esquina errada... porque não chegara até aquela hora.


Comentários

  1. nooooooossa! eu comecei a ler e vim até embaixo, achando que era Galeano. que lindo! vc precisa ler Benjamin comentando Baudelaire. E ler sobre a figura do flâneur, que ele comenta. vc é uma flâneur. e hoje eles são raros.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Memória, a paga do tempo

- Eu rasgaria o tempo assim pudesse!
- O tempo não, a lembrança dos que dele lembram.

(...)

Vejo uma rua.
Sessenta e quatro ladrilhos a me apontar que o esgoto ainda fede.

(...)

Baco treme em risos e avisa a Zeus que a composição desta estória está vermelha de seus melhores vinhos.

(...)

Direcionam ao meu front canalhices de toda ordem. E até me fazem crer que a minha história anda atordoada, esquizofrênica.

(...)

E lhes respondo: Sim. Na minha esquizofrenia, ouço vozes de um passado expurgado com sangue, silêncio e dor.

(...)

E a minha história, meu caro, agora acende um cigarro, respira fundo e espera as cortinas se abrirem para o espetáculo recomeçar!



Guerras

Estou agora numa leitura.
Sobre um tempo de guerras e de pessoas costurando dignidades.
Estou agora absorta em mim. O livro já está sobre o colchão e eu em ti.
Não é possível, disse-me o tempo. É urgente, disse-me a memória.
Ela vagou sobre mim. Abriu uma trincheira insólita.

Vejo meu corpo deitado. Estou molhada da lama. E olho para o céu.
Uma vontade dilacerante de te contar por onde andei esses anos.
A razão me pune. Diz pra eu ficar muda e intacta.
A lama continua a umedecer minhas costas e cabelos.
E eu agora só queria te contar cada página desse livro, como nos velhos tempos.
A razão me chama tola. Me deixa de castigo, ali.. com o corpo úmido de lama.
Então me viro. Puxo o lençol e fecho os olhos.
Outro bombardeio.

"Todo amor que houver nessa vida"

Este texto não é para você, leitor algum, leitor qualquer. Também não o é para aquele que o acha que é: alguma coisa, alguma crítica. Aqui cabe muito mais.

São palavras retorcidas de minhas entranhas que só buscam nascer. Mas eu me estremeço, me torço, me encolho. Finjo que durmo. É mais fácil. E na calada da noite uma dor muito forte me toma. Chamo o médico. Ele não vem. O parto é inesperado.  E, por entre as últimas fagulhas da penumbra, eis que me deparo com um leito molhado, suado, de lençóis manchados. Pois é, elas saíram. Não têm meus olhos, nem meu torto nariz. Entretanto, não fogem ao seu destino de joelho. Como todas as outras: berram, exigem atenção e comida. Também, como todas as outras, me enebriam com o cheiro particular, com o macio da pele, com a tranquilidade do melhor dos sonos. E, quando parecem minhas, lançam-se a  fazer companhia a um outro qualquer.