sábado, 9 de abril de 2011

De passo a passo segue meu coração


Mais um dia de trabalho acabava para mim. O corpo latejava, embora não mais que a mente.
E eu caminhava, olhando menos os meus e muito mais os passos alheios.
Um sinal verde, pessoas à espera de um vermelho para caminhar. Movimentos repetitivos.
Todos nós sabíamos o que devíamos fazer!
Chegaríamos todos em casa, jogaríamos nossas coisas sobre a cama e, logo em seguida, um banho lavaria o que dava para ser salvo.
Uma pena não ser sempre assim?
Digo avidamente que sim e não.
Do tanto que já nos tiraram e ainda o fazem, uma teimosia vai perdurar em mim, como que óleo grudado ao corpo: o vício de ver/viver o outro.
...
Uma longa espera e eis que meu ônibus chegava. Como de costume, percebia os olhares perdidos, cansados, apaixonados, irritados, idiotas...
Percebia também o que não dava pra deixar passar, a chuva. Esta, ruivava lá fora e punha medo aos que precisavam manter um cabelo bonito, uma roupa nova ou mesmo o corpo longe de um belo resfriado. O fato é que a tal chuva, propositalmente ou não, provocara um balanço anômalo nas pessoas. Somada a uma noite de extrema formosura peculiar, senhora chuva ofertava-lhes um forçoso dançar sobre as calçadas e ruas. Era mesmo um bailado beirando o desconserto. Senhorinhas e belas moças não a recebiam com boa acolhida, era fato.
E lá pelas tantas da viagem fui interrompida por duas crianças inoportunas. Sim, elas teimavam em gostar daquilo. Como podia? Era chuva. Ninguém, exceto eu, poderia gostar mais da dona chuva. Eu não aceitava aquela situação. Me soou tremenda afronta.
Mas aí eles mostraram a que vieram e com as pontinhas dos dedos começaram a desenhar os vidros que a esta hora já estavam embaçados. Dali surgira uma casinha, um nome gustavo e um círculo dentro de outro e mais outro.
Foi o bastante para a minha fúria. Quem suporta a petulância de dois serezimos bebendo a chuva aos goles?! Eles não sabiam com quem estavam se metendo. Chegava o momento de eu descer, agora era minha vez de dar-lhes o troco.
Uns poucos minutos depois de descer eu olhava para o céu. Ele sorria para mim e a dona chuva só me sacaneava (mas eu bem que estava gostando).
Ao contrário dos que se encolhiam, se esgueiravam em busca de refúgio, eu me joguei nela.
E como tava bom...
O corpo suspirava e transpirava liberdade. A estranha provocava olhares de surpresa por onde passava. E daí?!
No final, eu me aproximava de casa; ela já se despedia e eles - aqueles pirralhos lindos - nos aproveitamos muito bem!





*Ainda que a anomalia social busque romper o belo, ainda que pessoas justifiquem barbaridades com o injustificável, ainda sim existirá a vivacidade dos que pouco viveram e nem por isso são menos conhecedores da arte de viver.
Luto pelo simples, pelo ardor de poder sentir!