quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Monólogo de um grito que não foi

Esta história não pertence a ninguém. Nem mesmo ao tempo.
Peço-lhes licença, apenas a tomarei de empréstimo.
Mas não eu um corpo. E sim eu, uma vaga.
Por Rossana Marinho

Sim, uma vaga. Porque o dia raiou, mas no meu peito mora uma noite eterna.

Olho as pessoas no trânsito. A (a)normalidade é sorrateira. Apregoa na vida de uns tantos homens
e mulheres um cenário de ansiedade, reuniões infindáveis, contratos a fechar, mentiras a contar.
Não há susto nisso. Não há.
O que existe é a falta. Mas, de tanto faltar, a mim também foge.
Volto para casa. E o concreto do chão que piso é vagabundo. Ele não assegura o mundo sobre meus pés.
No espelho do banheiro um sinal de pressa. Respingos de pasta de dente...
- Um momento. Pensei numa coisa agora: por que nunca tive um jardim? Putz, a essa hora e eu pensando em porra de jardim.
- Ei, só mais uma coisa: já te passou pela cabeça que essa tua vida pode estar vencida? É, com prazo de validade expirado. 
De novo, não sei porque raios isso me veio à cabeça. Deve ter sido o sol esquentando os miolos o dia todo. Não. Isso é culpa da maldita reciclagem subjetiva. Sim, porque depois de anos usando a mesma xícara, lendo o mesmo jornal e adaptada ao mesmo homem, se se mexe num caquinho sequer a vida (des)anda.  

Se digo que não, perguntam quando.
Se nego deliberadamente, me pedem calma.
Se somente ouço, me gozam com entrosamento irritante.

... Ah, como era mais fácil viver (ou seria passar?!).

O fato é que a vida não é uma peça em cartaz. Nela não cabem ensaios.
Isso é o que eu acho. 
Vocês podem até dizer que sim, eles cabem. Que não só cabem, como são o eixo da boa vivência.

(Mão no queixo. Testa franzida. Um trago.)

(...)

Sabe do que mais, à merda a boa vivência. 
De que adianta destreza de análise quando o que falta é a materialidade do existir?
Comigo a dor só passa sentindo a dor. Depois de tanto senti-la, adormeço e fico em paz.
- Não sei porque me olham assim. O Cristo de vocês sangrou, sofreu. E é venerado até hoje. Por que então tenho que usar ataduras e sorrir?

A vida deve ser muito mais. Até agora não o foi. É fato. Mas o bom de não ser peça ou filme é que não tem final. Nem infeliz, nem feliz. Só é vida.

Peço desculpas se a história não agradou.
Quem sabe amanhã eu os presenteie com uma historinha regada a algodão doce. 


Quem sabe... 









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