segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Mediocridade, dá um tempo!


Já nem faz tanto tempo assim ou faz?
Minha memória rouca insiste.
(...)
A falha é a melhor demonstração das tentativas. Dela podemos resgatar aquele eu que, por muitas vezes, tentou.
(...)
Mas o dia segue cinzento, como que dizendo:
- Não, eu não te quero.
(...)
Pessoas andarilhas passam.
Passeiam e, até mesmo, estacionam.
O trânsito tomou suas vidas, não tem jeito. Estão engarrafadas.
O sinal parece sempre estar vermelho.
Não há espaço para o sossego, a ousadia e a violência do amor (en)carnecido (aquele que, de tão suave, enternece e escarneia).
(...)
Queria eu o vibrar da garganta de um poeta.
Mas não, minhas palavras são usadas.
Fracas.
Com sinônimos.
(...)
O que eu desejo? perguntaria você.
Uma injeção de vida para uma veia bem pulsante.
O rasgar da pele, por pura vontade de ter.
O abuso do sorriso zombeteiro.
O frescor daquele cheiro que senti aos cinco anos, quando a vida era toda minha.
(...)
E eu te pergunto, meu caro.
É nessa merda que planejas teu pranto?
(...)
A mim não serve. Devolvo.
Prefiro suar no tempo onde as pessoas burlam as leis criadas pelas hordas da moralidade fétida.
Junto-me aos ácidos de pensamentos, molhados de sentimentos e vulgares de coração.


sábado, 25 de agosto de 2012

Divagando devagarinho

Cabiam muitos metros naquela estrada. Cabiam-lhe  também o coração apertado e o odor de seus pensamentos. Mas, não mais do que isso, não mais.

A cada 10 passos, uma olhadela para o passado. E mais 10 e outros 10 e outros e outros... a mesma olhada, o mesmo passado.

Há dias caminhava.
Deixara sua cidadezinha (melhor seria dizer que fugira) sem ao menos esperar o sol se espreguiçar.
Não adiantaria. Ela estava decidida.
Juntou todas as coisas de que mais gostava: um chaveiro, o pijama rasgado e aquela foto maltratada pelo tempo.
Abriu a porta de mansinho, não queria acordar ninguém, e firmou os passos sem ao menos dizer adeus.
- Perda de tempo, julgou ela. Não há adeus suficiente sem que antes nos tenha ordenado o coração e nossos pensamentos. Disso ela sabia bem.

Logo que o dia se contrapusesse ao sumiço dela, todos diriam em uníssono:
- Invencionice. Aqui tinha de um tudo. Comia bem. Dormia bem.

...

Ela também não conseguia explicar com a pureza da razão. Somente sentia a falta e sabia que precisava preenchê-la. Mas aquele buraco ia dar trabalho. Pesava-lhe mais do que as 15 moedas que levava no bolso.

Na metade da estrada, resolveu sentar. Já havia caminhado muito e aqueles pensamentos... aqueles pensamentos...
Foi então que olhou ao redor e percebeu que não estava sozinha. Na margem direita havia uma casinha esguichada pelo vento. Sentados na porta estavam três criaturinhas: um velho, uma jovem-velha mulher enganada pelo tempo e um menino, que não tinha mais do que dois anos.

Aquela cena perturbou-lhe o resto do dia. Como podia, tanta tristeza e alegria em tão rasa cena?
A criança transbordava inquietude. Sem contar que girava vacilante por todo tempo em que ela o olhou.

...

Sacudiu a cabeça e ordenou-lhe que voltasse a caminhar.

Depois de vários dias, chegou ao seu destino, o fim da estrada. Mas não contava com aquele menino. Ele não saía-lhe de sua cabeça.
Por um minuto sequer, ela bem sabia. Desejava mesmo era o seu bailado destreinado.





quarta-feira, 21 de março de 2012

A poesia da falta


Não há escárnio na dor
Há somente o esquecimento do amor
Por um minuto sequer
Se se pudesse ter
O prazer daquilo que não purifica a alma
Mas que, de tanto prurido, faz coçar, arder

Sou o ar indigesto da felicidade pueril
Sinto falta da poesia que me falta
Temo a ausência orgânica

O soro que percorre minhas veias não ventila meu peito



domingo, 4 de março de 2012

Cadência sim. Decadência, jamais!

Ó, meu amor, a ti devoto todo meu querer
No riso, na dor, no labor e, ainda mais, no amor
É nos teus braços que desejo me entregar
Num bailado quebrado, atrapalhado e nada ensaiado desejo rodar
Por esse salão tão meu, tão seu 
Que faz da minha vida mais vida 
E que leva junto conosco todos aqueles sorrateiros 
Que, ao menos por uma noite, se deixam levar


A mediocridade nos deixou, por pura birra. 
Teimando em ser burra por não gostar de sambar
E pra ela respondemos: 
- Vá ser burra sozinha, porque queremos mesmo é sambar!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A insensata leveza que deveria ser

Cotidiano maldito esse. Faz de nós meros espectadores de nossas próprias peças. 

(...)

Ana, que amava Paulo, não considerava ter os atributos necessários para conquistá-lo. E ele somente amava os astros, estrelas... a solidão.
Rebeca percorreu milhares de quilômetros para realizar aquela seleção de trabalho para qual tanto se preparou. Mas, tadinha, chegou sete minutos atrasada... o suficiente para que descontroladas lágrimas percorressem seu rosto.
Um ninguém (que já foi alguém) está sentado na frente de uma agência bancária a implorar por moedas aos que lá passam. Uma pedra que sequer causa tropeços.
O sr. Najif Nassuh, dono de grande patrimônio, realiza mais um dia os movimentos rotineiros: pouco trabalha, muito suga e sabe utilizar como ninguém seus direitos de cidadão afortunado.
No mundo animal (aquele definido até certo tempo de irracional) a coisa funciona tal qual a melhor das orquestras. Cada um com seu papel definido, mas com uma afinada interdependência.
Na casa 31 de uma vila esquecida pelos ânimos da modernidade vivem uma senhora e menina astuta.  Ninguém nunca viu as duas juntas passeando na rua. Ora é uma, ora a outra. Sabe, dizem que é pura feitiçaria. Que na verdade as duas são a mesma pessoa. Parece até história de moça donzela que é transformada pela bruxa malvada em cisne.
O fato é que, mentira ou não, as danadas são como água e óleo.
Marcos conseguiu o emprego desejado. E o melhor, segundo o gerente, é sua inexperiência. Assim, a empresa vai poder untá-lo e colocá-lo na forma.

(...)

E, nesse imbróglio todo, as peças seguem. Os atores, no entanto, não sabem sequer para qual papel foram selecionados. Isso pouco importa. A gerência dessa sociedade maluca atenta que para nos tornarmos indivíduos empregáveis precisamos atuar e encarnar todos os papéis.

(...)

Mais um dia caiu. Lá vai ela por entre as nuvens. Um bailado tão adestrado, tão sedutor. Poucos a viram, veem e verão. Tem gente que nunca vai levantar a cabeça para olhar o céu. Isso porque o peso que lhes atravanca ombros, pescoço e todo o resto trepida por descanso. E olhar para o céu exige muita perda de tempo.