quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A insensata leveza que deveria ser

Cotidiano maldito esse. Faz de nós meros espectadores de nossas próprias peças. 

(...)

Ana, que amava Paulo, não considerava ter os atributos necessários para conquistá-lo. E ele somente amava os astros, estrelas... a solidão.
Rebeca percorreu milhares de quilômetros para realizar aquela seleção de trabalho para qual tanto se preparou. Mas, tadinha, chegou sete minutos atrasada... o suficiente para que descontroladas lágrimas percorressem seu rosto.
Um ninguém (que já foi alguém) está sentado na frente de uma agência bancária a implorar por moedas aos que lá passam. Uma pedra que sequer causa tropeços.
O sr. Najif Nassuh, dono de grande patrimônio, realiza mais um dia os movimentos rotineiros: pouco trabalha, muito suga e sabe utilizar como ninguém seus direitos de cidadão afortunado.
No mundo animal (aquele definido até certo tempo de irracional) a coisa funciona tal qual a melhor das orquestras. Cada um com seu papel definido, mas com uma afinada interdependência.
Na casa 31 de uma vila esquecida pelos ânimos da modernidade vivem uma senhora e menina astuta.  Ninguém nunca viu as duas juntas passeando na rua. Ora é uma, ora a outra. Sabe, dizem que é pura feitiçaria. Que na verdade as duas são a mesma pessoa. Parece até história de moça donzela que é transformada pela bruxa malvada em cisne.
O fato é que, mentira ou não, as danadas são como água e óleo.
Marcos conseguiu o emprego desejado. E o melhor, segundo o gerente, é sua inexperiência. Assim, a empresa vai poder untá-lo e colocá-lo na forma.

(...)

E, nesse imbróglio todo, as peças seguem. Os atores, no entanto, não sabem sequer para qual papel foram selecionados. Isso pouco importa. A gerência dessa sociedade maluca atenta que para nos tornarmos indivíduos empregáveis precisamos atuar e encarnar todos os papéis.

(...)

Mais um dia caiu. Lá vai ela por entre as nuvens. Um bailado tão adestrado, tão sedutor. Poucos a viram, veem e verão. Tem gente que nunca vai levantar a cabeça para olhar o céu. Isso porque o peso que lhes atravanca ombros, pescoço e todo o resto trepida por descanso. E olhar para o céu exige muita perda de tempo.

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