Pular para o conteúdo principal

Divagando devagarinho


Cabiam muitos metros naquela estrada. Cabiam-lhe  também o coração apertado e o odor de seus pensamentos. Mas, não mais do que isso, não mais.

A cada 10 passos, uma olhadela para o passado. E mais 10 e outros 10 e outros e outros... a mesma olhada, o mesmo passado.

Há dias caminhava.
Deixara sua cidadezinha (melhor seria dizer que fugira) sem ao menos esperar o sol se espreguiçar.
Não adiantaria. Ela estava decidida.
Juntou todas as coisas de que mais gostava: um chaveiro, o pijama rasgado e aquela foto maltratada pelo tempo.
Abriu a porta de mansinho, não queria acordar ninguém, e firmou os passos sem ao menos dizer adeus.
- Perda de tempo, julgou ela. Não há adeus suficiente sem que antes nos tenha ordenado o coração e nossos pensamentos. Disso ela sabia bem.

Logo que o dia se contrapusesse ao sumiço dela, todos diriam em uníssono:
- Invencionice. Aqui tinha de um tudo. Comia bem. Dormia bem.

...

Ela também não conseguia explicar com a pureza da razão. Somente sentia a falta e sabia que precisava preenchê-la. Mas aquele buraco ia dar trabalho. Pesava-lhe mais do que as 15 moedas que levava no bolso.

Na metade da estrada, resolveu sentar. Já havia caminhado muito e aqueles pensamentos... aqueles pensamentos...
Foi então que olhou ao redor e percebeu que não estava sozinha. Na margem direita havia uma casinha esguichada pelo vento. Sentados na porta estavam três criaturinhas: um velho, uma jovem-velha mulher enganada pelo tempo e um menino, que não tinha mais do que dois anos.

Aquela cena perturbou-lhe o resto do dia. Como podia, tanta tristeza e alegria em tão rasa cena?
A criança transbordava inquietude. Sem contar que girava vacilante por todo tempo em que ela o olhou.

...

Sacudiu a cabeça e ordenou-lhe que voltasse a caminhar.

Depois de vários dias, chegou ao seu destino, o fim da estrada. Mas não contava com aquele menino. Ele não saía-lhe de sua cabeça.
Por um minuto sequer, ela bem sabia. Desejava mesmo era o seu bailado destreinado.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Memória, a paga do tempo

- Eu rasgaria o tempo assim pudesse!
- O tempo não, a lembrança dos que dele lembram.

(...)

Vejo uma rua.
Sessenta e quatro ladrilhos a me apontar que o esgoto ainda fede.

(...)

Baco treme em risos e avisa a Zeus que a composição desta estória está vermelha de seus melhores vinhos.

(...)

Direcionam ao meu front canalhices de toda ordem. E até me fazem crer que a minha história anda atordoada, esquizofrênica.

(...)

E lhes respondo: Sim. Na minha esquizofrenia, ouço vozes de um passado expurgado com sangue, silêncio e dor.

(...)

E a minha história, meu caro, agora acende um cigarro, respira fundo e espera as cortinas se abrirem para o espetáculo recomeçar!



Guerras

Estou agora numa leitura.
Sobre um tempo de guerras e de pessoas costurando dignidades.
Estou agora absorta em mim. O livro já está sobre o colchão e eu em ti.
Não é possível, disse-me o tempo. É urgente, disse-me a memória.
Ela vagou sobre mim. Abriu uma trincheira insólita.

Vejo meu corpo deitado. Estou molhada da lama. E olho para o céu.
Uma vontade dilacerante de te contar por onde andei esses anos.
A razão me pune. Diz pra eu ficar muda e intacta.
A lama continua a umedecer minhas costas e cabelos.
E eu agora só queria te contar cada página desse livro, como nos velhos tempos.
A razão me chama tola. Me deixa de castigo, ali.. com o corpo úmido de lama.
Então me viro. Puxo o lençol e fecho os olhos.
Outro bombardeio.

"Todo amor que houver nessa vida"

Este texto não é para você, leitor algum, leitor qualquer. Também não o é para aquele que o acha que é: alguma coisa, alguma crítica. Aqui cabe muito mais.

São palavras retorcidas de minhas entranhas que só buscam nascer. Mas eu me estremeço, me torço, me encolho. Finjo que durmo. É mais fácil. E na calada da noite uma dor muito forte me toma. Chamo o médico. Ele não vem. O parto é inesperado.  E, por entre as últimas fagulhas da penumbra, eis que me deparo com um leito molhado, suado, de lençóis manchados. Pois é, elas saíram. Não têm meus olhos, nem meu torto nariz. Entretanto, não fogem ao seu destino de joelho. Como todas as outras: berram, exigem atenção e comida. Também, como todas as outras, me enebriam com o cheiro particular, com o macio da pele, com a tranquilidade do melhor dos sonos. E, quando parecem minhas, lançam-se a  fazer companhia a um outro qualquer.