segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O chão que pisamos




Passamos a vida correndo para realizar os tais sonhos que nos qualificam como pessoas exitosas. Eu não sou a exceção. Desde criança meus pais me indicavam o caminho certo a seguir, aquele que me faria dar certo na vida.
Hum... o problema é que só depois, muito depois, eu descobriria que dar certo na vida é muito chato.

(...)

Pois bem, mas aqui estou. E de dívida nova. Melhor dizendo, apartamento novo (ainda que o coitado não seja tão novo assim). E todo cafofo pede uma transformação.

(...)

Um desejo aqui, outro ali e um devaneio no meio e lá estamos nós passeando por um mundo de menos dinheiro e mais tentativas externas de nos padronizar.
É uma sala que tem que ser assim. Um quarto que deve ser pintado com a cor da moda. A cozinha que pede esse ou aquele revestimento.
- Senhora, isso não se usa mais. Agora esse modelo tá com tudo.
Diz pra mim o vendedor da loja.
- Magina, isso não combina com aquele piso.
Responde a mocinha da loja de móveis.
- Ah, não?! Mas eu pensei que a casa fosse para eu morar...

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Sabe, pode até ser apelação minha, mas... não sei... isso tudo me provocou uma vontade danada de saber o que esperamos de um lar. Falta do que fazer? Posso afirmar que não. Se você já passou por essa fase sabe do que estou falando. É bem melhor fazer 1000 abdominais ou ficar ouvindo aquela pessoa irritante te oferecendo o caminho da salvação.

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E foi o que fiz. Pensei.
Em pouco tempo, meu arquivo de memórias fora acionado. Como que num instante, lá estava eu, uma piveta de uns 7 anos. E lembrei como era meu quarto. A cama, meus brinquedos, sapatos. Minha estante de bambu. Tudo, tudinho me veio à mente. Emergiu também o cheiro das coisas. De que lado da cama eu costumava dormir. A tabuada embaixo do travesseiro me lembrava do que não podia esquecer. Lembro da minha mãe dizer:
- Colocou a tabuada junto com você? Ela vai te ajudar a manter as contas vivinhas na cabeça.

(...)

Saí do quarto e fui atraída pelo cheiro bom da carne que assava. Lembro de ter sentido o cheiro das roupas recém estendidas no varal. Era um bailado tão mágico, de cores, tamanhos, tipos de tecidos.

(...)

Agora eu tinha uns 15 anos. Já morávamos em outra casa. Foi uma fase difícil. Mais parecíamos nômades.
Desse tempo tenho poucas lembranças. Apenas o "pé de jambo" bem vermelhinho, uma luminária rosa no quarto e o velho fusca na garagem.

(...)

Minha memória levou-me a outros cômodos, outras casas e outras vivências.
Abri os olhos e achei ter encontrado a resposta para o que me intrigava. Nos filmes que vi depois disso, nas fotos do(a)s amigo(a)s que olhei, nas janelas dos vizinhos que espreitei e, também, nas portas abertas que teimavam em esquecer-se da violência. Em todos eles ali estavam, bem demarcados, os momentos. Os bons e ruins. Nem mais, nem menos, apenas momentos. Espaços de vida de quem teve/tem história para contar/lembrar.
E concluí que a decoração não fazemos nós, mas o tempo. É a demarcação do vivido que preenche os espaços de uma casa. Com cores, cheiros e memórias.