sábado, 28 de agosto de 2010

... e elas continuam abertas, a irrigar todo o sistema

Mais uma vez o capital exala seu odor. Uma TV ligada no jornal noturno e um livro (o autor? fácil imaginar!) aberto sobre a cama do meu quarto. Este foi o cenário. Eis que me deparo com a chamada: chacina no México, 72 pessoas são mortas por narcotraficantes. Em no máximo 3 minutos todos os principais dados foram transmitidos por aquela que se auto-intitula locus da credibilidade jornalística. Durante a semana, os principais jornais divulgavam constantemente “novidades” sobre o massacre. Foi então que senti como se estivesse vivendo um dèjávu. A história se repetia! Com nova roupagem, de fato, mas seu conteúdo... sim, eu tinha razão!
Segundo o embaixador do Brasil no México, Sérgio Florêncio, "Esses conflitos fronteiriços, de mexicanos ou de pessoas de outras nacionalidades, que tentam ingressar nos Estados Unidos, são recorrentes. O que é muito inusitado é um massacre com essas proporções, envolvendo 'nacionais' de tantos países". Ou seja, o fato só quebrou a normalidade das desigualdades habituais porque agora houve um número significativo de pessoas assassinadas de uma só vez. A mídia burguesa enfocava que a chacina ocorreu por conta da ação do narcotráfico mexicano, que, desde 2006, já matou cerca de 28 mil pessoas (o curioso é ver o presidente Felipe Calderón atestar que ocorrências violentas como essa infelizmente fazem parte do programa de combate ao tráfico de drogas no México, iniciado pelo seu governo).
Meu objetivo aqui não é aprofundar o debate sobre as drogas. Mas, chamar a atenção para o que de fundo essa chacina significa. Vivemos numa sociedade onde a relação das prioridades parece invertida, “os países a serviço das mercadorias, os homens a serviço das coisas”. O tráfico nada mais é do que um dos múltiplos meios de onde o sistema capitalista extrai suas riquezas. A alça “ilícita” para atingir fins “lícitos”, movimentar o mercado. Sobre o ocorrido no México, um ponto secundarizado pela mídia é, entretanto, a mola mestra para entender o que motivou aquelas dezenas de pessoas a tentar imigrar para os Estados Unidos. Não era realizar o sonho de ganhar a América, como as visões românticas da história nos fazem crer.

“os operários também têm que compensar a queda do valor de sua força de trabalho”

A fórmula que deu certo não é nova. Já havia sido implementada pelos ingleses no auge do imperialismo mundial, em fins do século XIX. Naquele momento, a grande nação industrial centrava suas forças no domínio do mercado chinês. E para isso serviu-se, dentre outras táticas, da exportação do ópio. Droga bastante consumida pelos miseráveis trabalhadores chineses. Engana-se quem acredita que o interesse inglês era pura e simplesmente no mercado de drogas. O objetivo era forçar a abertura da China ao mundo manufatureiro.
Proporcionar uma guerra tão desastrosa a ponto de enfraquecer e controlar o inimigo por completo. E assim o foi. Derrotada nas ditas “guerras do ópio”, a China “abriu” seus portos. Não somente ao capital inglês, mas também ao norte-americano. E, como não podia deixar de ser, também a sua força de trabalho.
Imagino que uma pergunta possa surgir: por que então todo esse arrodeio? Falar de chacina, drogas, passar pelo imperialismo do século XIX e chegar na mão-de-obra capitalista... verdade, confesso que ultimamente meu poder de abstração tem sido bem considerável. A coragem de escrever - mesmo que superficialmente- sobre tal temática ganhou maior dimensão depois de ler, dias atrás, o posfácio do livro “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano (vou tomar a liberdade para tratá-lo por EG, já que essa com certeza não será a última vez que tocarei no seu nome).
É inegável a delicadeza e, ao mesmo tempo, a sequidão com que EG desliza pelas feridas do sistema capitalista. E como aquelas palavras, escritas em fins de 1970, no auge da ditadura latino-americana, faziam/fazem sentido. Chamou-me atenção especial um trecho que dizia: “Nestas terras, o que assistimos não é a infância selvagem do capitalismo, mas a sua cruenta decrepitude. O subdesenvolvimento não é uma etapa do desenvolvimento. É sua conseqüência. O subdesenvolvimento da América Latina provém do desenvolvimento alheio e continua a eliminá-lo. Impotente por sua função de servidão internacional, moribundo desde que nasceu, o sistema tem pés de barro.”
Diariamente, massas de trabalhadores, dos mais diversos países (não somente os latinos) abrem-se em diáspora para os centros capitalistas. Esses homens, mulheres e crianças são brasileiros, uruguaios, peruanos, guatemaltecos, argentinos, asiáticos... a lista é infindável. Em comum, a necessidade de encontrar lá, o que aqui já é tão escasso: emprego e melhores condições de vida. Eles são o já denominado exército industrial de reserva, os braços dispostos a ofertar ainda maior extração de mais-valia. E é assim que há a drenagem dos lucros das grandes empresas. A concorrência desenfreada dos grandes mercados globais necessita ofertar mercadorias cada vez mais rentáveis: ao consumidor, porque adquire um produto hipoteticamente menos caro; ao burguês, por manter minimamente equalizada suas taxas de lucratividade. Em meio a essa operação está o trabalhador. O único real alvo das oscilações do mercado.
EG escreveu um texto, não mais da obra já citada, que materializa bem essa situação. Chama-se “A partida”:

Esta mulher está indo para o norte. Sabe que pode morrer afogada na travessia do rio, e de tiro, sede ou serpente na travessia do deserto.
Diz adeus aos filhos, querendo dizer até logo.
E indo embora de Oaxaca, ajoelha-se diante da Virgem de Guadalupe, num altarzinho do caminho, e roga o milagre:
- não peço que você me dê nada. Só peço que você me ponha aonde tem.



Chegando ao final do posfácio, mais uma vez Galeano deixou meus olhos marejados. Ele assim encerrou: “O sistema encontra seu paradigma na imutável sociedade das formigas. Por isto se dá mal com a história dos homens: pelo muito que esta muda. E porque, na história dos homens, cada ato de destruição encontra sua resposta – cedo ou tarde – num ato de criação.”




Ojalá!!!!!!!!!!

5 comentários:

  1. fiquei pensando nesse lance do ato de criação... e só consegui pensar na sua postagem como um desses atos...

    (será que pode usar postagem de blog em referência de dissertação?)

    parabéns por mais esse texto!

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  2. ...e a reificação do homem.

    A-D-O-R-E-I...Aliás, todos nós ne?!? eu bem imaginei q sairia um post brilhante dessa mente ai. Admiro-te pela sensibilidade! Parabéns, Rosa!

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  3. texto excelente. alia leveza e profundidade, academia e opinião, possui traços literários. gostei muito. parabens. joao

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  4. gracias, meu careca! vindo de vc é só felicidade, iup! quando eu crescer (em sentido abstrato, óbvio) quero ser iguazin a tu, bjos!

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