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Em relevo

Calma sensação perturbadora de paz.

Faria sentido pra ela? Pensara só por uns instantes.
Os olhos mal abriram e aquilo lá nela.

Vinha a se preparar para a guerra.
Para os dias estranhos que teimavam em permanecer.
Para o caos ordenado.
Para aquela música de um Ipiranga nada plácido.

Mas não para a paz.

Dela até enternecia pensar. Só que não vinha.
Suava.
Custava.
E não vinha.

Havia corrido tanto do ódio que desaprendera sobre amor.
Era possível?
Só agora, abrindo os olhos, percebera.
Que também ela estava em bombardeios.
As costas lhe pesavam a rotina do (des)padrão.

Continuava aguerrida. Ela sabia.
Mas lhe doía buscar todo dia o colorido no cinza.
Esgotado estava seu corpo.
E do espírito não tinha certeza se ainda lhe havia.

Mas era soldada. Repetia todo dia.
Sua mãe foi.
Outras também.

E um NÃO rejeitava o tudo posto.
NÃO.
NÃO podia ser esse seu destino.
Nem o das outras.

Afinal, Deus, elas eram força. Sabiam.
Mas não queriam.

O corpo novamente lembrava daquele peso.

Que ela não sab…

Ecos

Para pensar é preciso desembarulhar.
Volta e meia, me pego assim, lotada de vozes inquilinas.
E me reconheço apátrida de mim.

Fazem tanta zuada elas.
Ouvem músicas de que não gosto e sem fone de ouvidos.

E me assusta. Ele. O silêncio.

No meu medo, também o imagino cheiroso, sorridente. Bom de abraçar e chamar para um café.

Do meu silêncio ainda não sei.
Anteotem até pedi ao mundo para falar mais baixo. Ou até mesmo dormir um pouco.
Não me obedeceu.

Imagina só:
Eu ficaria com a praia vazia e as ondas a chacoalhar.
Haveria uma rua. Um cachorro também.
Sobre um banco, um livro aberto naquela página abandonada há tempos.

E sentaríamos. E conversaríamos. Eu e o silêncio.


Por Natália Freitas

(des)veneno

Extraviada via
Estragada

E o viado
lia

Normas de inconduta

Ia
a contragosto

E de resto o gozo
uma puta raiz anal(isar)

Obedeça

Vá embora se não conseguir lidar com minha chatice
E meus cabelos inequivocamente lindos
Se não souber me abraçar quando eu tentar fazer de você meu ninho
Vá se não entender minha fúria nos dias turvos
Se não conseguir ler a mim, poesia dadaísta
Bata a porta se eu continuar sendo mais do que você suporta

Mude de calçada quando me vir e suas mãos anunciarem seu permanente amor
Desligue seu celular. Ele também sabe pra quem você quer ligar
Jogue fora aquela carta que não te escrevi. Você não a entenderia
Me arranque dos seus sonhos se puder
E esqueça que seu melhor sorriso já fui eu

Não levante hoje buscando meu rosto preguiçoso
Engana-se!
Seu lugar nunca foi dentro de mim

Abandone o desejo daquele filme que veríamos esse sábado
Fique sem graça quando nossos amigos te disserem "vacilão"
Porque é precisamente isso!

Eu daqui farei o mesmo
Já troquei os lençóis e aquela almofada sua de lugar
Uma nova playlist. E novo lugar na cama
E sabe sua camisa preferida? O cachorro mijou
O …

Bem de altitude

Aprendi a voar desde muito cedo.
E, de tempos em tempos, preciso me puxar pelos pés. Por vezes esqueço, e me dano a subir, subir, subir.

Por Natália Freitas

Língua

Mulher, substantivo que bem poderia ser verbo.
Ou advérbio de intensidade. Para ambos, mulher seria signo para dizer sobre aquilo que é vívido, nobre, intenso, exemplo, voraz, doce, sábio, belo. Mulher movimento, mulher ação. Qualidade de ser mulher.
"Mulheriei o dia e ele me mulheriou de volta" "Estudei mulhermente hoje" "Mulheriaram Paris num só gole "
Na próxima reforma linguística, irei pessoalmente reivindicar tal inclusão. Que, de tão digna, vai deixar as aulas de português mais mulher. Poetas terão um novo recurso para materializar em letras a explosão de sentimentos ainda sem título.
Mulheriemos!

Por Natália Freitas




Locatário

Volta.
Você esqueceu de se levar de dentro de mim.

Por Natália Freitas