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Lastro da escrita



Tic-tac. Tic-tac, avisam-nos os relógios todos os dias.
Ao invés disso, eles deveriam dizer: menos um, menos um, menos um.
Menos um de tudo. Do tempo que transpiramos. Da distância de coisas, pessoas e pensamentos.

(...)
Buzinas irritadas, transito infernal. Todos cheiram a formol.
Prédios são erguidos, enquanto outros teimam por desejar o chão.

(...)
Aparelhos eletrônicos nos dizem a hora de levantar, quanto comer, correr, beijar, amar...

(...)
Láááá longe. Em algum lugar dessa vastidão que é o mundo. Existe um eu. Eu que viveu e vive tentando se encaixar. Encontrar aquela casa de árvore feita de madeiras de demolição. Um lugar no mundo. Um estar no mundo e em si.
Estou agora sentada escrevendo e refletindo sobre o que li antes do almoço. Leituras que, espero eu, sirvam para alimentar minhas próximas linhas acadêmicas.
Mas eis que o velho incômodo bate à porta e resmunga:
- É isso que desejas? É isso que te define?

(...)
E sou obrigada a mais uma vez parar para pensar. Isso! Agora mesmo, enquanto escrevo à você.

(...)
Perguntas torpes? Não. Diria, indigestas. E me obrigam a filosofar por dentro da minha vulgar existência.
Paira sobre meus pensamentos uma nuvem e dela caem símbolos, categorias, padrões. São minutos olhando para o alto. Só vendo aquelas lógicas palavras, e lógicas, lógicas...

(...)
Acho que estou chegando ao final de tantos questionamentos de ordem individual. Concluo apenas que, embora me preparando para retornar à vida acadêmica, cada vez mais meu mundo é o das palavras, da inscrição de histórias de comuns, da tecitura de ideias. Mas ideias elaboradas pelo meu estar no mundo. Sem imposição ou regras.

(...)
Definitivamente, o meu estar no mundo é o estar do que sou quando escrevo.


Por Natália Freitas

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