Pular para o conteúdo principal

De passo a passo segue meu coração


Mais um dia de trabalho acabava para mim. O corpo latejava, embora não mais que a mente.
E eu caminhava, olhando menos os meus e muito mais os passos alheios.
Um sinal verde, pessoas à espera de um vermelho para caminhar. Movimentos repetitivos.
Todos nós sabíamos o que devíamos fazer!
Chegaríamos todos em casa, jogaríamos nossas coisas sobre a cama e, logo em seguida, um banho lavaria o que dava para ser salvo.
Uma pena não ser sempre assim?
Digo avidamente que sim e não.
Do tanto que já nos tiraram e ainda o fazem, uma teimosia vai perdurar em mim, como que óleo grudado ao corpo: o vício de ver/viver o outro.
...
Uma longa espera e eis que meu ônibus chegava. Como de costume, percebia os olhares perdidos, cansados, apaixonados, irritados, idiotas...
Percebia também o que não dava pra deixar passar, a chuva. Esta, ruivava lá fora e punha medo aos que precisavam manter um cabelo bonito, uma roupa nova ou mesmo o corpo longe de um belo resfriado. O fato é que a tal chuva, propositalmente ou não, provocara um balanço anômalo nas pessoas. Somada a uma noite de extrema formosura peculiar, senhora chuva ofertava-lhes um forçoso dançar sobre as calçadas e ruas. Era mesmo um bailado beirando o desconserto. Senhorinhas e belas moças não a recebiam com boa acolhida, era fato.
E lá pelas tantas da viagem fui interrompida por duas crianças inoportunas. Sim, elas teimavam em gostar daquilo. Como podia? Era chuva. Ninguém, exceto eu, poderia gostar mais da dona chuva. Eu não aceitava aquela situação. Me soou tremenda afronta.
Mas aí eles mostraram a que vieram e com as pontinhas dos dedos começaram a desenhar os vidros que a esta hora já estavam embaçados. Dali surgira uma casinha, um nome gustavo e um círculo dentro de outro e mais outro.
Foi o bastante para a minha fúria. Quem suporta a petulância de dois serezimos bebendo a chuva aos goles?! Eles não sabiam com quem estavam se metendo. Chegava o momento de eu descer, agora era minha vez de dar-lhes o troco.
Uns poucos minutos depois de descer eu olhava para o céu. Ele sorria para mim e a dona chuva só me sacaneava (mas eu bem que estava gostando).
Ao contrário dos que se encolhiam, se esgueiravam em busca de refúgio, eu me joguei nela.
E como tava bom...
O corpo suspirava e transpirava liberdade. A estranha provocava olhares de surpresa por onde passava. E daí?!
No final, eu me aproximava de casa; ela já se despedia e eles - aqueles pirralhos lindos - nos aproveitamos muito bem!





*Ainda que a anomalia social busque romper o belo, ainda que pessoas justifiquem barbaridades com o injustificável, ainda sim existirá a vivacidade dos que pouco viveram e nem por isso são menos conhecedores da arte de viver.
Luto pelo simples, pelo ardor de poder sentir!


Por Natália Freitas

Comentários

  1. pow, sou super fã dos seus escritos, brother!

    ResponderExcluir
  2. foi rossana quem escreveu o post acima. é mó difícil postar comment aqui, velho

    ResponderExcluir
  3. Às vezes, sou gotas pra lhe fazer carinho depois de mais um dia de trabalho. Zeca.

    ResponderExcluir
  4. este soou o mais poético de todos. isso não pode ser apenas um texto. isso é uma fotografia, um filme, um documentário, uma pintura, ou qualquer coisa que conseguiu capturar a beleza. eita porra! babei no teclado do PC. brincadeira. muito bom.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Memória, a paga do tempo

- Eu rasgaria o tempo assim pudesse!
- O tempo não, a lembrança dos que dele lembram.

(...)

Vejo uma rua.
Sessenta e quatro ladrilhos a me apontar que o esgoto ainda fede.

(...)

Baco treme em risos e avisa a Zeus que a composição desta estória está vermelha de seus melhores vinhos.

(...)

Direcionam ao meu front canalhices de toda ordem. E até me fazem crer que a minha história anda atordoada, esquizofrênica.

(...)

E lhes respondo: Sim. Na minha esquizofrenia, ouço vozes de um passado expurgado com sangue, silêncio e dor.

(...)

E a minha história, meu caro, agora acende um cigarro, respira fundo e espera as cortinas se abrirem para o espetáculo recomeçar!


Por Natália Freitas



Cabrita solta

Há tantas elas em mim Negras há Indígenas também Há tantas elas em mim Amasiadas Largadas Amadoras Rasgadas Sabedoras Há tantas elas em mim E por todo lugar que passo Uma delas tá ali Em dia de sol danado Solta o aço dos dentes Há tantas elas em mim Passeia molhada e descalça De ventre esguio e cabelos maremotos Há tantas elas em mim Saiu sozinha na madrugada Quebrou regras, vielas Ergueu o copo limpo questionável Brindou à morte, aos orixás, à vida Kalunga Há tantas elas em mim E não há nenhuma Que detenha Explique Defina Nesse mundo todo Quem delas mais assobia: Muié, eu to aqui


Por Natália Freitas

Um risco

há um encanto em suas linhas
um punho que apruma e ruma ao novo
giro e mais giro. e outro giro. tu te mostras
extrapola os teus círculos. posso sentir
caligrafia obedecida
voz empostada
sobraram as brechas
preenchidas pelas deformidades
avulsas
incoerentes
tangentes
de um mesmo caminho solitário
que une a todas nós
somos letra pra fazer poema
somos alfabeto pra fazer revolução

Por Natália Freitas