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Peregrinos de Passárgada


Abriu os olhos, tentou esticar os braços no máximo que seu peregrino corpo lhe permitisse só para beber mais uma manhã angélica. O sol lhe ardia nas juntas. Os pássaros lhe zombavam por sobre um canto tão bem ensaiado. No chão, o velho e companheiro chinelo ao molde alpargatas estava, como de costume, a postos esperando a ordem do dono para trepidar naquele andar que não mais invejava a mais lerda das lesmas escorregadias. 

Milhares de quilômetros distantes do seu leito o separavam dela. Nunca se viram e ao menos sentiram o cheiro um do outro. A brisa não os presenteou com a valsa porosa e galanteadora dos que amam. Nunca trocaram cartas dóceis e outras nem tanto assim. Nunca tiveram um filho, sequer, e a esse não puderam chamar de Amarantes. As dívidas hipotecárias nunca foram um comum; também não se embriagaram com os gozos consecutivos, daqueles que só têm os que permitem o furdunço dos lençóis revirados e molhados de suor somados aos vapores saídos das bocas, tarefa para bons vadios. 

E, ainda sim, a senhorinha Anita também repetia os mesmos movimentos matutinos do cascudo seu Juca.

Assim como ele, costumava tomar um breve café com torradas e queijo. Não ultrapassando às 7h da matina, pois ficar mais tarde no ócio era insulto. 

Aos dois ocorria mais uma semelhança, brigavam com as horas por pura teimosia de andarem pra frente. Cada um ao seu modo, ambos reviravam na memória o que dela ainda não fora retirado pelo tempo. E sobravam-lhes boas e más lembranças. Do tempo em que se fazia guerra com o argumento de que era pra guerrear e não civilizar. Do tempo em que dona Anita e seu Juca passavam anos nutrindo amor e celibato a um certo outr@ que só se via por cartas fugidias.

Tempo bom era aquele, pensam os dois. Tempo em que as tardes eram mais alaranjadas e os doces das frutas caídas no quintal apeteciam o corpo e o espírito. Tempo em que se fazer significar por simples dança de mil regras de obediência transformava os impeditivos em meros toscos aos amores que eram mais amores.

E, assim como nasceu, o sol se despedia em mais um dia comum. Muito menos comum o era, no entanto, para esses dois teimosos, que mais um dia se rebelaram à morte em vida. 

Isso, apenas pela teimosia de lembrar e a querer fazê-lo, porque aprenderam que só assim continuarão rasurando a lista dos que têm que estrear no céu.

Comentários

  1. Bárbara Zeferino29 de junho de 2011 11:27

    Nossa tão intenso quanto o tempo dos dois personagens. Parabéns.

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  2. Bárbara Zeferino29 de junho de 2011 11:29

    Tão belo quanto a fotografia.

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  3. era pra ser poesia. mas por insistência da vida ficou prosa. um dedo de prosa do tempo, fragmento de hora, instante de beleza em centenas de bytes.

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  4. Intenso descreve bem o que li.

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