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A poesia da falta

Não há escárnio na dor Há somente o esquecimento do amor Por um minuto sequer Se se pudesse ter O prazer daquilo que não purifica a alma Mas que, de tanto prurido, faz coçar, arder Sou o ar indigesto da felicidade pueril Sinto falta da poesia que me falta Temo a ausência orgânica O soro que percorre minhas veias não ventila meu peito Por Natália Freitas

Cadência sim. Decadência, jamais!

Ó, meu amor, a ti devoto todo meu querer No riso, na dor, no labor e, ainda mais, no amor É nos teus braços que desejo me entregar Num bailado quebrado, atrapalhado e nada ensaiado desejo rodar Por esse salão tão meu, tão seu  Que faz da minha vida mais vida  E que leva junto conosco todos aqueles sorrateiros  Que, ao menos por uma noite, se deixam levar A mediocridade nos deixou, por pura birra.  Teimando em ser burra por não gostar de sambar E pra ela respondemos:  - Vá ser burra sozinha, porque queremos mesmo é sambar! Por Natália Freitas

A insensata leveza que deveria ser

Cotidiano maldito esse. Faz de nós meros espectadores de nossas próprias peças.  (...) Ana, que amava Paulo, não considerava ter os atributos necessários para conquistá-lo. E ele somente amava os astros, estrelas... a solidão. Rebeca percorreu milhares de quilômetros para realizar aquela seleção de trabalho para qual tanto se preparou. Mas, tadinha, chegou sete minutos atrasada... o suficiente para que descontroladas lágrimas percorressem seu rosto. Um ninguém (que já foi alguém) está sentado na frente de uma agência bancária a implorar por moedas aos que lá passam. Uma pedra que nem causa tropeços. O sr. Najif Nassuh, dono de grande patrimônio, realiza mais um dia os movimentos rotineiros: pouco trabalha, muito suga e sabe utilizar como ninguém seus direitos de cidadão afortunado. No mundo animal (aquele definido até certo tempo de irracional) a coisa funciona tal qual a melhor das orquestras. Cada um com seu papel definido, mas com uma afinada i...

Monólogo de um grito que não foi

Esta história não pertence a ninguém. Nem mesmo ao tempo. Peço-lhes licença, apenas a tomarei de empréstimo. Mas não eu um corpo. E sim eu, uma vaga. Sim, uma vaga. Porque o dia raiou, mas no meu peito mora uma noite eterna. Olho as pessoas no trânsito. A (a)normalidade é sorrateira. Apregoa na vida de uns tantos homens e mulheres um cenário de ansiedade, reuniões infindáveis, contratos a fechar, mentiras a contar. Não há susto nisso. Não há. O que existe é a falta. Mas, de tanto faltar, a mim também foge. Volto para casa. E o concreto do chão que piso é vagabundo. Ele não assegura o mundo sobre meus pés. No espelho do banheiro um sinal de pressa. Respingos de pasta de dente... - Um momento. Pensei numa coisa agora: por que nunca tive um jardim? Putz, a essa hora e eu pensando em porra de jardim. - Ei, só mais uma coisa: já te passou pela cabeça que essa tua vida pode estar vencida? É, com prazo de validade expirado.  De ...

Entre palavras

Era fim de tarde quando duas palavras se encontraram num parque. O acaso as levara ali. Tudo parecia muito bem. Muitas crianças se faziam presentes. Brincavam de um tudo e desatavam a chorar toda vez que uma mãe aparecia para acabar com a festa. O dia também fazia sua parte, estava bonito que só ele. O encontro das palavras foi muito mais um esbarrão. Uma delas caminhava pelo parque como se buscasse algo. Mas o que era, nem ela sabia. A outra palavra avistara a amiga de longe e, primorosa que estava, correu para tecer o cumprimento. Falou-lhe do quanto havia viajado desde a última vez que se viram. Disse que fora personagem principal de um grande romance; que dera rima a um dantesco poema; que fizera isso e aquilo... Contou à palavra 1 dos tantos projetos que a tomariam nos próximos meses. E falou tanto que nem se apercebeu que as suas palavras fizeram eco no imenso vazio que tomava o peito de sua amiga. E não parou por um segundo sequer. Afinal, havia tanto tempo...

O que se faz com a educação parte I – tornar-se professor

Quando criança ouvia minha mãe dizer que escola era lugar de quem queria "estudar pra virar gente".  De lá pra cá muitos anos se passaram. Muita coisa mudou na minha vida, exceto o tamanho. Mas isso é outra história. Eu mudei de estado, abandonei a ideia de ser jornalista e de realizar o sonho da minha mãe de me ver dizendo boa noite em horário nacional. Desculpa, mãe, eu tentei! Uma coisa, no entanto, não mudava. Eu continuava estudando. Não sei se mais, se menos. Com mais desprezo aos tradicionalismos dos livros, isso sim. Talvez por esse motivo eu tenha escolhido estudar História. Bem isso, "estudar" história e, não, "fazer" história, porque ao momento tudo que eu via me fazia crer na impossibilidade do indivíduo ser um agente histórico. Não sei se me entendem. Não falo de uma história qualquer, onde somos meros assimiladores culturais. Refiro-me àquela onde homens e mulheres conseguem pintar o cotidia...

"Todo amor que houver nessa vida"

Este texto não é para você, leitor algum, leitor qualquer. Também não o é para aquele que o acha que é: alguma coisa, alguma crítica. Aqui cabe muito mais. São palavras retorcidas de minhas entranhas que só buscam nascer. Mas eu me estremeço, me torço, me encolho. Finjo que durmo. É mais fácil. E na calada da noite uma dor muito forte me toma. Chamo o médico. Ele não vem. O parto é inesperado.  E, por entre as últimas fagulhas da penumbra, eis que me deparo com um leito molhado, suado, de lençóis manchados. Pois é, elas saíram. Não têm meus olhos, nem meu torto nariz. Entretanto, não fogem ao seu destino de joelho. Como todas as outras: berram, exigem atenção e comida. Também, como todas as outras, me enebriam com o cheiro particular, com o macio da pele, com a tranquilidade do melhor dos sonos. E, quando parecem minhas, lançam-se a  fazer companhia a um outro qualquer. Por Natália Freitas ...