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Meia volta a menos nos ponteiros?

Era um dia de um mês qualquer. Em meio a obrigações mil, resolvera presentear seu pai com uma breve visita. Daquelas que só os médicos sabem fazer: uma tosse, um diagnóstico, um remédio para aliviar a dor...
Há muito que a vida trabalhava em seus dias, mais parecendo um vento confuso - ora revolto, ora levinho. E das muitas bordejadas que deu, uma lição tirou: nem tudo que é muito ruim nos assombrava infinitamente. Da mesma forma que os bons bocados dessa vida nos escapavam pelos dedos de uma forma ou outra. 

(...)

O sol já se despedia, com um lindo multicolorido sobre as casas confusas daquele bairro. Ela, como de costume muito apressada, se levantava do sofá quando seu pai, um velhinho cheio de rabugices, começou a fitá-la (ainda que sob o véu de olhos que não mais funcionavam como antes) seguidamente. 
- O que foi? por que me olha? estou suja? Sabatinou ela.
- Minha filha, sabe aqueles dias em que acordamos mas temos uma preguiça danada de levantar? pois bem, tem acontecido comigo. O curioso é que nesse breve momento eu tenho tido lampejos de coisas que foram. Um dia desses, por exemplo, lembrei de quando você era pirrota. Quando eu acordava, já estava você toda "emacacada" vestida de xuxa...

Um silêncio quente se fez e era daqueles bem ácidos.

De repente, o velhinho quebrou aquele barulho irritante:
- Os momentos passam, não é?!... mas não deveriam.

Outro silêncio ensurdecedor pairou. Só que dessa vez nenhum dos dois tinham uma boa piada para contar.


Por Natália Freitas

Comentários

  1. E eu que nunca chorei, me vi com os olhos cheios... conhecendo tudo, tudo se torna ainda mais doloroso. verdade, os momentos passam.

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