quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Lastro da escrita

Cena do filme "Histórias que só existem quando lembradas"


Tic-tac. Tic-tac, avisam-nos os relógios todos os dias.
Ao invés disso, eles deveriam dizer: menos um, menos um, menos um.
Menos um de tudo. Do tempo que transpiramos. Da distância de coisas, pessoas e pensamentos.

(...)
Buzinas irritadas, transito infernal. Todos cheiram a formol.
Prédios são erguidos, enquanto outros teimam por desejar o chão.

(...)
Aparelhos eletrônicos nos dizem a hora de levantar, quanto comer, correr, beijar, amar...

(...)
Láááá longe. Em algum lugar dessa vastidão que é o mundo. Existe um eu. Eu que viveu e vive tentando se encaixar. Encontrar aquela casa de árvore feita de madeiras de demolição. Um lugar no mundo. Um estar no mundo e em si.
Estou agora sentada escrevendo e refletindo sobre o que li antes do almoço. Leituras que, espero eu, sirvam para alimentar minhas próximas linhas acadêmicas.
Mas eis que o velho incômodo bate à porta e resmunga:
- É isso que desejas? É isso que te define?

(...)
E sou obrigada a mais uma vez parar para pensar. Isso! Agora mesmo, enquanto escrevo à você.

(...)
Perguntas torpes? Não. Diria, indigestas. E me obrigam a filosofar por dentro da minha vulgar existência.
Paira sobre meus pensamentos uma nuvem e dela caem símbolos, categorias, padrões. São minutos olhando para o alto. Só vendo aquelas lógicas palavras, e lógicas, lógicas...

(...)
Acho que estou chegando ao final de tantos questionamentos de ordem individual. Concluo apenas que, embora me preparando para retornar à vida acadêmica, cada vez mais meu mundo é o das palavras, da inscrição de histórias de comuns, da tecitura de ideias. Mas ideias elaboradas pelo meu estar no mundo. Sem imposição ou regras.

(...)
Definitivamente, o meu estar no mundo é o estar do que sou quando escrevo.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Folha que cai, resquícios de um tempo


Não adiantava.
Poderia tentar se segurar mais uma vez, mas não adiantava.
O vento soprava-lhe o peito com tanta força que ela percebera.
Era chegada a hora.
Nos seus anos de folha, todos haviam lhe contado que o fim seria esse. 
Um galho seco. Um elo desfeito. E um voo para o chão.
E lá se foi ela.
Bailando pra lá e pra cá.
Pra lá e pra cá...
Mas o que ninguém contara era o percurso.
Lá ia ela, uma folhinha atrevida tentando voar diferente, ainda que às folhas, em seu fim, só coubessem o aceite de cair, murchar, secar e sumir.
Por um instante ela jurara sentir que um lindo bailarino tomara-lhe os braços para uma última dança.
Aceitou sem pestanejar e lá se foi.
A plateia se fazia presente. O sol brilhava como nunca e olhá-lo ao cair era ainda mais ofuscante. Mais parecia que seus raios a abraçavam para proteger-lhe da futura queda.
Foi então que ela pois-se a relembrar.
Das brincadeiras com as outras folhinhas quando criança; Daqueles frutos pesados que mais pareciam quererem levá-las mais cedo ao chão.
E lembrara que as folhas adultas diziam que uma folha cai porque não mais trabalha com eficiência. Apresenta manchas e não embeleza.
Foi então que decidiu: 
- Cairei de pé. 
- Fui obrigada a filtrar o ar indigesto de Guerras, Ditaduras e Democracias descaradas.
- Ajudei a fazer sombra para desabrigados e casais apaixonados que por lá se encostavam.


E ela continuava a sentir sua queda, mais e mais. E via todos aqueles que a olhavam...
Fora fustigada por uma pergunta inquietante: o que sobra a uma sobra como ela?
(...)
(...)
Seu corpo só caííía. 
Pensa. Pensa. Pensa. Rápido!
Fechou os olhos. Agarrou o abraço do sol e aceitou aquela dança.
Faltavam-lhe poucos segundos. 
Já podia sentir o frio do chão.
Foi então que avistou uma senhorinha sentada no banco daquela antiga praça.
Ela lia um livro surrado. De folhas amareladas.
E elas se olharam.
(...)
Antes que a folhinha encontrasse a resposta, acabara repousando sobre o livro.
E como aquelas palavras lhe faziam bem...
(...)
A velhinha enxugou a folha.
Sentiu seu cheiro.
(...)
Já eram 17 horas.
Interrompeu a leitura de uma das centenas de cartas escritas pelo seu marido, morto há trinta anos.
E lá a folhinha ficou.
(...)
Sobrando àquelas duas velhas apenas um doce sentimento de amor.






sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Voz rouca

Fogos, ardor, clamor: defesa interna já!
Psiiiu! ouça, eles riem, ouve-se ao longe
Outros nem isso
Calam-se as greves e as Ligas
Também seus filhos, homens de construção
A juventude insiste, resiste... é abatida
Vermelho, de luta, de sangue
Mudar
Apagar
Silenciar
Forjar
Omitir
Cegar
Verbos do sim e do sim senhor
Pais mutilados, mulheres estupradas e também as leis
Crianças órfãs... de um passado, de um presente e de colo
Muitos a errar, errar por não querer calar, aceitar, exilar

... numa sala qualquer do  DOI-CODI cai mais um "subversivo"
Em casa, uma mãe tira o bolo do forno, prepara o café e espera a chegada do seu.


Helena de trinta



Na lira dos seus 10 anos o que Helena mais desejava era ter 15. Balbuciava para si mesma todas as façanhas que realizaria quando esse dia chegasse.
E ele chegou. Mas a inquietude dos ventos levou seus melhores carnavais.
Ainda sim, não deixou por menos. Viajou, fez amigos, brigou, chorou, sorriu e amou (e como amou).
(...)
Não bastava. Sentia-lhe no peito um descompasso incômodo. Era uma estranha a si mesma.
(...)
Diariamente, empossava-se em belos trajes e ia trabalhar. Executava iguais movimentos para dias diferentes.
Pesava-lhe a falta.
(...)
Dos livros que leu, dos vinhos que bebeu e, de tudo que escrevera, a falta era presente.
Sim, um bocado de falta para um bocado de muito.
(...)
Tornou-se habitual em seus ponteiros o observar do movimento alheio. Era-lhe uma missão descobrir o que a ela faltava.
Em anos seguidos acumulou grande pesquisa. Sabia por A + B o que incomodava aquela vizinha ranzinza. Aprendera, inclusive, a prever as frases feitas que ecoavam da boca dos mais próximos. Porém, a falta continuava se esgueirando pela história.
(...)
Um dia Helena sonhou.
Sonhou que via duas crianças sentadas embaixo de uma árvore. E que elas riscavam o chão com um galho ao mesmo tempo em que conversavam.
O sonho era dela, mas, as criaturinhas, de tão petulantes, só permitiram à Helena ouvir suas risadas e os cochichos astutos.
Pela primeira vez, Helena sentia que era tamanhamente impossível identificar os reais interesses daqueles seres menores.
(...)
Um vento forte sacudira a janela e Helena fora arrancada daquele sonho feliz, que, de tão feliz, mais parecia zombaria.
(...)
Repetira, mais uma vez, aquele movimento de vestir roupas e frases.
(...)
Era só mais um dia de trabalho e de pessoas? Ao que parece, não. Não decifrar o desejo daquelas crianças lhe forçava uma pausa para o café. Aproximou-se de uma janela que ficava no 12º andar de onde trabalhava.
(...)
Transitavam, lá embaixo, muitos automóveis e pessoas. Aqueles bonequinhos caminhavam muito rápido. A ligeireza das caminhadas provocava em Helena a vontade de olhar e olhar. Afinal, eram tantas cores. E como eles dançavam...
Soprava o café. Puxava um trago de seu cigarro e, de repente, BUUM. Helena era só pensamentos.
(...)
Melhor do que o homem aranha, Helena começou a voar entre os prédios. Vira um homem de calças abaixadas atrás de uma árvore fazendo o que bem todos sabem: o número 2. Mais à frente, dois homens velhos discutiam política sentados no banco da praça. Uma menininha de cabelos longos e cacheados lhe sorriu. Eram todos castanhos claros, olhos e cabelos.
A menina estava com a mãe, mas esta não percebeu o sobrevoo de Helena. Uma piscadela de olhos entre as duas. A piveta vestia um vestido vermelho, sapatos lustrados pretos e meias brancas com babados. Ah, também um laço vermelho fazia parte daquela composição. Mas uma coisa Helena não podia deixar de ver. A criança escondia nos bolsos (e como estavam cheios!) aquelas bolinhas de vidro, típicas de jogos de meninos.
(...)
E Helena passou. E o que viu causou-lhe grande incômodo. A composição do cenário era torto. Ali havia aqueles que compravam, mas também os que eram comprados. As enormes chaminés das fábricas cuspiam uma fumaça pesada. Levava consigo os melhores anos de muitos dos que ali laboravam.
(...)
- Helena? Helena? Tá surda? Não acha que essa pausa está longa? Volte ao trabalho!
(...)
BEI! BUF!
Por um estante, Helena teve a certeza de que fora puxada pelos pés. O tombo foi forte. E como doeu. Olhou para ver se os cotovelos estavam arranhados. Limpou o vestido. Aquela seda vermelha tinha-lhe custado 2 meses de economias.





segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O chão que pisamos




Passamos a vida correndo para realizar os tais sonhos que nos qualificam como pessoas exitosas. Eu não sou a exceção. Desde criança meus pais me indicavam o caminho certo a seguir, aquele que me faria dar certo na vida.
Hum... o problema é que só depois, muito depois, eu descobriria que dar certo na vida é muito chato.

(...)

Pois bem, mas aqui estou. E de dívida nova. Melhor dizendo, apartamento novo (ainda que o coitado não seja tão novo assim). E todo cafofo pede uma transformação.

(...)

Um desejo aqui, outro ali e um devaneio no meio e lá estamos nós passeando por um mundo de menos dinheiro e mais tentativas externas de nos padronizar.
É uma sala que tem que ser assim. Um quarto que deve ser pintado com a cor da moda. A cozinha que pede esse ou aquele revestimento.
- Senhora, isso não se usa mais. Agora esse modelo tá com tudo.
Diz pra mim o vendedor da loja.
- Magina, isso não combina com aquele piso.
Responde a mocinha da loja de móveis.
- Ah, não?! Mas eu pensei que a casa fosse para eu morar...

(...)

Sabe, pode até ser apelação minha, mas... não sei... isso tudo me provocou uma vontade danada de saber o que esperamos de um lar. Falta do que fazer? Posso afirmar que não. Se você já passou por essa fase sabe do que estou falando. É bem melhor fazer 1000 abdominais ou ficar ouvindo aquela pessoa irritante te oferecendo o caminho da salvação.

(...)

E foi o que fiz. Pensei.
Em pouco tempo, meu arquivo de memórias fora acionado. Como que num instante, lá estava eu, uma piveta de uns 7 anos. E lembrei como era meu quarto. A cama, meus brinquedos, sapatos. Minha estante de bambu. Tudo, tudinho me veio à mente. Emergiu também o cheiro das coisas. De que lado da cama eu costumava dormir. A tabuada embaixo do travesseiro me lembrava do que não podia esquecer. Lembro da minha mãe dizer:
- Colocou a tabuada junto com você? Ela vai te ajudar a manter as contas vivinhas na cabeça.

(...)

Saí do quarto e fui atraída pelo cheiro bom da carne que assava. Lembro de ter sentido o cheiro das roupas recém estendidas no varal. Era um bailado tão mágico, de cores, tamanhos, tipos de tecidos.

(...)

Agora eu tinha uns 15 anos. Já morávamos em outra casa. Foi uma fase difícil. Mais parecíamos nômades.
Desse tempo tenho poucas lembranças. Apenas o "pé de jambo" bem vermelhinho, uma luminária rosa no quarto e o velho fusca na garagem.

(...)

Minha memória levou-me a outros cômodos, outras casas e outras vivências.
Abri os olhos e achei ter encontrado a resposta para o que me intrigava. Nos filmes que vi depois disso, nas fotos do(a)s amigo(a)s que olhei, nas janelas dos vizinhos que espreitei e, também, nas portas abertas que teimavam em esquecer-se da violência. Em todos eles ali estavam, bem demarcados, os momentos. Os bons e ruins. Nem mais, nem menos, apenas momentos. Espaços de vida de quem teve/tem história para contar/lembrar.
E concluí que a decoração não fazemos nós, mas o tempo. É a demarcação do vivido que preenche os espaços de uma casa. Com cores, cheiros e memórias.






sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A alma da casca


Muito fácil seria se todo poema terminasse em rima perfeita.
Daquela de afagar o peito por puro conceito.
Mas não.
Poema que se preze corta por intenção.
É a procura de alma para um corpo vazio.
É o sorriso rasgado daquele que esqueceu a viela da felicidade.
Bem longe do bailado parnasiano,
dois quartetos e dois tercetos.
(...)
Poe(mar).
Para além, do quê?
Do verso.
Transpondo o inverso.
Do que te parte, te seca, te esconde sob os lençóis.
(...)
O corpo pede a exatidão das linhas curvas.
O preenchimento daquele "enter" por um entre.
(...)
Sente-se o naufragar dos pensamentos rotos.
Poesia é o vômito dos ébrios da razão metrificada.
É o desconserto do acerto.
Racha a casca.
Arde.
E nos torna mais humanos.