Pular para o conteúdo principal

Quando chuva



Quando chuva eu era criança. A gente saía da escola correndo e chegava em casa parecendo pintinhos.
A mãe nos dizia, tira essa roupa molhada que é pra não adoecer!
Quando chuva a gente obedecia melhor a mãe porque tudo ficava mais lento e dava até vontade de obedecer. Aquele friozinho esquentava ainda mais o coração.
Quando chuva ela gritava da cozinha, venham comer, a comida tá na mesa!
Mas, quando chuva, a luz também ficava preguiçosa e ia embora. Era quando a mãe enchia a casa de velas e tudo ficava melhor. Os trovões davam medo, mas a mãe tava lá e nada podia nos acontecer.
O telhado mostrava sua gastidão. Aquele monte de buraco fazia a casa ficar toda ornamentada. Era um tal de balde aqui, bacia ali...
Quando chuva até o almoço ficava mais gostoso. Aquele cheirinho de terra molhada acariciava a pouca carne da penela. Mas não tinha problema, no fundo no fundo, a gente queria mesmo era o momento.
Éramos nós três. Eu, o irmão menor e a mãe.
Quando chuva depois do almoço a gente dormia, e como era bom aquele sono...
Quando chuva a gente acordava preguiçoso, pulava pro sofá coçando os olhos e ia ver o filme da tarde.
Depois disso tudo, a chuva dava adeus e a mãe gritava, vá comprar o pão e leve seu irmão!
Quando chuva a vida se apresentava quente: de amor e de preguiça.


Por Natália Freitas

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Memória, a paga do tempo

- Eu rasgaria o tempo assim pudesse!
- O tempo não, a lembrança dos que dele lembram.

(...)

Vejo uma rua.
Sessenta e quatro ladrilhos a me apontar que o esgoto ainda fede.

(...)

Baco treme em risos e avisa a Zeus que a composição desta estória está vermelha de seus melhores vinhos.

(...)

Direcionam ao meu front canalhices de toda ordem. E até me fazem crer que a minha história anda atordoada, esquizofrênica.

(...)

E lhes respondo: Sim. Na minha esquizofrenia, ouço vozes de um passado expurgado com sangue, silêncio e dor.

(...)

E a minha história, meu caro, agora acende um cigarro, respira fundo e espera as cortinas se abrirem para o espetáculo recomeçar!


Por Natália Freitas



Cabrita solta

Há tantas elas em mim Negras há Indígenas também Há tantas elas em mim Amasiadas Largadas Amadoras Rasgadas Sabedoras Há tantas elas em mim E por todo lugar que passo Uma delas tá ali Em dia de sol danado Solta o aço dos dentes Há tantas elas em mim Passeia molhada e descalça De ventre esguio e cabelos maremotos Há tantas elas em mim Saiu sozinha na madrugada Quebrou regras, vielas Ergueu o copo limpo questionável Brindou à morte, aos orixás, à vida Kalunga Há tantas elas em mim E não há nenhuma Que detenha Explique Defina Nesse mundo todo Quem delas mais assobia: Muié, eu to aqui


Por Natália Freitas

Um risco

há um encanto em suas linhas
um punho que apruma e ruma ao novo
giro e mais giro. e outro giro. tu te mostras
extrapola os teus círculos. posso sentir
caligrafia obedecida
voz empostada
sobraram as brechas
preenchidas pelas deformidades
avulsas
incoerentes
tangentes
de um mesmo caminho solitário
que une a todas nós
somos letra pra fazer poema
somos alfabeto pra fazer revolução

Por Natália Freitas