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Meia volta a menos nos ponteiros?

Era um dia de um mês qualquer. Em meio a obrigações mil, resolvera presentear seu pai com uma breve visita. Daquelas que só os médicos sabem fazer: uma tosse, um diagnóstico, um remédio para aliviar a dor... Há muito que a vida trabalhava em seus dias, mais parecendo um vento confuso - ora revolto, ora levinho. E das muitas bordejadas que deu, uma lição tirou: nem tudo que é muito ruim nos assombrava infinitamente. Da mesma forma que os bons bocados dessa vida nos escapavam pelos dedos de uma forma ou outra.  (...) O sol já se despedia, com um lindo multicolorido sobre as casas confusas daquele bairro. Ela, como de costume muito apressada, se levantava do sofá quando seu pai, um velhinho cheio de rabugices, começou a fitá-la (ainda que sob o véu de olhos que não mais funcionavam como antes) seguidamente.  - O que foi? por que me olha? estou suja? Sabatinou ela. - Minha filha, sabe aqueles dias em que acordamos mas temos uma preguiça danada de l...

O convite do dia que vai ser

Na distância do seu, sou eu e também ela Dormes na bebida dos gregos  Do teu sexo, ousadia e desatino  Teus olhos rasgam com vigor a linha da minha racionalidade És brutalidade seca  Da dúvida, a dívida Sou a ponderação de um riso rasgado  Tu, o gozo infinito de uma felicidade desgarrada Mas, do lado do acaso, o choque s a c o d e assim sou eu   & tu. Por Natália Freitas

Um tanto de memória...

Q uem nunca sentiu vontade de agarrar uma boa lembrança para que não fuja? Ao contrário disso, quem nunca quis expulsar da cabeça aquele espaço de história nada agradável de lembrar? Por sorte, ambas as vontades nos escapam pelos dedos, e de uma forma tão autônoma que só nos resta seguir o curso. Pois é, no campo da subjetividade, a objetividade dá um trabalho danado. Nos últimos dias, tenho me deparado com uma quantidade significativa de fatos que remetem à questão da memória. Seja ela de forma individual, como um flash do meu vivido, seja ela evocada por situações de um cotidiano qualquer. Aos muitos que, como eu, não desfrutam de viagens de luxo, bebidas caras e emoções de plástico, só ela permanece,  a memória. A tal memória arde em mim. Poderia ter sido por outro motivo qualquer, certeza nunca terei, mas o fato é que mudar de cidade me fez ligar o botão rememorar. E desde quando?! Não sei ao certo. Era 2002 ou 3, não importa. Desde então, a terra dos esperto...

Ode à pungência

Enfadonha-me a vida desse jeito! De exceções para justificar o injustificável De ser maioria quando o assunto é a falta Quero mesmo é o calor, o contato, o suor Que à boca não seja vetado o direito de amar Que lhe seja permitido um clássico EU TE AMO Que, na ausência das palavras, seja permitido o silêncio significante  Quero mesmo é sentir-me no outro  Sem medo de a este ser proibido me olhar nos olhos e aceitar um chocolate por mim oferecido Nego o estranhamento, o impedimento, a naturalização do inaceitável Reivindico o simples, o leve... Que a todos seja permitido apreciar o crepúsculo de um dia calmo, o perfume das coisas, os olhares perdidos/achados Baterei na porta da felicidade até que ela me atenda  E só descansarei quando não mais precisarmos forjar um último dia do ano. Por Natália Freitas

Alguém viu Noel?

Há tempos que o bom velhinho não mais me engana. Para ser exata, desde que dei de cara com meu pai pondo meu presente embaixo da cama. Poxa, como eu não precisava ter tido aquela experiência! Tudo bem que o meu velhinho também era barrigudo e daria um bom papai Noel. Mas não, não era ele que eu queria encontrar naquela noite. Essa história me veio à mente quando dia desses eu me deparei com uma situação no mínimo endêmica das nossas relações fetichistas. Eu estava no ônibus de uma pitoresca cidade que, nos próximos dias, será meu novo endereço, Aracaju. Tudo convergia para ser mais um fim de tarde como qualquer outro: ônibus cheio, pessoas com rostos cansados e pouca paciência.  Já ouvi por várias vezes comentários do tipo: " Oh, como nessa época do ano tudo se enche de magia. É mesmo o espírito de natal." Creio que por ter ouvido tanto, terminei acreditando. Não fosse a surpresa que tive nesse tal fim de tarde em terras sergipanas.  Lá pelas tantas de minha...

Espoliação "consentida"

Escrevo. Apago. Escrevo e novamente apago... sob um movimento quase que automático. As ideias me parecem inertes. Não por falta do que dizer, ao contrário, por puro atropelo. Na ausência de vinho, bebida tema de belas crônicas galeanescas, resta-me o som, da música escolhida e, ainda mais, das ideias a fustigar minha cabeça.  É engraçado como as leituras mudam a partir da mudança das nossas próprias experiências. É mesmo a tal da dialética. A vontade de escrever esse post veio depois de reiniciar uma leitura realizada ainda em tempos de graduação. A obra, que mesmo depois de décadas é de uma vitalidade tamanha, é As veias abertas da América Latina , de autoria do Eduardo Galeano (tão citado neste espaço). Admira-me a capacidade com que ele passeia por temas tão instigantes, mas não menos doloridos, de forma tão laboriosa. Como ele disse em outra obra, suas letras são dedicadas a dar voz aos que são "desprezados por aqueles que desprezam as próprias ignorâncias". ...

Para os casos de porosidade, escorregue

o vento vadio e inebriante que soa,  ecoa aturde bate à porta que torta rebate  faz pensamento               cimento                                e dele, parte     Por Natália Freitas