quarta-feira, 21 de março de 2012

A poesia da falta


Não há escárnio na dor
Há somente o esquecimento do amor
Por um minuto sequer
Se se pudesse ter
O prazer daquilo que não purifica a alma
Mas que, de tanto prurido, faz coçar, arder

Sou o ar indigesto da felicidade pueril
Sinto falta da poesia que me falta
Temo a ausência orgânica

O soro que percorre minhas veias não ventila meu peito



domingo, 4 de março de 2012

Cadência sim. Decadência, jamais!

Ó, meu amor, a ti devoto todo meu querer
No riso, na dor, no labor e, ainda mais, no amor
É nos teus braços que desejo me entregar
Num bailado quebrado, atrapalhado e nada ensaiado desejo rodar
Por esse salão tão meu, tão seu 
Que faz da minha vida mais vida 
E que leva junto conosco todos aqueles sorrateiros 
Que, ao menos por uma noite, se deixam levar


A mediocridade nos deixou, por pura birra. 
Teimando em ser burra por não gostar de sambar
E pra ela respondemos: 
- Vá ser burra sozinha, porque queremos mesmo é sambar!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A insensata leveza que deveria ser

Cotidiano maldito esse. Faz de nós meros espectadores de nossas próprias peças. 


(...)


Ana, que amava Paulo, não considerava ter os atributos necessários para conquistá-lo. E ele somente amava os astros, estrelas... a solidão.
Rebeca percorreu milhares de quilômetros para realizar aquela seleção de trabalho para qual tanto se preparou. Mas, tadinha, chegou sete minutos atrasada... o suficiente para que descontroladas lágrimas percorressem seu rosto.
Um ninguém (que já foi alguém) está sentado na frente de uma agência bancária a implorar por moedas aos que lá passam. Uma pedra que sequer causa tropeços.
O sr. Najif Nassuh, dono de grande patrimônio, realiza mais um dia os movimentos rotineiros: pouco trabalha, muito suga e sabe utilizar como ninguém seus direitos de cidadão afortunado.
No mundo animal (aquele definido até certo tempo de irracional) a coisa funciona tal qual a melhor das orquestras. Cada um com seu papel definido, mas com uma afinada interdependência.
Na casa 31 de uma vila esquecida pelos ânimos da modernidade vivem uma senhora e menina astuta.  Ninguém nunca viu as duas juntas passeando na rua. Ora é uma, ora a outra. Sabe, dizem que é pura feitiçaria. Que na verdade as duas são a mesma pessoa. Parece até história de moça donzela que é transformada pela bruxa malvada em cisne.
O fato é que, mentira ou não, as danadas são como água e óleo.
Marcos conseguiu o emprego desejado. E o melhor, segundo o gerente, é sua inexperiência. Assim, a empresa vai poder untá-lo e colocá-lo na forma.

(...)

E, nesse imbróglio todo, as peças seguem. Os atores, no entanto, não sabem sequer para qual papel foram selecionados. Isso pouco importa. A gerência dessa sociedade maluca atenta que para nos tornarmos indivíduos empregáveis precisamos atuar e encarnar todos os papéis.

(...)

Mais um dia caiu. Lá vai ela por entre as nuvens. Um bailado tão adestrado, tão sedutor. Poucos a viram, veem e verão. Tem gente que nunca vai levantar a cabeça para olhar o céu. Isso porque o peso que lhes atravanca ombros, pescoço e todo o resto trepida por descanso. E olhar para o céu exige muita perda de tempo.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

monólogo de um grito que não foi

Esta história não pertence a ninguém. Nem mesmo ao tempo.
Peço-lhes licença, apenas a tomarei de empréstimo.
Mas não eu um corpo. E sim eu, uma vaga.
Por Rossana Marinho


Sim, uma vaga. Porque o dia raiou, mas no meu peito mora uma noite eterna.

Olho as pessoas no trânsito. A (a)normalidade é sorrateira. Apregoa na vida de uns tantos homens
e mulheres um cenário de ansiedade, reuniões infindáveis, contratos a fechar, mentiras a contar.
Não há susto nisso. Não há.
O que existe é a falta. Mas, de tanto faltar, a mim também foge.
Volto para casa. E o concreto do chão que piso é vagabundo. Ele não assegura o mundo sobre meus pés.
No espelho do banheiro um sinal de pressa. Respingos de pasta de dente...
- Um momento. Pensei numa coisa agora: por que nunca tive um jardim? Putz, a essa hora e eu pensando em porra de jardim.
- Ei, só mais uma coisa: já te passou pela cabeça que essa tua vida pode estar vencida? É, com prazo de validade expirado. 
De novo, não sei porque raios isso me veio à cabeça. Deve ter sido o sol esquentando os miolos o dia todo. Não. Isso é culpa da maldita reciclagem subjetiva. Sim, porque depois de anos usando a mesma xícara, lendo o mesmo jornal e adaptada ao mesmo homem, se se mexe num caquinho sequer a vida (des)anda.  

Se digo que não, perguntam quando.
Se nego deliberadamente, me pedem calma.
Se somente ouço, me gozam com entrosamento irritante.

... Ah, como era mais fácil viver (ou seria passar?!).

O fato é que a vida não é uma peça em cartaz. Nela não cabem ensaios.
Isso é o que eu acho. 
Vocês podem até dizer que sim, eles cabem. Que não só cabem, como são o eixo da boa vivência.

(Mão no queixo. Testa franzida. Um trago.)

(...)

Sabe do que mais, à merda a boa vivência. 
De que adianta destreza de análise quando o que falta é a materialidade do existir?
Comigo a dor só passa sentindo a dor. Depois de tanto senti-la, adormeço e fico em paz.
- Não sei porque me olham assim. O Cristo de vocês sangrou, sofreu. E é venerado até hoje. Por que então tenho que usar ataduras e sorrir?

A vida deve ser muito mais. Até agora não o foi. É fato. Mas o bom de não ser peça ou filme é que não tem final. Nem infeliz, nem feliz. Só é vida.

Peço desculpas se a história não agradou.
Quem sabe amanhã eu os presenteie com uma historinha regada a algodão doce. 


Quem sabe... 









quarta-feira, 10 de agosto de 2011

entre palavras

Era fim de tarde quando duas palavras se encontraram num parque. O acaso as levara ali. 
Tudo parecia muito bem. Muitas crianças se faziam presentes. Brincavam de um tudo e desatavam a chorar toda vez que uma mãe aparecia para acabar com a festa. O dia também fazia sua parte, estava bonito que só ele.
O encontro das palavras foi muito mais um esbarrão. Uma delas caminhava pelo parque como se buscasse algo. Mas o que era, nem ela sabia. A outra palavra avistara a amiga de longe e, primorosa que estava, correu para tecer o cumprimento. 
Falou-lhe do quanto havia viajado desde a última vez que se viram. Disse que fora personagem principal de um grande romance; que dera rima a um dantesco poema; que fizera isso e aquilo...
Contou à palavra 1 dos tantos projetos que a tomariam nos próximos meses. E falou tanto que nem se apercebeu que as suas palavras fizeram eco no imenso vazio que tomava o peito de sua amiga.
E não parou por um segundo sequer. Afinal, havia tanto tempo que não se viam, era normal. Pensava.
Seguiram-se horas e horas e a palavra 2 não fechava a matraca. E a palavra 1, receosa de parecer mal educada, só ouvia (ou ao menos tentava). 
Quando finalmente deu uma trégua, palavra 2 inflou os pulmões e passou a bola, melhor dizendo, as palavras para a outra. 
- E ai, menina. Agora é a sua vez. Conta um pouco o que andou fazendo por essa literatura de meu deus.
- Bem, como posso dizer? ... trabalhei nos bastidores.
- Humm, já sei. Andou nas margens de alguma história sem graça. Acertei? Perguntou palavra 2.

Palavra 1 coçou a cabeça, fincou o olhar em algum ponto fixo qualquer e disse:
- Estive em várias. Da alegre à vigarista, passando pela ácida. Na sem graça tambem me fiz presente. Mas sabe, ainda que em todas essas, eu nunca estava.

- Calminha, você bebeu? sim, porque isso só não é filosofia, é?! Resmungou a palavra atriz.
- Não sei. Devolveu palavra 1 sem erguer os olhos.

O jogo havia cansado a palavra 2, que de tanto se irritar com as evazivas da amiga, despediu-se e partiu.
Foi então que palavra 1 agachou-se próximo a uma árvore e continuou lá por horas.
Sem se dar conta, penetrou no mais íntimo de seus pensamentos.
E a memória revirou-lhe o mais fundo que podia. Nesse momento, a palavra 1 se deu conta do tanto que havia sido requisitada. 
Assim foi quando aquela moça perdera o menino que amava tanto mas que nunca lhe dissera.
Foi também com dona Genalva quando perdeu o marido depois de longos 50 anos de casados. Assim também o foi para Renato, pois nunca tivera forças para dizer ao seu pai o quanto o amava.
E assim havia sido para centenas de pessoas que por um motivo ou outro seguraram no fundo das entranhas as palavras mais importantes e também mais difíceis de dizer.
Palavra 1 se deu conta de que em todos esses momentos era ela que estava na ponta da língua de um alguém. E que, protagonista ou não, ela terminava sempre retornando guela abaixo.
Concluiu então que nunca fora amiga da boca, mas sim do coração e do estômago.
Mas isso palavra 2 nunca entenderia. Ninguém nunca entenderia ... 
isso porque as palavras foram feitas para brilhar.



domingo, 31 de julho de 2011

O que se faz com a educação parte I – tornar-se professor

Quando criança ouvia minha mãe dizer que escola era lugar de quem queria "estudar pra virar gente". 

De lá pra cá muitos anos se passaram. Muita coisa mudou na minha vida, exceto o tamanho. Mas isso é outra história.
Eu mudei de estado, abandonei a ideia de ser jornalista e de realizar o sonho da minha mãe de me ver dizendo boa noite em horário nacional. Desculpa, mãe, eu tentei!
Uma coisa, no entanto, não mudava. Eu continuava estudando. Não sei se mais, se menos. Com mais desprezo aos tradicionalismos dos livros, isso sim. Talvez por esse motivo eu tenha escolhido estudar História. Bem isso, "estudar" história e, não, "fazer" história, porque ao momento tudo que eu via me fazia crer na impossibilidade do indivíduo ser um agente histórico.


Não sei se me entendem. Não falo de uma história qualquer, onde somos meros assimiladores culturais. Refiro-me àquela onde homens e mulheres conseguem pintar o cotidiano com cores bem diferentes do mero rosa forjado.


E, então, a vida seguiu. Me formei e fui impelida a cair em campo, ou melhor, em sala. Dei aula de tudo. Para todo tipo de público. E eis que chegava a hora de cair de cara na tal história para qual tinha estudado. Eu lembrava da época de colégio e me questionava se passara anos na universidade para repetir o modelo de professor que norteou minha vida. Salvas exceções, é bem verdade. Já que tive uns modelos bem demarcados. E não, não era o que eu desejava.


Havia aprendido com alguns exemplares literários, tais como o velho barbudo, Marx, e com um certo poeta de "veias abertas", Eduardo Galeano, a amar o humano em seu sentido material.
E, nos poucos anos seguintes, havia aprendido a seco uma dura lição: a educação, por mais avançada que seja, nunca libertará o homem por completo. É necessário mais. O indivíduo é idéia, mas é imprescindível que a ela se some à ação.


Para mim, de nada ou pouco valia vomitar assuntos acerca do desenvolvimento da humanidade. Faltava a essência. Faltava o óbvio. Dar fala aos verdadeiros protagonistas. Era o servo, o escravo, o proletário. Estava decidido. Eu seria mera intérprete dos que nunca tiveram espaço na famosa e grandiosa roda da história. Mais isso só também não bastava. 


E essa história continua...

terça-feira, 26 de julho de 2011

"todo amor que houver nessa vida"





Este texto não é para você, leitor algum, leitor qualquer.
Também não o é para aquele que o acha que é: alguma coisa, alguma crítica.
Aqui cabe muito mais.


São palavras retorcidas de minhas entranhas que só buscam nascer.
Mas eu me estremeço, me torço, me encolho.
Finjo que durmo. É mais fácil.
E na calada da noite uma dor muito forte me toma.
Chamo o médico. Ele não vem.
O parto é inesperado. 
E, por entre as últimas fagulhas da penumbra, eis que me deparo com um leito
molhado, suado, de lençóis manchados.
Pois é, elas saíram.
Não têm meus olhos, nem meu torto nariz.
Entretanto, não fogem ao seu destino de joelho.
Como todas as outras: berram, exigem atenção e comida.
Também, como todas as outras, me enebriam com o cheiro particular,
com o macio da pele, com a tranquilidade do melhor dos sonos.
E, quando parecem minhas, lançam-se a  fazer companhia a um outro qualquer.