segunda-feira, 26 de setembro de 2016

ID essência

Água. Chaleira. Café.
Ebulição. 
Camomila. Água. Chá.
Transição.
Sampa. Sopro. Pulmão.
Poluição.
Catavento. Ar. Criança.
Distração.
Corpo.Velhice. Morte.
Evaporação.
Casa. Imagem. Memória.
Talhação.
Caderno. Palavras. Tempo.
Deglutição.
Pés. Mar. Felicidade.
Coração.



domingo, 27 de março de 2016

Memória, a paga do tempo

- Eu rasgaria o tempo assim pudesse!
- O tempo não, a lembrança dos que dele lembram.

(...)

Vejo uma rua.
Sessenta e quatro ladrilhos a me apontar que o esgoto ainda fede.

(...)

Baco treme em risos e avisa a Zeus que a composição desta estória está vermelha de seus melhores vinhos.

(...)

Direcionam ao meu front canalhices de toda ordem. E até me fazem crer que a minha história anda atordoada, esquizofrênica.

(...)

E lhes respondo: Sim. Na minha esquizofrenia, ouço vozes de um passado expurgado com sangue, silêncio e dor.

(...)

E a minha história, meu caro, agora acende um cigarro, respira fundo e espera as cortinas se abrirem para o espetáculo recomeçar!



sábado, 16 de janeiro de 2016

Extrema(zia)

Andei parada na inobservância dos tempos
Não quis entrar
Perdi-me nos aléns das brechas Asiáticas
O alento escuro esfriou a tinta
Não quis entrar
Poesia perdera-se no meu sertão molhado
Havia incômodo naquelas transparentes páginas impressas
Não quis entrar
Consultei astros de toda ordem... ah, aquela linha! era minha...
Só depois descobrira!
(...)
Rasguei meu veto
Lambi letras em regras tortas
E quis entrar


domingo, 8 de novembro de 2015

Retorno ao ponto de partida!


Quando criança, eram poucas as brincadeiras em que eu e minha mãe interagíamos.
Naquela idade eu nunca ia entender mas o motivo era que que dona Ninutia teve que assumir
o posto de um fogão aos nove anos para que meus avós saíssem para trabalhar (mesmo que para isso ela precisasse de um banco para alcançá-lo).
E assim fora por anos, dona Ninutia, minha mãe, cozinhando para quase dez irmãos.
Então, da infância solapada, Ninutia lembrava de duas peraltices de sua pequenez que eram igual a ouro pra bandido.
Vamos lá?!

1) Pra você que gosta de manga a receita é chupá-la e se lambuzar até não guentar mais. Epa! Calma um pouco, que dona Ninutia dizia que o brinquedo só funcionava se você se segurar e conseguir deixar o caroço ainda doce e cheio de "cabelinho".
Bozo
1.1) Em seguida, a senhora minha mãe tomava o caroço da minha mão bem delicadamente num "me dê logo isso, mundiçada. Daqui a pouco engole até o caroço." e ia lavá-lo com xampu e creme (isso mesmo, salão de beleza pra caraço de manga!).
1.2) Depois de lavado e devidamente peteado (tipo palhaço Bozo, com a diferença de que rolava uma franjinha no sr. caroço), minha mãe desenhava uma carinha muito bem elaborada e prendia um cordão com um preguinho para que eu pudesse sair pela rua a puxar meus lindos caroços.
Eu adorava aquilo! Corria pra lá e pra cá.
Sabe o que era a sensação de poder ter quantos bonecos você quisesse (tudo bem que a barriga dava uma inchada!)? Só VOCÊ?

(...)

Se você largou esse joguinho barulhento e caro e entrou na minha, a próxima parada irada que dona Ninutia me deixou de legado foi o desenho cego. Oxe?! Sabe não, é?! Ah, então ganhei mais um ponto!
Desenho cego é melhor do que assistir jogos mortais comendo iogurte de morango com geleia de frutas vermelhas. Sacou a piada?! Não... então vamos ao desenho, porque você está pior do que eu imaginava, mas tem salvação. Eu estou aqui!

2) Dona Ninutia pegava folhas e lápis (nada de borracha, vuh!).
2.1) Ela mandava todo mundo fechar os olhos. Nada de enganar. O melhor da brincadeira é justamente isso. Em seguida, dona minha mãe pedia pra gente pensar numa imagem: pessoa, lugar, animal... valia de tudo.
2.3) Ainda de olhos fechados, nosso trabalho era transferir para o papel aquilo que fora pensado. Imagine o trê lê lê que dava. Era um tal de todo mundo tão concentrado e rindo, que num sei não!
2.4) Aah, mas a melhor parte era quando abríamos os olhos. Era cachorro sobre nuvem, dona Ninutia embaixo da casa (que "não tinha tenho, não tinha nada")... e ríamos, ríamos, ríamos muito tentando decifrar que diacho era aquilo que a outra criança tinha desenhado.

(...) E você pensa que dona Ninutia se salvava das "mangações"? nadinha. Ela, como criança, tava ali era pra brincar.





P.S.: E assim eu retorno a este espaço que me é tão paridor de sensações e lavador de nós que só aqui sou capaz de me desconstruir para seguir indo. Agradeço!



sexta-feira, 30 de maio de 2014

O desfazendo

Foto: Rossana Marinho

Era o sol que se abria
rasgando o dia de hoje de sua agenda.
- Aai, aquela sintonia... de cheiros, cores e sons...
Só por hoje, para o dia de hoje, iria desfazer.
Desfazer o arquiteto, que arquitetou que tudo tinha que ser arquitetado.
Desfazer as lições de casa, culpadas pelas horas de brincadeiras perdidas.
Desfazer os acertos, porque os erros são mais aprazíveis. Nos rasgam os joelhos e deixam cicatrizes em belos desenhos.
Mais tarde, quando operada toda a desfazança, ela sonharia com um mundo onde crianças pequenas, crianças grandes e, até lesmas, aguardariam com ansiedade o nascer do sol.
Da mesma forma, ficariam elas, todas elas, bem quietinhas a olhar a dança do esconde desse velho amarelo.

domingo, 13 de abril de 2014

Quando chuva


Quando chuva eu era criança. A gente saía da escola correndo e chegava em casa parecendo pintinhos.
A mãe nos dizia, tira essa roupa molhada que é pra não adoecer!
Quando chuva a gente obedecia melhor a mãe porque tudo ficava mais lento e dava até vontade de obedecer. Aquele friozinho esquentava ainda mais o coração.
Quando chuva ela gritava da cozinha, venham comer, a comida tá na mesa!
Mas, quando chuva, a luz também ficava preguiçosa e ia embora. Era quando a mãe enchia a casa de velas e tudo ficava melhor. Os trovões davam medo, mas a mãe tava lá e nada podia nos acontecer.
O telhado mostrava sua gastidão. Aquele monte de buraco fazia a casa ficar toda ornamentada. Era um tal de balde aqui, bacia ali...
Quando chuva até o almoço ficava mais gostoso. Aquele cheirinho de terra molhada acariciava a pouca carne da penela. Mas não tinha problema, no fundo no fundo, a gente queria mesmo era o momento.
Éramos nós três. Eu, o irmão menor e a mãe.
Quando chuva depois do almoço a gente dormia, e como era bom aquele sono...
Quando chuva a gente acordava preguiçoso, pulava pro sofá coçando os olhos e ia ver o filme da tarde.
Depois disso tudo, a chuva dava adeus e a mãe gritava, vá comprar o pão e leve seu irmão!
Quando chuva a vida se apresentava quente: de amor e de preguiça.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Pulso


                                                                                                               

O escuro por não suportar o claro
Descer degraus por não conseguir subi-los

(...)

É a mente confrontada pelo espírito
                                                      ... como que um martelo à parede
... e ela cruzou mais uma rua ...  


Danou-se na danação do dia
E por lá ficou

(...)

O corpo eletrizado
E um pulso infeliz que não descansava-lhe os ouvidos
Ouve?
Mãos suadas, boca seca
Era o momento oportuno para uma dança
Tomou os pensamentos pelos braços, fechou os olhos e dançou

(...)

E o vento soprou
E o sol ardeu
E o chão rasgou-lhe as solas dos pés
Sangrou
Chorou, chorou, chorou

(...)

As lágrimas secaram em seu rosto
(...)
Ah, aquela música... 
(...)
E o sopro soprou-lhe maresia
Agradeceu
Bebeu
E devolveu ao mundo um sorriso vertiginoso.