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Bem de altitude

Aprendi a voar desde muito cedo. E, de tempos em tempos, preciso me puxar pelos pés. Por vezes esqueço, e me dano a subir, subir, subir.
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Língua

Mulher, substantivo que bem poderia ser verbo.
Ou advérbio de intensidade. Para ambos, mulher seria signo para dizer sobre aquilo que é vívido, nobre, intenso, exemplo, voraz, doce, sábio, belo. Mulher movimento, mulher ação. Qualidade de ser mulher.
"Mulheriei o dia e ele me mulheriou de volta" "Estudei mulhermente hoje" "Mulheriaram Paris num só gole "
Na próxima reforma linguística, irei pessoalmente reivindicar tal inclusão. Que, de tão digna, vai deixar as aulas de português mais mulher. Poetas terão um novo recurso para materializar em letras a explosão de sentimentos ainda sem título.
Mulheremos!




Sinopse

Ato I

Antes era a brecha.
Intermediada pelo caos.
Um assombro de paz.
E uma janela aberta.
História não escrita.
Gestos gastos.
Uma esquina.
Chão pisado de pedra sabão.
Seis casas até o céu da amarelinha.
Pulou uma.
Outra.
E outra.
Chuva que ganhou o jogo.
Escooorre giz.
Escorre.

Ato II

Faxina no armário.
Levou o que cabia no tempo.
Daquela bolsa velha, apenas um zíper pra tragar as expectativas.
Um amor de querer:
pular, beijar, amassar, molhar.
História mal escrita.
Varreu os cacos.
Pra debaixo do tapete.
Canção ensaiada de não.

Ato III

Ela não era só forte.
Não queria. Não podia.
Foooorte.
Era aquilo tudo. Aquilo pouco. Aquilo muito.
E era.
Também, só ela.
Estava quase lá. Sendo dela.
E o mundo disse:
-pera aí, tá indo aonde?

Ato IV

Estava ali no meio do salão.
Rodopiava ... piava.
Não lhe era difícil sentir a gota de suor que escapava pelas costas.
A saia giraaaava. Olhos fechados. Sentia.
Tudo podia ser assim, tão simples.
Um corpo. Movimento.
Dizem que equilíbrio é se movimentar pr…

Um risco

há um encanto em suas linhas
um punho que apruma e ruma ao novo
giro e mais giro. e outro giro. tu te mostras
extrapola os teus círculos. posso sentir
caligrafia obedecida
voz empostada
sobraram as brechas
preenchidas pelas deformidades
avulsas
incoerentes
tangentes
de um mesmo caminho solitário
que une a todas nós
somos letra pra fazer poema
somos alfabeto pra fazer revolução

Por Natália Freitas

Cabrita solta

Há tantas elas em mim Negras há Indígenas também Há tantas elas em mim Amasiadas Largadas Amadoras Rasgadas Sabedoras Há tantas elas em mim E por todo lugar que passo Uma delas tá ali Em dia de sol danado Solta o aço dos dentes Há tantas elas em mim Passeia molhada e descalça De ventre esguio e cabelos maremotos Há tantas elas em mim Saiu sozinha na madrugada Quebrou regras, vielas Ergueu o copo limpo questionável Brindou à morte, aos orixás, à vida Kalunga Há tantas elas em mim E não há nenhuma Que detenha Explique Defina Nesse mundo todo Quem delas mais assobia: Muié, eu to aqui


Por Natália Freitas

Guerras

Estou agora numa leitura.
Sobre um tempo de guerras e de pessoas costurando dignidades.
Estou agora absorta em mim. O livro já está sobre o colchão e eu em ti.
Não é possível, disse-me o tempo. É urgente, disse-me a memória.
Ela vagou sobre mim. Abriu uma trincheira insólita.

Vejo meu corpo deitado. Estou molhada da lama. E olho para o céu.
Uma vontade dilacerante de te contar por onde andei esses anos.
A razão me pune. Diz pra eu ficar muda e intacta.
A lama continua a umedecer minhas costas e cabelos.
E eu agora só queria te contar cada página desse livro, como nos velhos tempos.
A razão me chama tola. Me deixa de castigo, ali.. com o corpo úmido de lama.
Então me viro. Puxo o lençol e fecho os olhos.
Outro bombardeio.


Por Natália Freitas