Pular para o conteúdo principal

Silêncio e só

Mais um dia findou para ela. Abre a porta de casa, nada mudou de lugar.
Pensa alto... seria melhor retirar o sofá daquela parede.
De tão cansada, joga o corpo sobre a cama. Hoje em particular os ombros lhe pesam ainda mais.
Olhos fechados, breve silêncio (os pensamentos dão uma trégua). Um riso largo é um cartão de visita para criar coragem e botar a cabeça na janela. Lá embaixo, uma menina linda brinca com suas bonecas.
Em uma das mãos ela segura um chocolate e o faz com tamanha gana que o perde por entre os dedos.
Num ato ligeiro e sapeca lambe dedo por dedo e limpa a pequenina mão em seu vestido, agora não mais branco.
A rua oferece um cenário de cotidiano entediante. Latidos, buzinas... o cheiro convidativo do jantar vindo do apartamento ao lado.
Tira a roupa como se pedindo que elas mesmas fizessem a tarefa. Chico Buarque para dar coragem. Chuveiro ligado, deixa a água cair sobre seu corpo por um longo tempo. Ao menos a aparência fica mais receptível. Mas ainda não é o bastante, um sentimento de oquidão toca o peito. Ele é companhia cativa, desde quando?! 
O livro na cabeceira olha para a moça cabisbaixa e oferece-lhe o final daquele poema abandonado dias atrás. 
Leitura mais apropriada não poderia existir para tanta solidão. "Bem no fundo" era isso que ela sentia...

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

(Paulo Leminski)

... recebe um abraço do travesseiro e adormece, amanhã será o novo do mesmo.


Por Natália Freitas



Comentários

  1. Tem gente que tem que quebrar o pé pra atualizar o blog! hehe..

    Ei, mto bacana essa postagem! Se a autora também for a personagem, digo que imaginei cada cena.. ;)

    O poema do Leminski me lembrou uma música que, só por acaso, andei ouvindo esses dias - além de me lembrar de Curitiba, claro. Pois é, Kahlito, problemas... sempre existir(ão)am.

    =**

    ResponderExcluir
  2. Nosssa! Ja havia comentado convosco...Q lindeza de poema! e Corrigindo o Arantes..a ordem dos fatores é contraria: o pezito foi dps ;)

    Po, li realizando o poema, os fatos da cronica!

    Lindamente escrito e sensibilizado!



    Dá autografo dá! ^^

    ResponderExcluir
  3. Assim como todos os outros posts, esse ficou simplesmente maravilhoso!Sem contar que como havia comentado antes, esse eu gostei muito mais!Enfim.
    É...o cotidiano em palavras...
    Congratulations!
    xoxo:*

    //Jéssyca Vieira

    ResponderExcluir
  4. muito bonito. triste, mas não menos bonito. vc monta toda uma reflexão sobre a falta de felicidade com poucas palavras. e isso é bom. deixa o leitor fazer o resto. bons escritores fazem isso. embora conheça tudo o que foi descrito de perto (pq vi isso), o texto surpreende pela beleza. parabens.
    joao

    ResponderExcluir
  5. tirando a parte do travesseiro (que eu achei down demais), gostei de todo o conjunto. e a poesia foi joia. ainda foi publicar alguma foto com ela de legenda.
    )

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Memória, a paga do tempo

- Eu rasgaria o tempo assim pudesse!
- O tempo não, a lembrança dos que dele lembram.

(...)

Vejo uma rua.
Sessenta e quatro ladrilhos a me apontar que o esgoto ainda fede.

(...)

Baco treme em risos e avisa a Zeus que a composição desta estória está vermelha de seus melhores vinhos.

(...)

Direcionam ao meu front canalhices de toda ordem. E até me fazem crer que a minha história anda atordoada, esquizofrênica.

(...)

E lhes respondo: Sim. Na minha esquizofrenia, ouço vozes de um passado expurgado com sangue, silêncio e dor.

(...)

E a minha história, meu caro, agora acende um cigarro, respira fundo e espera as cortinas se abrirem para o espetáculo recomeçar!


Por Natália Freitas



Cabrita solta

Há tantas elas em mim Negras há Indígenas também Há tantas elas em mim Amasiadas Largadas Amadoras Rasgadas Sabedoras Há tantas elas em mim E por todo lugar que passo Uma delas tá ali Em dia de sol danado Solta o aço dos dentes Há tantas elas em mim Passeia molhada e descalça De ventre esguio e cabelos maremotos Há tantas elas em mim Saiu sozinha na madrugada Quebrou regras, vielas Ergueu o copo limpo questionável Brindou à morte, aos orixás, à vida Kalunga Há tantas elas em mim E não há nenhuma Que detenha Explique Defina Nesse mundo todo Quem delas mais assobia: Muié, eu to aqui


Por Natália Freitas

Um risco

há um encanto em suas linhas
um punho que apruma e ruma ao novo
giro e mais giro. e outro giro. tu te mostras
extrapola os teus círculos. posso sentir
caligrafia obedecida
voz empostada
sobraram as brechas
preenchidas pelas deformidades
avulsas
incoerentes
tangentes
de um mesmo caminho solitário
que une a todas nós
somos letra pra fazer poema
somos alfabeto pra fazer revolução

Por Natália Freitas