segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Alguém viu Noel?

Há tempos que o bom velhinho não mais me engana. Para ser exata, desde que dei de cara com meu pai pondo meu presente embaixo da cama. Poxa, como eu não precisava ter tido aquela experiência! Tudo bem que o meu velhinho também era barrigudo e daria um bom papai Noel. Mas não, não era ele que eu queria encontrar naquela noite.

Essa história me veio à mente quando dia desses eu me deparei com uma situação no mínimo endêmica das nossas relações fetichistas. Eu estava no ônibus de uma pitoresca cidade que, nos próximos dias, será meu novo endereço, Aracaju. Tudo convergia para ser mais um fim de tarde como qualquer outro: ônibus cheio, pessoas com rostos cansados e pouca paciência. 

Já ouvi por várias vezes comentários do tipo: " Oh, como nessa época do ano tudo se enche de magia. É mesmo o espírito de natal." Creio que por ter ouvido tanto, terminei acreditando. Não fosse a surpresa que tive nesse tal fim de tarde em terras sergipanas. 

Lá pelas tantas de minha viagem, entrou no ônibus uma certa figurinha que não tinha mais do que 8 ou 9 anos. De cheio que estava o transporte, eu só ouvia aquela pequenina voz começando o ritual de apresentação. Neste momento, eu só pensei: "como é cotidiano essas crianças pedindo em transportes públicos". Meu espanto se deu quando o menino começou a explicar o que o trazia ao coletivo. Quem raios imaginava um garoto pedindo ajuda para comprar sua roupinha de natal?! roupinha de natal, isso mesmo!

Pois é, mas o meu estranhamento não parou por ai. Não bastasse um garoto ter coragem de pedir para ter uma roupa nova de natal, a reação das pessoas foi ainda mais surpreendente. Os passageiros olhavam para o garoto como a um bandido de colarinho branco. Ouvi até um "Era só o que me faltava... pedir pra comprar roupa nova. Se ainda fosse pra comprar comida..." O fato é que poucos o ajudaram. O menino desceu do ônibus e eu o acompanhei com os olhos até onde pude. E não conseguia parar de pensar. Pensar no tanto de antagonismos que regem essa sociedade. Nem com tantas luzes a iluminar a cidade, nem assim... 

Enquanto as ruas fervem de pessoas a perambular por um modelito novo. Enquanto crianças fazem suas listas para o velho Noel. Enquanto pais compram presentes para suprir a falta de um beijo, de uma boa conversa. Enquanto amigos e nem tão amigos compram presentes para confraternizações chatas. Enquanto essa tal normalidade vigora, lá embaixo, para os de baixo, só resta olhar pra cima e ver a que horas esse tal trenó chegará.

Um comentário:

  1. Veja qto paradoxo nas falas dessas pessoas ne?! Lamentável!

    Bem observado, srta Rosita!



    Em breve este blog nos trará a realidade Sergipana como ela é..e isso muito me instiga a curiosidade!


    Grande, bjo!

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