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Memória, a paga do tempo

- Eu rasgaria o tempo assim pudesse! - O tempo não, a lembrança dos que dele lembram. (...) Vejo uma rua. Sessenta e quatro ladrilhos a me apontar que o esgoto ainda fede. (...) Baco treme em risos e avisa a Zeus que a composição desta estória está vermelha de seus melhores vinhos. (...) Direcionam ao meu front canalhices de toda ordem. E até me fazem crer que a minha história anda atordoada, esquizofrênica. (...) E lhes respondo: Sim. Na minha esquizofrenia, ouço vozes de um passado expurgado com sangue, silêncio e dor. (...) E a minha história, meu caro, agora acende um cigarro, respira fundo e espera as cortinas se abrirem para o espetáculo recomeçar! Por Natália Freitas

Extrema(zia)

Andei parada na inobservância dos tempos Não quis entrar Perdi-me nos aléns das brechas asiáticas O alento escuro esfriou a tinta Não quis entrar Poesia perdera-se no meu sertão molhado Havia incômodo naquelas transparentes páginas impressas Não quis entrar Consultei astros de toda ordem ... ah, aquela linha! era minha Só depois descobrira! (...) Rasguei meu veto Lambi letras em regras tortas E quis entrar Por Natália Freitas

O desfazendo

Era o sol que se abria rasgando o dia de hoje de sua agenda. - Aai, aquela sintonia... de cheiros, cores e sons... Só por hoje, para o dia de hoje, iria desfazer. Desfazer o arquiteto, que arquitetou que tudo tinha que ser arquitetado. Desfazer as lições de casa, culpadas pelas horas de brincadeiras perdidas. Desfazer os acertos, porque os erros são mais aprazíveis. Nos rasgam os joelhos e deixam cicatrizes em belos desenhos. Mais tarde, quando operada toda a desfazança, ela sonharia com um mundo onde crianças pequenas, crianças grandes e, até lesmas, aguardariam com ansiedade o nascer do sol. Da mesma forma, ficariam elas, todas elas, bem quietinhas a olhar a dança do esconde desse velho amarelo. Por Natália Freitas

Quando chuva

Quando chuva eu era criança. A gente saía da escola correndo e chegava em casa parecendo pintinhos. A mãe nos dizia, tira essa roupa molhada que é pra não adoecer! Quando chuva a gente obedecia melhor a mãe porque tudo ficava mais lento e dava até vontade de obedecer. Aquele friozinho esquentava ainda mais o coração. Quando chuva ela gritava da cozinha, venham comer, a comida tá na mesa! Mas, quando chuva, a luz também ficava preguiçosa e ia embora. Era quando a mãe enchia a casa de velas e tudo ficava melhor. Os trovões davam medo, mas a mãe tava lá e nada podia nos acontecer. O telhado mostrava sua gastidão. Aquele monte de buraco fazia a casa ficar toda ornamentada. Era um tal de balde aqui, bacia ali... Quando chuva até o almoço ficava mais gostoso. Aquele cheirinho de terra molhada acariciava a pouca carne da penela. E não tinha problema, no fundo no fundo, a gente queria mesmo era o momento. Éramos nós três. Eu, o irmão menor e a mãe. Quando chuva depois do almoço a g...

Pulso

                                                                                                                O escuro por não suportar o claro Descer degraus por não conseguir subi-los É a mente confrontada pelo espírito                                                                                                                 ... como que um martelo à parede ... e ela cruzou mais uma rua    ...

Lastro da escrita

Tic-tac. Tic-tac, avisam-nos os relógios todos os dias. Ao invés disso, eles deveriam dizer: menos um, menos um, menos um. Menos um de tudo. Do tempo que transpiramos. Da distância de coisas, pessoas e pensamentos. (...) Buzinas irritadas, transito infernal. Todos cheiram a formol. Prédios são erguidos, enquanto outros teimam por desejar o chão. (...) Aparelhos eletrônicos nos dizem a hora de levantar, quanto comer, correr, beijar, amar... (...) Láááá longe. Em algum lugar dessa vastidão que é o mundo. Existe um eu. Eu que viveu e vive tentando se encaixar. Encontrar aquela casa de árvore feita de madeiras de demolição. Um lugar no mundo. Um estar no mundo e em si. Estou agora sentada escrevendo e refletindo sobre o que li antes do almoço. Leituras que, espero eu, sirvam para alimentar minhas próximas linhas acadêmicas. Mas eis que o velho incômodo bate à porta e resmunga: - É isso que desejas? É isso que te define? (...) E sou obrigada a mais uma vez pa...

Folha que cai, resquícios de um tempo

Não adiantava. Poderia tentar se segurar mais uma vez, mas não adiantava. O vento soprava-lhe o peito com tanta força que ela percebera. Era chegada a hora. Nos seus anos de folha, todos haviam lhe contado que o fim seria esse.  Um galho seco. Um elo desfeito. E um voo para o chão. E lá se foi ela. Bailando pra lá e pra cá. Pra lá e pra cá... Mas o que ninguém contara era o percurso. Estava ela, uma folhinha atrevida tentando voar diferente, ainda que às folhas, em seu fim, só coubessem o aceite de cair, murchar, secar e sumir. Por um instante ela jurara sentir que um lindo bailarino tomara-lhe os braços para uma última dança. Aceitou sem pestanejar e lá se foi. A plateia se fazia presente. O sol brilhava como nunca e olhá-lo ao cair era ainda mais ofuscante. Mais parecia que seus raios a abraçavam para proteger-lhe da futura queda. Foi então que ela pois-se a relembrar. Das brincadeiras com as outras folhinhas quando criança; Daqueles frut...